
Abraham Kuyper e a Soberania de Cristo Sobre Cada Centímetro Quadrado
Há teólogos que escrevem sistemas. Há outros que fundam jornais, partidos políticos e universidades para que o sistema saia do papel e habite as ruas. Abraham Kuyper foi dos segundos, e é por isso que, na história que estamos contando, ele representa o momento em que a cosmovisão cristã deixa de ser apenas teoria e se torna programa de vida.
No texto anterior desta série, vimos James Orr lançar, em 1893, o primeiro tratamento sistemático de uma cosmovisão cristã,como resposta ao historicismo alemão como um sistema centrado na Encarnação. Neste post, atravessamos o Mar do Norte até a Holanda para conhecer Abraham Kuyper (1837–1920): teólogo, jornalista, educador, fundador de universidade e, entre 1901 e 1905, primeiro-ministro dos Países Baixos. Poucas figuras na história do cristianismo reformado uniram, com tanta amplitude, pensamento e ação.
Um Homem de Muitos Púlpitos
Podemos dizer que, Kuyper não coube em uma única profissão. Foi pastor da Igreja Reformada Holandesa, fundou o jornal De Standaard e o diário De Heraut, em 1880 criou um dos primeiros partidos políticos confessionalmente cristãos da Europa moderna, o Partido Anti-revolucionário, fundou a Vrije Universiteit (Universidade Livre) de Amsterdã, instituição pensada desde a origem para operar sob princípios explicitamente cristãos, livre tanto do controle estatal quanto do eclesiástico.
E ainda encontrou tempo para ser pai de oito filhos, fruto do seu casamento com sua esposa, Johanna Schaay: cinco filhos e três filhas.
No entanto, essa multiplicidade não era dispersão, e sim, a aplicação prática de uma convicção teológica muito precisa. Para Kuyper, se Cristo é de fato Senhor sobre a totalidade da existência, então nenhuma esfera da vida, e quer seja ela política, educação, imprensa, ciência, arte, pode ser tratada como neutra ou indiferente à fé. Para ele, a cosmovisão cristã, tal como Orr havia começado a sistematizá-la, precisava de corpo institucional para não permanecer apenas na ideia.
As Palestras de Princeton: Calvinismo Como Sistema de Vida
Porém, o ponto culminante da contribuição de Kuyper para a história do conceito que estamos traçando aconteceu em 1898, quando ele foi convidado a proferir as prestigiosas Stone Lectures no Princeton Theological Seminary, nos Estados Unidos. As palestras foram publicadas sob o título Lectures on Calvinism (publicado no Brasil pela Editora Cultura Cristã com o título de “Calvinismo” ) e nelas Kuyper faz algo ainda mais ambicioso do que Orr havia feito cinco anos antes.
Onde Orr sistematizara “a visão cristã de Deus e do mundo” de forma relativamente geral, Kuyper argumenta que o calvinismo especificamente (não apenas o cristianismo em termos amplos) constitui uma cosmovisão (wereld- en levensbeschouwing, em holandês: literalmente “visão de mundo e de vida”) completa e coerente, com implicações diretas para religião, política, ciência e arte. Ele identificou o calvinismo, ao lado do paganismo, do islamismo, do catolicismo romano e do modernismo, como sendo um dos grandes sistemas de vida rivais que disputam a alma da civilização ocidental. Onde cada um oferecia respostas próprias e mutuamente incompatíveis às questões últimas sobre Deus, o homem e o mundo.
Naugle situa esse momento como decisivo: é com Kuyper que a cosmovisão cristã passa a ser articulada não apenas como doutrina teológica acadêmica, mas como sistema civilizacional, capaz de competir, no mesmo terreno amplo em que o historicismo alemão havia colocado a questão, com as grandes cosmovisões seculares e religiosas rivais de sua época.
“Não Existe um Centímetro Sequer…”
A frase mais citada de Kuyper, pronunciada em seu discurso inaugural na Vrije Universiteit, em 1880, resume com precisão essa visão:
“Não existe um centímetro sequer, em todo o domínio de nossa existência humana, sobre o qual Cristo, que é Soberano de tudo, não clame: Meu!”
Longe de ser uma retórica vazia, essa frase representa a conclusão lógica de sua doutrina da soberania de esferas. Para Kuyper, Deus estabeleceu diferentes esferas na criação; família, igreja, Estado, ciência, arte, economia, cada uma com sua própria autoridade delegada e sua própria responsabilidade diante de Deus, sem que uma esfera deva subordinar-se indevidamente à outra. Assim, o estado não deve governar a igreja; a igreja não deve governar a ciência; mas todas, sem exceção, respondem à soberania última de Cristo.
Com essa arquitetura, Kuyper resolve de modo elegante, uma tensão que atravessa toda a nossa série: como afirmar que Cristo é Senhor de tudo sem cair no autoritarismo eclesiástico que caracterizara certas formas de cristandade medieval. E a resposta de Kuyper é: soberania de Cristo sobre todas as esferas, mediada pela autonomia relativa de cada esfera dentro de seu próprio domínio.
Graça Comum: Por Que o Mundo Não é Só Ruína
Outra contribuição decisiva de Kuyper para o desenvolvimento do conceito de cosmovisão cristã é sua doutrina da graça comum (gemene gratie). Diante da pergunta óbvia; se o mundo caiu no pecado, por que ainda existe beleza, verdade e bondade genuínas fora da igreja, na ciência, na arte e na cultura de não-cristãos?
Kuyper responde que Deus, em sua misericórdia, restringe os efeitos plenos do pecado e distribui dons de sabedoria, talento e discernimento a toda a humanidade, não apenas aos remidos.
Com essa doutrina evitamos dois erros simétricos que rondam qualquer cosmovisão religiosa totalizante: de um lado, o sectarismo que rejeita como sem valor tudo o que vem de fora da igreja; de outro, um sincretismo religioso que trata toda cultura como igualmente válida, independente de seu fundamento último. A graça comum permite a Kuyper e a toda a tradição que o segue, engajar seriamente com filosofia, ciência e cultura seculares, reconhecendo nelas dons genuínos de Deus, sem abrir mão da convicção de que apenas a cosmovisão cristã, fundamentada na revelação, oferece o quadro último e verdadeiro de interpretação da realidade.
Kuyper Diante do Historicismo Alemão
Vale notar como Kuyper responde ao desafio que atravessou toda esta série desde Hegel e Dilthey. Ele não negou que ideias e sistemas possam surjir em contextos históricos específicos. Aliás, o próprio calvinismo, floresceu num tempo e lugar determinados. Mas para Kuyper isso não implica em relativismo: uma cosmovisão pode ser historicamente situada em sua articulação sem deixar de expressar uma verdade que transcende sua época, porque sua fonte última não é o Espírito histórico hegeliano nem a estrutura psicológica da vida em Dilthey, mas a revelação de um Deus que está, ele mesmo, acima e fora da história que criou.
O Que Vem a Seguir
A obra de Kuyper geraria, nas gerações seguintes, uma escola inteira de pensamento na Holanda reformada, conhecida como neocalvinismo, que aprofundaria filosoficamente muitas de suas intuições.
No próximo texto desta série, veremos como dois pensadores holandeses, Herman Dooyeweerd e Cornelius Van Til, transformam a cosmovisão cristã de Kuyper em um sistema filosófico rigoroso, perguntando não apenas o que a cosmovisão cristã afirma, mas por que toda razão humana, cristã ou não, já opera, inevitavelmente, a partir de pressupostos religiosos últimos.
“Dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.” (Rm 11.36)



