Autor: Elias krygsmann

  • J. R. R. Tolkien — Sobre Histórias de Fadas

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    DICAS DE LEITURA

    08 — O que as histórias têm a ver com a verdade?

    III — APRENDER A SER FORMADO

    J. R. R. Tolkien — Sobre Histórias de Fadas

    Nosso percurso com James K. A. Smith até aqui nos levou a repensar aquela ideia tão comum de que nós somos feitos pelo que cremos.

    O problema é que, além daquilo que cremos, somos também feitos pelo que desejamos, pelos hábitos, pelas práticas, pelos ambientes. E, ao contrário do que podemos pensar, não é suficiente indagarmos o que uma pessoa sabe, mas o que ela aprendeu a amar e qual vida ela está aprendendo a desejar por meio das práticas às quais é submetida.

    E, assim, abrimos outra questão:

    Quais são os mecanismos pelos quais aprendemos a desejar certas coisas? Como é que certas vidas se tornam admiráveis? Como é que certas escolhas se tornam desejáveis? Como é que certas formas de existir se tornam modelos a ser imitados?

    Parte da resposta está nas histórias.

    A partir da infância, somos expostos a histórias nas quais heróis e vilões se opõem; coragem e covardia se opõem; fidelidade e traição se opõem; sacrifício e egoísmo se opõem. Somos expostos a escolhas que nunca teríamos de tomar. E, ao fazê-lo, somos capazes de imaginar as consequências de diversas possibilidades de vida.

    Em um determinado momento, sem sequer sabermos dizer por que o fazemos, começamos a admirar um personagem. Sem sequer saber formular uma teoria sobre a justiça, começamos a detestar a injustiça. Desejamos a coragem, lamentamos a traição, e aguardamos a redenção.

    Isso não quer dizer que todas as histórias sejam morais, tampouco que a ficção substitui a reflexão crítica. Mas isso quer dizer que as histórias que lemos moldam a forma como imaginamos o mundo, e, portanto, o que merece ser amado.

    É nesse contexto, nesse território, que podemos encontrar J.R.R. Tolkien.

    Mais conhecido hoje no mundo por O Hobbit e por O Senhor dos Anéis, Tolkien foi um filólogo, estudioso de línguas e professor de literatura. Em seu ensaio Sobre Histórias de Fadas, defende intelectualmente a fantasia e tenta responder a seguinte pergunta, que ainda hoje é pertinente:

    Qual a utilidade das histórias de fadas?

    Tolkien vai muito além da ideia comum de que elas são apenas entretenimento, ou que elas funcionam como uma espécie de escape momentâneo de problemas do dia a dia, dos quais muitas vezes já estamos cansados.

    Para Tolkien, uma boa história de fantasia pode ajudar-nos a ver a realidade novamente, a enfrentar nossas limitações e a experimentar uma espécie de esperança.

    Uma história não é apenas um argumento disfarçado

    Existe uma maneira de abordar a literatura que procura imediatamente descobrir a mensagem que determinada narrativa pretende transmitir.

    Quando lemos uma história e perguntamos:

    Qual é a lição moral?

    Que princípio ela ilustra?

    Que doutrina podemos extrair dela?

    Essas perguntas podem ser legítimas, mas se tornam limitadoras quando tratamos toda narrativa como se fosse um argumento filosófico apresentado sob a forma de ficção.

    Conforme Tolkien, uma história não precisa funcionar como um sermão para possuir significado moral. Tampouco precisa transformar cada personagem em símbolo de uma doutrina ou cada acontecimento em uma referência religiosa específica. Afinal, a propria narrativa possui uma maneira particular de produzir compreensão.

    Assim, um tratado filosófico pode explicar por que a coragem é uma virtude. bem como, uma história pode nos colocar ao lado de alguém que precisa agir corajosamente, apesar do medo, da incerteza e do risco de perder tudo aquilo que ama.

    O argumento nos apresenta uma proposição. Enquanto que a narrativa nos permite acompanhar pessoas, escolhas, conflitos e consequências. E isso não significa que a narrativa seja superior ao argumento. Mas sim, que são formas diferentes de expressão, com possibilidades e limitações próprias de cada um.

    O ponto é outro:

    A verdade pode ser compreendida não apenas por meio de proposições, mas também pela contemplação imaginativa de uma história.

    Tolkien não propõe que abandonemos a razão em favor da fantasia. Sua reflexão nos convida a reconhecer que a imaginação possui um papel importante na maneira como percebemos e interpretamos a realidade. E é aqui que surje a pergunta;

    O que Tolkien chama de fantasia?

    Antes de respondermos esta questão, precisamos compreender o seu argumento. No entanto, para compreender seu argumento, precisamos distinguir fantasia de simples arbitrariedade.

    A fantasia permite imaginar acontecimentos, criaturas, lugares e situações que não correspondem diretamente às possibilidades ordinárias do nosso mundo. Por exemplo; dragões podem existir, árvores podem falar e viagens impossíveis podem tornar-se elementos de uma narrativa. Mas isso não significa que qualquer combinação de acontecimentos constitua uma boa história fantástica.

    Tolkien atribui importância à capacidade humana de imaginar um mundo secundário: um universo ficcional com características próprias, no qual os acontecimentos possam ser compreendidos segundo uma ordem interna consistente.

    A expressão criação secundária ajuda a esclarecer essa ideia.

    O ser humano não cria a realidade primária da qual depende sua própria existência. Ele trabalha com capacidades, materiais, linguagens e possibilidades recebidos. Ao construir uma narrativa, entretanto, pode organizar esses elementos e dar forma a um mundo imaginário.

    A atividade criativa humana é, nesse sentido, derivada, não absoluta.

    Para Tolkien, a criação literária não exige que o autor reproduza fotograficamente o mundo cotidiano. Mas ela exige que sua imaginação seja capaz de construir uma realidade ficcional suficientemente coerente para ser habitada pela mente do leitor.

    A fantasia não precisa copiar o mundo para falar significativamente sobre ele.

    Uma história pode afastar-se da aparência imediata da realidade e, ainda assim, iluminar algo verdadeiro sobre a experiência humana.

    A recuperação: aprender a ver novamente

    Entre as contribuições mais importantes de Tolkien está o conceito de recuperação (recovery). A ideia é simples, mas suas implicações são profundas.

    A familiaridade pode enfraquecer nossa capacidade de perceber o valor das coisas.

    Aquilo que vemos todos os dias deixa de nos surpreender. Objetos, lugares, relações e experiências tornam-se tão habituais que passamos a tratá-los como se fossem destituídos de mistério.

    Uma árvore é apenas uma árvore.

    A água é apenas água.

    O céu é apenas o céu.

    A vida cotidiana transforma-se em um conjunto de coisas conhecidas, classificadas e utilizadas.

    Tolkien sugere que a fantasia pode nos ajudar a recuperar uma visão mais clara dessas realidades familiares. Ao apresentar um mundo diferente, ela nos permite retornar ao nosso próprio mundo com os olhos renovados.

    Imagine uma história em que árvores falam, caminham ou participam dos acontecimentos como personagens. Não precisamos acreditar que árvores reais possuam essas características para que a narrativa produza um efeito significativo.

    Todavia, ao contemplarmos uma árvore imaginária, podemos voltar a perceber a árvore real com maior atenção. Assim, o extraordinário pode tornar o ordinário novamente perceptível.

    A fantasia desloca nossa perspectiva e interrompe, ainda que temporariamente, a automatização do olhar.

    Essa recuperação não significa descobrir que a realidade é exatamente igual ao mundo imaginário. Significa reencontrar a capacidade de perceber aspectos da realidade que nossa familiaridade havia obscurecido.

    Às vezes, precisamos imaginar um mundo diferente para voltar a enxergar o mundo em que vivemos.

    Essa é uma das razões pelas quais a fantasia não deve ser descartada como literatura infantil ou como entretenimento intelectualmente inferior. Ela pode exercitar a percepção. E perceber melhor é também uma forma de aprender.

    A evasão: fugir de quê?

    A palavra evasão (escape) costuma ser empregada de maneira depreciativa quando se fala de literatura fantástica.

    Dizemos que alguém está fugindo da realidade quando prefere dragões, reinos imaginários e aventuras épicas aos problemas concretos da vida. No entanto, Tolkien questiona a facilidade com que essa acusação é feita.

    A crítica pressupõe que a realidade cotidiana, tal como se apresenta imediatamente, constitui o único horizonte legítimo da experiência humana. Qualquer tentativa de imaginar outro mundo seria, então, uma recusa infantil de enfrentar o mundo verdadeiro.

    Mas Tolkien propõe uma comparação provocadora: condenar toda evasão seria como repreender um prisioneiro por desejar sair da prisão.

    A comparação não significa que toda fuga seja legítima. Um prisioneiro pode precisar enfrentar responsabilidades mesmo dentro do cárcere. A questão é que não podemos presumir que o desejo de sair de uma condição limitadora seja, por si só, uma atitude moralmente condenável.

    Por isso, precisamos perguntar:

    De que realidade estamos falando quando acusamos alguém de fugir da realidade?

    Pode ser que determinada narrativa seja usada para evitar responsabilidades, negar sofrimentos ou alimentar fantasias destrutivas. Nesse caso, a crítica tem fundamento.

    Mas também pode ser que a fantasia ofereça resistência a uma visão estreita do mundo, na qual tudo é reduzido à utilidade, ao consumo, ao poder ou àquilo que pode ser imediatamente mensurado.

    Neste contexto, uma narrativa fantástica pode recordar que a vida humana não se esgota em sua dimensão econômica, tecnológica ou burocrática. Pode preservar a possibilidade de imaginar coragem em uma sociedade cínica, fidelidade em uma cultura de descartabilidade e sacrifício em um ambiente dominado pelo interesse próprio.

    Nesse sentido, a evasão não precisa significar uma recusa da realidade. Pode ser uma recusa de aceitar como inevitável a realidade tal como determinada cultura a descreve.

    Nem toda fuga é covardia; algumas formas de imaginação nos ajudam a perceber as limitações do mundo do qual desejamos escapar.

    A fantasia não elimina o sofrimento

    Seria um erro, entretanto, imaginar que Tolkien propõe uma literatura na qual tudo termina bem e o sofrimento desaparece.

    Suas narrativas são marcadas por perdas, sacrifícios, tentações, fracassos e mortes. A existência do mal não é tratada como uma inconveniência que possa ser eliminada por uma solução narrativa fácil.

    Em O Senhor dos Anéis, por exemplo, a destruição do Anel não transforma todos os acontecimentos anteriores em experiências agradáveis. Os personagens carregam feridas. Há perdas que não podem ser simplesmente desfeitas. E até mesmo o proprio retorno para casa não significa que tudo permaneça como era antes.

    A esperança de Tolkien não depende da negação do sofrimento. Depende da possibilidade de que o sofrimento não tenha a palavra final. Essa distinção prepara o caminho para um dos conceitos mais importantes de seu ensaio: o consolo.

    O consolo: por que precisamos de finais felizes?

    A palavra consolo (consolation) não significa simplesmente receber uma mensagem agradável quando estamos tristes.

    Na reflexão de Tolkien, ela está relacionada à capacidade que uma boa história fantástica possui de produzir uma experiência de alegria diante de uma reversão inesperada dos acontecimentos.

    É o momento em que tudo parece perdido e no entanto, contra todas as expectativas, surge uma possibilidade de libertação.

    O perigo não desaparece porque nunca existiu.

    A ameaça não era ilusória.

    A perda não foi uma invenção.

    A alegria nasce justamente porque a narrativa levou a sério a possibilidade do fracasso.

    Por isso, um final feliz não precisa ser uma solução artificial que apaga os conflitos anteriores. Quando bem construído, ele pode oferecer uma nova perspectiva sobre o significado de toda a história.

    Tolkien chama essa possibilidade de eucatástrofe.

    O termo combina a ideia de uma catástrofe com o prefixo grego eu-, que expressa algo bom. Trata-se de uma virada súbita e jubilosa dos acontecimentos: uma reversão inesperada que conduz da ameaça à libertação, do desespero à alegria.

    No entanto, a eucatástrofe não é a simples ausência de tragédia. É uma alegria que surge quando a tragédia parecia prestes a prevalecer.

    Por isso, Tolkien não considera necessário eliminar a possibilidade de sofrimento para produzir esperança. Pelo contrário: a possibilidade real de fracasso torna a libertação ainda mais significativa.

    A esperança não precisa negar a possibilidade da derrota; ela precisa resistir à afirmação de que a derrota será necessariamente definitiva.

    Eucatástrofe e esperança cristã

    É neste ponto que a reflexão literária de Tolkien adquire uma ressonância explicitamente cristã. Pois, ao concluir sua discussão sobre o consolo das histórias de fadas, Tolkien relaciona a eucatástrofe à experiência cristã do evangelho. Para ele, a narrativa cristã apresenta a suprema reversão: a história da encarnação, da morte e da ressurreição de Cristo.

    A cruz parece representar a derrota.

    O Messias é rejeitado.

    O justo é condenado.

    Os discípulos são confrontados com a perda de suas esperanças.

    A morte parece encerrar a história.

    Mas a ressurreição transforma radicalmente a compreensão dos acontecimentos.

    E aquilo que parecia ser o fim revela-se o início de uma realidade que a morte não pode dominar.

    A ressurreição não significa que a crucificação nunca aconteceu. Não apaga a violência, a dor ou a realidade da morte. Significa que esses acontecimentos não possuem soberania absoluta sobre o desfecho da história.

    Aqui encontramos uma relação profunda entre a eucatástrofe literária e a esperança cristã.

    A narrativa cristã não é esperançosa porque ignora o mal, mas porque proclama a ação de Deus diante dele. E isso exige uma distinção importante: Tolkien não está simplesmente afirmando que o evangelho é uma ficção agradável ou que a fé cristã pode ser reduzida a uma técnica narrativa.

    Para o cristianismo, a ressurreição é uma afirmação sobre acontecimentos reais, não apenas uma figura literária. A comparação de Tolkien funciona na direção inversa: é a realidade do evangelho que ilumina a capacidade das narrativas de antecipar, por meio da imaginação, a alegria de uma libertação inesperada.

    A história cristã não recebe sua verdade por ser semelhante a um conto de fadas.

    A eucatástrofe das histórias encontra no evangelho sua ressonância mais profunda porque a esperança cristã afirma que Deus pode transformar o aparente triunfo da morte em ocasião de vitória.

    Essa perspectiva também nos impede de confundir esperança com otimismo superficial.

    O otimismo pode esperar que as circunstâncias melhorem.

    A esperança cristã está fundamentada no caráter e nas promessas de Deus.

    O consolo não é uma promessa de que tudo dará certo agora

    Particularmente, essa distinção é importante para a vida cristã. Pois a ideia de eucatástrofe não deve ser transformada em uma fórmula segundo a qual toda situação difícil terminará com uma solução feliz ainda nesta vida.

    A Bíblia não promete que todos os sofrimentos serão revertidos imediatamente, nem que toda pessoa fiel experimentará uma libertação visível de cada adversidade.

    Bem como, os mártires não deixam de ser mártires porque acreditam na ressurreição. Nem os cristãos que sofrem não precisam fingir que a dor é pequena para confessar que Cristo venceu a morte.

    Pois, a esperança cristã é escatológica: ela olha para a consumação dos propósitos de Deus, para a ressurreição e para a nova criação.

    Nesse sentido, o consolo oferecido pela narrativa fantástica pode nos ajudar a imaginar uma possibilidade que a experiência presente, isoladamente considerada, não consegue garantir: a de que o mal é real, mas não será eterno; de que a morte é inimiga, mas não é invencível; de que a história ainda está aberta à ação redentora de Deus.

    A literatura não demonstra essas verdades. Mas pode ajudar a tornar imaginativamente perceptível o tipo de esperança que elas anunciam.

    Histórias formam aquilo que consideramos admirável

    Voltemos à pergunta de James K. A. Smith.

    Se somos formados não apenas por aquilo em que acreditamos, mas também por aquilo que aprendemos a amar, então as histórias merecem nossa atenção.

    Elas não apresentam apenas acontecimentos. Apresentam modelos de ação, formas de existência e concepções de bem.

    Em uma narrativa, aprendemos a observar o que um personagem deseja, aquilo que está disposto a sacrificar, o que considera digno de fidelidade e como responde à tentação.

    Podemos admirar a coragem de alguém que enfrenta um inimigo mais poderoso.

    Podemos rejeitar a ambição de alguém que sacrifica tudo para dominar os outros.

    Podemos perceber a grandeza de um ato de fidelidade que não produz reconhecimento público.

    Podemos aprender que a vitória nem sempre pertence ao personagem mais forte, mais rico ou mais inteligente.

    Isso acontece porque uma narrativa organiza nossa atenção.

    Ela nos faz acompanhar determinados personagens, compreender seus dilemas e experimentar as consequências de suas decisões. E ao fazer isso, pode participar da formação de nossos juízos morais.

    Mas é importante não exagerar a afirmação: histórias não formam todos os leitores da mesma maneira. A recepção depende de experiências anteriores, convicções, comunidades e interpretações. Uma narrativa pode formar, confirmar ou até desafiar aquilo que já pensamos. Por isso, a leitura crítica continua necessária.

    Não basta perguntar se uma história é emocionante. Precisamos perguntar:

    Que visão do ser humano ela apresenta?

    Que tipo de bem ela nos ensina a desejar?

    O que considera digno de admiração?

    Que preço seus personagens estão dispostos a pagar por aquilo que amam?

    Essas perguntas transformam a leitura em exercício de discernimento.

    Tolkien e a formação da imaginação moral

    A imaginação moral é nossa capacidade de perceber situações humanas, reconhecer possibilidades de ação e compreender o significado de escolhas e consequências. Mas não se trata de substituir princípios morais por sentimentos. Trata-se de reconhecer que, antes de aplicar um princípio a uma situação concreta, frequentemente precisamos perceber o que está acontecendo, quem está sendo prejudicado e quais bens estão em conflito.

    Uma narrativa pode nos ajudar nesse processo.

    Ao acompanhar um personagem diante de uma decisão difícil, podemos perceber dimensões da experiência humana que uma formulação abstrata não torna imediatamente visíveis.

    A literatura pode nos apresentar à covardia disfarçada de prudência, à crueldade disfarçada de justiça, ao orgulho disfarçado de coragem ou à fidelidade que exige renúncia. Também pode mostrar que uma decisão aparentemente insignificante produz consequências inesperadas.

    Utilizando O Senhor dos Anéis como exemplo, o destino do mundo não depende apenas de grandes guerreiros ou governantes. A história atribui importância a personagens vulneráveis, à amizade, à resistência cotidiana e a atos de misericórdia cujos resultados não podem ser plenamente previstos. Isso nos obriga a reconsiderar o que significa ser poderoso.

    O poder pode destruir, mas nem sempre consegue produzir sabedoria.

    A força pode vencer batalhas, mas não garante a capacidade de resistir à corrupção.

    A grandeza moral pode manifestar-se em alguém que não ocupa posição de autoridade.

    Uma história assim não precisa apresentar uma exposição sistemática de ética para colocar questões éticas diante do leitor. Ela pode reorganizar nossa percepção daquilo que merece ser admirado.

    Aqui, é necessário fazer uma ressalva.

    O fato de uma narrativa conter sacrifício, coragem, esperança ou uma vitória inesperada não significa que ela seja cristã em sentido pleno. Esses elementos podem até aparecer em histórias vinculadas a visões de mundo muito diferentes. mas a fantasia não é automaticamente cristã. Tampouco, toda narrativa que utiliza símbolos religiosos apresenta uma visão fiel ao evangelho.

    O discernimento cristão precisa considerar a obra em sua totalidade: a concepção de ser humano que ela pressupõe, sua visão do bem e do mal, o tratamento dado ao poder, o lugar da liberdade, o sentido do sofrimento e a natureza da esperança que oferece.

    No caso de Tolkien, sua fé cristã é relevante para compreender sua reflexão sobre a criação, o mal, a mortalidade e a eucatástrofe. Isso não autoriza, entretanto, a transformar cada personagem em uma representação direta de Cristo ou cada acontecimento em uma alegoria bíblica.

    Tolkien resistia a leituras que reduzissem suas narrativas a correspondências alegóricas rígidas. Sua obra possui uma estrutura narrativa própria, e seu significado não depende de encontrar um equivalente religioso para cada elemento ficcional.

    Uma narrativa pode ser profundamente marcada por uma visão cristã sem funcionar como uma alegoria em que cada personagem corresponde a uma figura bíblica.

    Essa distinção é essencial para uma leitura intelectualmente responsável. O objetivo não é cristianizar superficialmente qualquer história de que gostamos, mas aprender a discernir o que ela nos apresenta como verdadeiro, bom, belo ou desejável, bliblicamente falando.

    Smith e Tolkien: desejo e imaginação

    Agora podemos perceber a relação entre os dois livros deste movimento.

    James K. A. Smith nos ensinou a perguntar:

    O que está formando nossos desejos?

    Tolkien nos ajuda a perguntar:

    Como as histórias participam dessa formação?

    Smith chama atenção para o papel dos hábitos, das práticas e dos ambientes na orientação de nossos amores.

    Tolkien mostra que a fantasia pode renovar nossa percepção e oferecer experiências narrativas capazes de tornar determinados bens novamente visíveis.

    Os dois não estão defendendo exatamente a mesma tese, nem devem ser confundidos.

    Smith desenvolve uma proposta de antropologia filosófica e formação cristã, com especial atenção aos desejos e às práticas culturais.

    Tolkien investiga a natureza e a função das histórias de fadas, defendendo a capacidade da fantasia de oferecer recuperação, evasão e consolo. Entretanto, suas reflexões podem dialogar produtivamente.

    Se nossas práticas formam nossos desejos, as narrativas que habitam nossa imaginação merecem atenção. Se aprendemos a admirar determinadas formas de vida por meio das histórias, precisamos avaliar criticamente os valores que elas apresentam.

    Se a fantasia pode nos ajudar a recuperar a percepção do mundo, então a imaginação não precisa ser inimiga da verdade.

    A imaginação pode participar da formação moral justamente porque nos ajuda a perceber e desejar aquilo que consideramos bom.

    A questão cristã não é escolher entre verdade e imaginação.

    É aprender a imaginar sem abandonar a verdade e a buscar a verdade sem desprezar a imaginação.

    Da imaginação à cosmovisão

    Chegamos, assim, a uma nova etapa da trilha.

    Uma cosmovisão não é apenas uma coleção de respostas intelectuais sobre Deus, o ser humano e o mundo. Ela também influencia a maneira como interpretamos acontecimentos, avaliamos escolhas, reconhecemos exemplos de virtude e imaginamos o futuro.

    Uma pessoa pode afirmar que valoriza o sacrifício e, ainda assim, admirar apenas personagens que acumulam poder.

    Pode confessar que a esperança cristã está na nova criação e continuar imaginando a vida boa exclusivamente em termos de consumo e reconhecimento.

    Pode defender a importância da verdade e sentir-se atraída por narrativas que glorificam a manipulação, desde que os protagonistas sejam bem-sucedidos.

    Essas contradições não se resolvem apenas pela aquisição de mais informações. Elas exigem discernimento sobre aquilo que aprendemos a admirar.

    Tolkien nos ajuda a perceber que a imaginação pode ampliar ou estreitar nosso horizonte moral. As histórias que contamos e aquelas às quais damos atenção podem contribuir para tornar determinadas formas de vida mais visíveis, desejáveis ou repulsivas.

    Por isso, a pergunta não é apenas se uma narrativa contém informações verdadeiras.

    É também:

    Que tipo de mundo ela nos ensina a imaginar — e que tipo de pessoa podemos nos tornar ao habitá-lo imaginativamente?

    Essa questão nos prepara para o próximo livro.

    Para ler Tolkien com atenção

    Ao ler Sobre Histórias de Fadas, vale a pena manter estas perguntas diante de nós:

    1. O que Tolkien entende por fantasia, e por que ela não deve ser confundida com simples arbitrariedade?
    2. Como a recuperação pode nos ajudar a perceber novamente aquilo que se tornou familiar?
    3. Toda evasão é uma fuga irresponsável da realidade? De que critérios precisamos para avaliar essa crítica?
    4. Por que o consolo de uma história fantástica não exige a negação do sofrimento?
    5. O que Tolkien quer dizer com eucatástrofe, e como esse conceito se relaciona com a esperança cristã?
    6. Como as histórias participam da formação de nossos juízos morais e de nossas ideias sobre o que é admirável?
    7. Por que é inadequado transformar toda narrativa de inspiração cristã em uma alegoria religiosa rígida?
    8. Como a Igreja pode formar a imaginação sem substituir a verdade revelada por experiências emocionais?
    9. Que histórias têm ensinado nossa cultura a associar felicidade, sucesso, poder e liberdade?

    Essas perguntas ajudam a evitar dois erros opostos: desprezar a fantasia como algo intelectualmente irrelevante ou tratá-la como se toda experiência imaginativa fosse necessariamente edificante.

    A leitura exige prazer, mas também discernimento.

    A pergunta que fica

    A trilha avançou por oito perguntas.

    Sire: Como interpretamos a realidade?

    Lewis: O que acontece ao homem quando perdemos a verdade objetiva?

    Schaeffer: O cristianismo corresponde à realidade?

    McGrath: Como comunicar a fé em uma cultura que pensa de outra maneira?

    Plantinga: É racional crer em Deus?

    Stott: O que o cristianismo realmente afirma?

    Smith: Somos formados apenas por aquilo em que acreditamos?

    Tolkien: O que as histórias têm a ver com a verdade?

    Agora podemos perceber uma relação entre todas elas. Interpretamos a realidade a partir de pressupostos.

    Nossas concepções de verdade influenciam nossa compreensão do ser humano. A fé cristã afirma algo sobre a realidade e precisa ser comunicada com inteligência.

    Podemos investigar a racionalidade da crença e compreender o conteúdo do evangelho. Mas a verdade também precisa alcançar nossos desejos, hábitos e imaginação.

    As histórias participam desse processo porque nos ajudam a visualizar formas de existência e a reconhecer aquilo que merece ser admirado.

    Ainda assim, resta uma pergunta.

    Se a imaginação pode nos ajudar a recuperar a percepção da realidade, como o cristianismo reorganiza nossa visão do mundo como um todo?

    Como uma visão cristã da realidade pode transformar nossa maneira de compreender o sofrimento, a alegria, a liberdade, a ordem, a morte e a esperança?

    Como uma fé que parece contrariar tantas intuições modernas pode oferecer uma compreensão mais coerente da existência humana?

    É nesse ponto que encontraremos G. K. Chesterton.

    Próxima etapa

    III — APRENDER A SER FORMADO

    09 — Como o cristianismo reorganiza nossa percepção da realidade?

    G. K. Chesterton — Ortodoxia

    Se Tolkien nos ajudou a compreender como as histórias podem renovar nossa percepção da realidade, Chesterton nos convidará a examinar como uma visão cristã do mundo reorganiza nossas intuições e expectativas.

    Em Ortodoxia, a fé cristã não aparece simplesmente como uma coleção de respostas religiosas acrescentadas à vida cotidiana.

    Ela é apresentada como uma maneira de compreender a existência que desafia pressupostos, ilumina paradoxos e oferece uma visão abrangente do mundo.

    A próxima etapa perguntará como o cristianismo pode modificar não apenas aquilo que afirmamos ser verdadeiro, mas também a maneira como enxergamos o que está diante de nós.

    A trilha continua.

    Dicas de Leitura

    Ler. Pensar. Discernir.

    Uma trilha de formação intelectual cristã.

    Logos & Cosmos
    Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

  • James K. A. Smith — Você é Aquilo que Ama

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    DICAS DE LEITURA

    07 — Somos formados apenas por aquilo em que acreditamos?

    III — APRENDER A SER FORMADO

    James K. A. Smith — Você é Aquilo que Ama

    Quando saber não é suficiente

    Durante os primeiros seis passos desta trilha, aprendemos a enxergar e a pensar.

    James W. Sire nos ensinou a perguntar como interpretamos a realidade.

    C. S. Lewis mostrou o que acontece quando uma cultura perde a convicção de que existem valores objetivos.

    Francis Schaeffer perguntou se nossas interpretações correspondem à realidade.

    Alister McGrath nos mostrou que a verdade cristã precisa ser comunicada em diálogo com culturas que possuem outras categorias para interpretar o mundo.

    Alvin Plantinga nos levou para uma questão epistemológica:

    É racional crer em Deus?

    E John Stott nos conduziu de volta ao centro da fé:

    O que o cristianismo realmente afirma?

    Agora surge uma pergunta diferente. Talvez ainda mais desconfortável.

    Porque podemos saber o que é verdadeiro e, mesmo assim, viver como se outra coisa fosse verdadeira?

    Podemos defender uma doutrina e desejar outra coisa?

    Podemos confessar uma cosmovisão e organizar nossa vida de acordo com outra?

    Podemos conhecer o evangelho e continuar sendo formados por amores que não foram orientados pelo evangelho?

    Por essas e tantas outras perguntas, é que depois de aprender a pensar, precisamos aprender a perguntar:

    O que está formando quem somos?

    É nesse ponto que encontramos James K. A. Smith.

    Somos apenas aquilo que pensamos?

    Existe uma maneira bastante comum de imaginar a formação cristã.

    Aprendemos a verdade. Passamos a acreditar na verdade. E somente depois disso que a nossas crenças produzem nosso comportamento. O modelo parece simples:

    conhecimento → crença → comportamento.

    E existe verdade nisso. Pois, o cristianismo não é anti-intelectual. dentro da cosmovisão cristã, a verdade importa, a doutrina importa e a teologia importa. Aquilo que acreditamos realmente influencia aquilo que fazemos.

    Mas Smith pergunta se essa descrição é suficiente. Será que somos formados apenas por aquilo que sabemos e acreditamos?

    E a sua resposta é; não.

    O ser humano não é apenas um pensador. É também um amante. E aquilo que amamos possui um papel decisivo na formação de quem somos.

    É justamente daí que nasce a provocativa tese de seu livro:

    “Você é aquilo que ama”.

    A antropologia do desejo

    Em sua obra, Smith procura corrigir aquilo que considera uma visão excessivamente intelectualista da formação humana. Para ele, não somos simplesmente seres que recebem informações, processam argumentos e tomam decisões a partir deles. Nossos desejos possuem direção.

    Amamos determinadas coisas, desejamos determinados fins, imaginamos determinadas formas de vida e esses desejos ajudam a orientar nossas ações.

    Ao lermos sua obra, perceberemos que a proposta de Smith está profundamente relacionada à tradição de Agostinho, para quem o problema humano não pode ser reduzido ao conhecimento incorreto. Segundo Agostinho, existe também uma desordem dos amores. O projeto de Smith procura recuperar essa dimensão afetiva e formativa para pensar a educação cristã e a vida da Igreja.

    Isso significa que uma pergunta fundamental para a formação cristã não é apenas: “O que você sabe?”

    É também: “O que você deseja?”

    Parece simples, mas talvez, essa seja uma das perguntas mais difíceis de se obter um resposta que satisfaça.

    Podemos acreditar em uma coisa e amar outra

    Aqui Smith toca em uma experiência extremamente comum. Uma pessoa pode afirmar:

    “Minha família é muito importante para mim.”

    Mas passar a maior parte do tempo trabalhando.

    Pode afirmar:

    “Deus é o centro da minha vida.”

    Mas organizar sua agenda como se Deus fosse uma interrupção.

    Pode dizer:

    “A vida cristã não depende de dinheiro.”

    Mas medir continuamente seu valor pelaquilo que possui.

    Pode confessar:

    “Minha identidade está em Cristo.”

    Mas buscar desesperadamente aprovação, reconhecimento e status.

    Isso revela alguma coisa. Nossas declarações conscientes não são necessariamente um retrato completo de nossos amores.

    Bem como, aquilo que dizemos valorizar e aquilo que efetivamente orienta nossos hábitos podem ser coisas diferentes.

    E é justamente nessa distância que Smith nos convida a prestar atenção.

    O coração antes da cabeça?

    Seria um erro interpretar Smith como alguém que simplesmente troca razão por emoção. longe disso.

    Sua crítica não é:

    “Pensar não importa.”

    E sim:

    “Pensar não é a descrição completa do ser humano.”

    Para Smith, o amor não é apresentado simplesmente como sentimentalismo irracional. Ele possui direção, ele organiza nossa atenção, ele orienta nossas escolhas e ele estrutura nossa relação com o mundo.

    Por isso, quando Smith afirma que somos aquilo que amamos, ele não está dizendo que devemos abandonar o pensamento.

    O que Smith está dizendo é que, nossos pensamentos estão inseridos em uma existência orientada por desejos.

    O próprio projeto de Smith procura colocar amor, desejo, imaginação, hábitos e práticas em relação, em vez de simplesmente substituir razão por emoção. Essa distinção é fundamental, se quiser entende-lo.

    O desejo precisa ser formado

    No entanto, se nossos desejos participam da formação de nossa identidade, surge uma pergunta inevitável:

    De onde vêm nossos desejos?

    A resposta de Smith é de certa forma, provocadora: eles são formados.

    Ou seja, não escolhemos conscientemente tudo aquilo que aprendemos a desejar. Afinal, somos educados por ambientes, histórias, imagens, músicas, instituições, comunidades, práticas, rotinas, rituais, mercados, tecnologias, e, principalmente (esta parte é extremamente importante), pelos hábitos que repetimos.

    Isso significa que a formação humana acontece muitas vezes antes mesmo de percebermos que estamos sendo formados.

    Neste contexto, uma pessoa pode pensar que está apenas comprando, apenas assistindo, apenas navegando, apenas se divertindo, apenas trabalhando e apenas frequentando determinado ambiente. Mas aquilo que fazemos repetidamente pode e na maioria das vezes, estar ensinando nosso coração a desejar determinadas coisas.

    As “liturgias” do cotidiano

    Aqui aparece uma das ideias mais conhecidas de Smith. Ele utiliza o conceito de liturgia de maneira ampliada.

    Não apenas para falar do culto cristão formal, mas para descrever práticas corporais, comunitárias e repetitivas que funcionam como pedagogias do desejo. Exemplos: o shopping center, o estádio e futebol, a universidade, o mercado, a mídia, as redes sociais e as rotinas profissionais.

    Todas essas estruturas podem possuir uma dimensão formativa.

    Diferentemente do que se costuma pensar, elas não apenas nos oferecem produtos ou informações. Elas podem nos ensinar:

    o que desejar;

    o que admirar;

    o que considerar uma vida boa;

    o que imaginar como sucesso;

    o que entender como felicidade.

    Por isso, Smith chama atenção para as chamadas “liturgias seculares”: práticas culturais que, mesmo sem serem explicitamente religiosas, podem formar nossos desejos.

    O shopping center pode ser uma escola

    Considere uma cena cotidiana. Uma pessoa entra em um shopping.

    Ela vê vitrines, experimenta roupas, observa estilos, percebe o que está na moda, encontra pessoas, come, compra e passeia.

    Tudo parece absolutamente comum.

    Mas Smith nos convida a perguntar:

    Que visão de vida está sendo ensinada nesse ambiente?

    Talvez:

    “Você é aquilo que possui.”

    Ou:

    “Felicidade é aquilo que você consegue comprar.”

    Ou:

    “Você precisa atualizar sua identidade constantemente.”

    Ou:

    “Desejar mais é normal.”

    Talvez ninguém pronuncie essas frases. Mas a prática pode ensiná-las. E é exatamente por isso que a formação cultural é tão poderosa.

    Nem toda pedagogia utiliza palavras. Algumas pedagogias utilizam ambientes.

    A liturgia das telas

    O mesmo pode ser percebido nas tecnologias digitais.

    Abrimos o celular.

    Recebemos notificações.

    Deslizamos.

    Respondemos.

    Comparamos.

    Publicamos.

    Esperamos aprovação.

    Voltamos novamente.

    Esse ciclo pode parecer apenas tecnológico. Mas também pode ser formativo. Pois, ele pode treinar; nossa atenção, nossa impaciência, nossa necessidade de novidade, nossa relação com aprovação, nossa percepção do tempo, nossa tolerância ao silêncio e nossa capacidade de permanecer diante de algo que não produz recompensa imediata.

    Por isso, a pergunta cristã não deveria ser apenas:

    “Esse conteúdo é permitido?”

    Talvez uma pergunta mais profunda seja:

    “Que tipo de pessoa essa prática está me tornando?”

    Essa é uma pergunta tipicamente smithiana.

    Hábitos formam amores

    Aqui chegamos ao coração da proposta.

    Nossos hábitos moldam nossos desejos.

    Aquilo que fazemos repetidamente pode ensinar nosso coração a desejar determinadas coisas. Isso significa que formação não acontece apenas por meio de grandes decisões. Na maioria das veze, ela acontece por meio de pequenas repetições.

    A maneira como começamos o dia.

    O que fazemos quando estamos entediados.

    Como lidamos com dinheiro.

    Como usamos nosso tempo.

    Como tratamos pessoas que não podem nos beneficiar.

    Como respondemos à frustração.

    Como usamos nossos dispositivos.

    Como descansamos.

    Como trabalhamos.

    Como adoramos.

    Todas essas práticas participam da formação de quem estamos nos tornando. E é por isso que a formação cristã não pode ser reduzida à transmissão de informação. Precisamos ensinar a verdade, mas também precisamos aprender a viver a verdade.

    O problema do discipulado puramente intelectual

    Essa contribuição é especialmente importante para a Igreja.

    Podemos produzir cristãos capazes de responder corretamente a perguntas doutrinárias e ainda assim não produzir pessoas profundamente formadas pelo evangelho.

    Podemos ensinar:

    • doutrina;
    • apologética;
    • teologia;
    • interpretação bíblica;
    • história da Igreja.

    Tudo isso é necessário. Mas existe outra pergunta:

    Que tipo de pessoa essas verdades estão formando?

    O que quer dizer que; o conhecimento cristão sem transformação pode produzir uma situação paradoxal:

    a pessoa sabe mais sobre Deus sem necessariamente amar mais a Deus.

    Esse é um problema sério e que é bem mais comum do que imaginamos. Uma Igreja pode confundir crescimento intelectual com maturidade espiritual. Mas os dois não são idênticos.

    É bem verdade que um dos sinais de maturidade cristã em uma igreja envolve inevitavelmente o conhecimento. Mas também envolve desejos reordenados. Bem como; hábitos transformados, afetos santificados, imaginação renovada, vida comunitária, obediência e dentre outras coisas, o amor.

    Smith e a tradição cristã

    Todavia, o pensamento de Smith não surge no vazio.Ele reconhece explicitamente a influência de Agostinho e trabalha dentro de uma tradição cristã que entende o ser humano a partir da direção de seus amores.

    Em termos agostinianos, o problema humano não é simplesmente que amamos pouco. É que frequentemente amamos de maneira desordenada.

    Podemos amar coisas boas de maneira inadequada.

    Podemos transformar bens criados em bens absolutos.

    Podemos desejar coisas legítimas como se fossem nosso bem supremo.

    Podemos transformar reconhecimento em identidade.

    Prazer em finalidade.

    Dinheiro em segurança.

    Poder em significado.

    A questão cristã, portanto, não é simplesmente eliminar o desejo.

    É ordenar o desejo.

    O problema não é desejar demais

    Isso também merece a nossa atenção.

    É importante destacarmos que, o cristianismo não ensina que devemos nos tornar pessoas sem desejos. A Bíblia não apresenta a santidade como uma espécie de anestesia afetiva.

    O problema não está no ato de desejar. O problema é amar desordenadamente. Afinal, nós também desejamos coisas boas.

    Mas podemos desejar coisas boas no lugar errado. Ou podemos desejar coisas legítimas de maneira desproporcional, transformando meios em fins.

    Por isso, dizemos que a formação cristã não consiste simplesmente em controlar desejos. Ela consiste sobre tudo, em aprender a desejar aquilo que realmente merece ser desejado.

    A imaginação também participa da formação

    Outro elemento importante no pensamento de Smith é a imaginação.

    Ela não deve ser confundida simplesmente com fantasia. Imaginação é também nossa capacidade de visualizar possibilidades de existência. Pois, antes de escolher uma determinada vida, precisamos conseguir imaginá-la.

    Antes de desejar alguma coisa, precisamos percebê-la como desejável. E é por isso que, imagens, histórias, símbolos e práticas culturais possuem enorme poder formativo.

    Eles nos mostram:

    “É assim que uma vida boa parece.”

    “É isso que pessoas bem-sucedidas fazem.”

    “É assim que alguém admirável vive.”

    “É isso que merece nossa atenção.”

    Smith nos mostra que somos formados por desejos e imaginação. Assim como Tolkien nos ajudará a perguntar:

    O que as histórias têm a ver com a verdade?

    A Igreja também possui liturgias

    Existe uma aplicação particularmente importante para a vida cristã nesta obra. Se práticas formam desejos, então a própria Igreja precisa perguntar:

    O que nossos cultos estão formando em nós?

    Diferente da pergunta abitual que muitos fazem:

    “O culto foi bom?”

    Devemos perguntar:

    “Que tipo de pessoa este culto está nos ensinando a ser?”

    O que acontece quando a Igreja reúne pessoas semanalmente?

    O que cantamos?

    O que repetimos?

    O que celebramos?

    O que confessamos?

    O que lembramos?

    O que colocamos diante dos olhos?

    Como oramos?

    Como ouvimos a Palavra?

    Como recebemos a Ceia?

    Como tratamos o próximo?

    Tudo isso pode possuir uma dimensão formativa.

    Smith relaciona explicitamente a formação cristã às práticas corporativas de adoração e defende uma recuperação da relação entre culto, cosmovisão e formação. Pois, o culto não é apenas uma reunião na qual recebemos informação.

    É também um ambiente no qual aprendemos a desejar.

    O culto como escola do desejo

    Essa é uma ideia que merece ser analizada.

    Quando a Igreja canta:

    “Santo, santo, santo…”

    não está apenas transmitindo uma informação sobre Deus.

    Está treinando a adoração.

    Quando confessa o pecado, está ensinando a reconhecer a própria condição.

    Quando celebra a graça, está formando gratidão.

    Quando proclama a ressurreição, está reorientando a esperança.

    Quando participa da Ceia, está lembrando corporalmente que a fé cristã está ligada à morte e à ressurreição de Cristo.

    Quando ouve a Palavra, está aprendendo novamente qual história define a realidade.

    Por isso, o culto cristão possui uma dimensão pedagógica.

    Ele ensina. Mas ensina de uma maneira que envolve muito mais do que informação.

    Aqui encontramos a ligação mais profunda entre Smith e os seis livros anteriores.

    Sire nos ensinou a pensar sobre cosmovisão.

    Plantinga nos ensinou a pensar sobre crença e conhecimento.

    Stott nos levou ao conteúdo do evangelho.

    Smith pergunta:

    O que acontece quando esse conteúdo precisa formar uma pessoa?

    A resposta é que o evangelho precisa alcançar mais do que nossas afirmações. Pois, o evengelho não quer apenas a nossa mente, ele precisa alcançar nossos amores.

    Uma crítica necessária

    A contribuição de Smith é valiosa, mas precisa ser lida com discernimento. Existe o risco de transformar a tese:

    “somos aquilo que amamos”

    em uma espécie de substituição da razão pelo desejo.

    Mas isso não faria justiça ao próprio projeto de Smith. Ele não pretende abandonar conhecimento, razão ou cosmovisão.

    Seu argumento é que essas dimensões precisam ser compreendidas dentro de uma antropologia mais ampla

    Como observam interlocutores de seu projeto, Smith não procura simplesmente destruir a categoria de cosmovisão, mas situá-la dentro de um quadro mais amplo de imaginação, desejo e práticas.

    Isso é importante para nossa trilha.

    Aprender a ser formado não significa deixar de pensar.

    Significa perceber que aquilo que pensamos também precisa formar aquilo que amamos.

    Existe uma frase que poderia resumir esta etapa:

    A verdade que não alcança nossos amores ainda não alcançou toda a nossa vida.

    Não porque a verdade precise tornar-se emocional.

    Mas porque seres humanos não são cérebros desencarnados.

    Somos criaturas que pensam, desejam, imaginam, agem e habitam comunidades.

    A formação cristã precisa, portanto, integrar:

    verdade + desejo + hábito + imaginação + prática.

    Esse é o território no qual Smith se torna particularmente importante.

    O verdadeiro problema da formação

    Talvez agora possamos compreender melhor por que este livro ocupa o primeiro lugar do terceiro movimento.

    A pergunta anterior era:

    O que o cristianismo realmente afirma?

    Agora:

    O que essas afirmações estão fazendo conosco?

    Essa é uma mudança decisiva. Porque uma coisa é possuir uma teologia. Outra é ser formado por ela.

    Uma coisa é conhecer a doutrina da graça. Outra é tornar-se uma pessoa graciosa.

    Uma coisa é saber que Cristo ordena o amor ao próximo. Outra é tornar-se alguém que efetivamente ama o próximo.

    Uma coisa é afirmar a soberania de Deus. Outra é abandonar a necessidade de controlar tudo.

    A formação acontece quando a verdade deixa de ser apenas algo que afirmamos e passa a organizar aquilo que amamos.

    Para ler Smith com atenção

    o ler Você é Aquilo que Ama, vale a pena manter estas perguntas diante de nós:

    1. Somos realmente formados principalmente por aquilo em que acreditamos?
    2. Qual é o papel dos desejos na formação da identidade?
    3. Como hábitos moldam aquilo que aprendemos a amar?
    4. O que Smith quer dizer ao chamar determinadas práticas culturais de “liturgias”?
    5. Quais são as liturgias seculares que estão formando nossa imaginação?
    6. Como o culto cristão pode funcionar como uma pedagogia do desejo?
    7. Qual é a relação entre cosmovisão, imaginação e desejo?
    8. Como evitar transformar a crítica ao intelectualismo em desprezo pela razão?

    Essas perguntas tornam a leitura muito mais proveitosa.

    Smith não está simplesmente dizendo:

    “Siga seu coração.”

    Ele está perguntando:

    “Quem está ensinando seu coração a desejar?”

    A pergunta que fica

    Agora podemos observar o novo movimento da trilha.

    Plantinga:
    É racional crer em Deus?

    Stott:
    O que o cristianismo realmente afirma?

    Smith:
    Somos formados apenas por aquilo em que acreditamos?

    A resposta começa a aparecer.

    Não.

    Somos também formados por aquilo que amamos.

    Por aquilo que repetimos.

    Por aquilo que imaginamos.

    Pelos ambientes que habitamos.

    Pelas histórias que ouvimos.

    Pelos hábitos que cultivamos.

    Pelas práticas que realizamos.

    Mas isso produz uma nova pergunta.

    Se histórias, imagens e práticas formam nossos desejos, então precisamos olhar com mais atenção para uma das formas mais poderosas pelas quais seres humanos aprendem a imaginar a realidade:

    as histórias.

    Por que uma história pode nos formar?

    Como uma narrativa pode comunicar verdade sem funcionar como um tratado filosófico?

    Por que determinadas histórias permanecem em nossa imaginação durante décadas?

    E será que uma história pode nos ensinar a enxergar o mundo de maneira diferente?

    É nesse ponto que encontraremos J. R. R. Tolkien.

    Próxima etapa

    III — APRENDER A SER FORMADO

    08 — O que as histórias têm a ver com a verdade?

    J. R. R. Tolkien — Sobre Histórias de Fadas

    Se Smith nos ensinou que nossos desejos são formados por práticas e imaginação, Tolkien nos ajudará a investigar o poder formativo da narrativa.

    Talvez as histórias não sejam apenas entretenimento. Talvez elas sejam uma das formas pelas quais aprendemos a imaginar o que é possível.

    Talvez uma boa história possa nos ensinar a reconhecer:

    o bem, o mal, a beleza, o sacrifício, a esperança, a redenção.

    A trilha continuará avançando. Mas agora não apenas pela via dos argumentos.

    Entraremos no território da imaginação.

    Dicas de Leitura

    Ler. Pensar. Discernir.

    Uma trilha de formação intelectual cristã.

    Logos & Cosmos
    Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

  • John Stott — Cristianismo Básico

    Open ancient book on wooden desk with candle and quill in medieval library

    DICAS DE LEITURA

    06 — O que o cristianismo realmente afirma?

    II — APRENDER A PENSAR

    John Stott — Cristianismo Básico

    Depois de perguntar se podemos crer, precisamos perguntar em quê

    Toda etapa desta trilha nasce da anterior.

    James W. Sire nos ensinou a perguntar como interpretamos a realidade.

    C. S. Lewis mostrou que abandonar a verdade objetiva produz consequências para aquilo que entendemos como ser humano.

    Francis Schaeffer perguntou se nossa visão de mundo corresponde à realidade.

    Alister McGrath nos ensinou que a verdade cristã precisa ser comunicada em diálogo com pessoas que aprenderam a interpretar a realidade de maneiras diferentes.

    Então Alvin Plantinga nos levou para uma questão ainda mais profunda:

    É racional crer em Deus?

    Agora precisamos dar um passo adiante.

    Porque mesmo que a fé possa ser racional, permanece uma pergunta decisiva: Em que exatamente estamos crendo?

    Parece contraditório, mas não é. Uma pessoa pode possuir uma crença racional e, ainda assim, estar racionalmente enganada sobre aquilo em que acredita. Uma vez que, a racionalidade da crença não substitui a verdade do seu conteúdo.

    Por isso, no segundo movimento da nossa trilha precisa chegar ao seu centro:

    Quem é Jesus Cristo?

    O que ele afirmou sobre si mesmo?

    O que aconteceu em sua morte e ressurreição?

    E o que significa responder a ele?

    É aqui que encontramos John Stott.

    O cristianismo não é apenas uma visão de mundo

    Precisamos afirmar isso, uma vez que na presente Era, há uma tendência secularizada de tratar o cristianismo como um sistema de ideias. Uma filosofia religiosa, uma ética, uma cosmovisão e até mesmo, uma das possíveis explicações para a existência.

    É bem verdade que todas essas descrições em certa medida, possuem algum grau de verdade. Mas nenhuma delas é suficiente.

    Diferentemente das demais forma de Cosmovisões que conhecemos, o cristianismo não começa com uma teoria. Mas sim, com uma pessoa. E é extamente por essa razão ou pelo menos uma delas, que a obra Cristianismo Básico continua sendo uma obra tão importante.

    Stott não começa apresentando uma longa sistematização doutrinária. Ele começa com uma pergunta:

    Quem é Jesus?

    Toda a estrutura da obra é extremamente reveladora.

    A primeira parte trata da pessoa de Cristo: suas afirmações, seu caráter e sua ressurreição.

    Depois Stott passa para a necessidade humana, a obra de Cristo e, finalmente, a resposta que o ser humano precisa dar.

    Assim como a estrutura, a ordem pedagógica é significativa.

    Antes de perguntar: “O que devo fazer?”

    é necessário perguntar: “Quem é aquele diante de quem estou?”

    O problema de reduzir Jesus

    Uma das belezas da obra, é o fato de que, Stott escreve para pessoas que podem demonstrar interesse por Jesus sem necessariamente aceitar o cristianismo. Por isso, a obra continua sendo atual.

    Afinal, é possível admirar Jesus como mestre, respeitá-lo como líder moral, considerá-lo um reformador religioso, reconhecer sua influência histórica (como muitos o faz), citar seus ensinamentos e até mesmo, considerar algumas de suas palavras extraordinariamente profundas.

    Mas ainda assim não responder à pergunta fundamental:

    Quem Jesus afirmou ser?

    É justamente aqui que Stott concentra a sua atenção. Conforme o autor, Jesus não se apresenta simplesmente como alguém que ensina um caminho para Deus. Ele faz afirmações acerca de sua própria identidade e autoridade.

    E é por isso que, reduzir Jesus a “um grande mestre moral” não resolve o problema. Na verdade, apenas o evita.

    As afirmações de Cristo

    A primeira parte do livro começa justamente com as afirmações de Cristo. E isso é importante porque a questão cristológica não pode ser resolvida apenas pela impressão que Jesus causa em nós. Bem como, não basta perguntar:

    “O que eu acho de Jesus?”

    É necessário perguntar:

    “O que Jesus afirmou sobre si mesmo?”

    Esse posicionamento diante da questão, faz uma diferença enorme.

    Até mesmo porque, a nossa opinião sobre Jesus pode ser formada por pinturas, filmes, tradições religiosas, experiências pessoais, sermões ou imagens culturais. Mas o cristianismo histórico depende de uma afirmação muito mais específica:

    Jesus de Nazaré realmente existiu, ensinou, reivindicou autoridade e realizou uma obra que os primeiros cristãos interpretaram como decisiva para a salvação.

    A pergunta cristã, portanto, é histórica antes de ser meramente psicológica.

    O caráter de Jesus

    Mas mesmo assim, existe um problema.

    Mesmo que uma pessoa faça afirmações extraordinárias a respeito da pessoa de Jesus, isso não significa que elas sejam verdadeiras.

    Por isso Stott não interrompe sua investigação nas palavras de Jesus e passa para o seu caráter. Essa combinação é importante.

    Mesmo se Jesus afirmasse possuir autoridade divina, ainda assim precisaríamos perguntar:

    Que tipo de pessoa fez essas afirmações?

    Stott examina Jesus não como uma abstração teológica, mas como alguém apresentado nos Evangelhos; Sua autoridade, sua compaixão, sua santidade, sua relação com pessoas marginalizadas, sua oposição à hipocrisia, sua disposição para servir, seu domínio próprio e, sua coerência entre aquilo que ensinava e a maneira como vivia.

    Veja, a questão não é transformar o caráter de Jesus em uma “prova” isolada de sua divindade. Mas sim, perceber que suas afirmações precisam ser avaliadas à luz da pessoa que os Evangelhos apresentam.

    Então, a pergunta permanece:

    Que tipo de pessoa poderia fazer essas afirmações?

    A ressurreição muda tudo

    E é aqui que chegamos a um ponto decisivo.

    Se Jesus morreu e permaneceu morto, como muitos afirmam, o cristianismo perde seu centro.

    No entanto, se Jesus ressuscitou (e ressuscitou), a questão muda completamente. E é por isso que Stott dedica uma seção específica à ressurreição de Cristo.

    Pois, a ressurreição não é um detalhe acrescentado posteriormente à mensagem cristã. Ela pertence ao coração da proclamação apostólica.

    Paulo é absolutamente claro:

    “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé.”

    A questão, portanto, não é simplesmente:

    “A ressurreição é uma doutrina importante?”

    É:

    “O que aconteceu com Jesus depois de sua crucificação?”

    Isso nos revela que o cristianismo está ligado a uma afirmação sobre um acontecimento. E não apenas a uma experiência religiosa ou um interpretação espiritual da morte. E nem mesmo, apenas a uma metáfora sobre esperança.

    Cristo ressuscitou.

    Se isso é verdadeiro (e é verdadeiro), então algo aconteceu na história que exige uma explicação.

    O cristianismo possui uma estrutura histórica

    Essa característica torna Stott especialmente importante dentro da sequência que estamos construindo.

    Plantinga nos ensinou que a crença cristã não precisa ser epistemicamente irracional apenas porque não começa com uma demonstração filosófica.

    Stott agora nos lembra que isso não significa que o cristianismo seja indiferente às evidências.

    Pelo contrário. A fé cristã possui um conteúdo histórico.

    Jesus viveu.

    Jesus ensinou.

    Jesus morreu.

    Jesus foi sepultado.

    Os discípulos anunciaram sua ressurreição.

    A Igreja nasceu proclamando aquilo que afirmava ter acontecido.

    Portanto, a fé cristã não é simplesmente:

    “Acredito porque funciona para mim.”

    Ela afirma:

    “Algo aconteceu.”

    E porque algo aconteceu, podemos perguntar se aconteceu realmente. Essa é uma característica fundamental da fé bíblica.

    O ser humano também precisa entrar na discussão

    Mas Stott não transforma Cristianismo Básico em uma simples investigação sobre Jesus.

    Depois de examinar sua pessoa, ele muda a direção da pergunta.

    A questão deixa de ser apenas:

    “Quem é Cristo?”

    E passa a ser:

    “Por que precisamos de Cristo?”

    Aqui entramos na segunda parte da obra: a necessidade humana.

    O problema é o pecado. E Stott não trata pecado simplesmente como uma lista de comportamentos moralmente inadequados. Para Stott, o pecado possui uma dimensão muito mais profunda.

    O pecado é a ruptura da relação com Deus. É a rejeição da autoridade divina. É a tentativa humana de viver como centro de sua própria existência. É desordem moral e espiritual.

    Juntando todas essas coisas, o pecado é aquilo que separa o ser humano de Deus.

    Portanto, isso significa que o evangelho não pode ser reduzido a:

    “Jesus pode ajudá-lo a viver melhor.”

    Apesar de conter verdade, essa formulação por si só é insuficiente. Pois, o evangelho não começou com uma técnica para melhorar a vida humana. Começou com uma realidade muito mais séria:

    o ser humano precisa ser reconciliado com Deus.

    O pecado não é apenas aquilo que fazemos

    Aqui Stott toca em uma questão que se relaciona profundamente com os livros anteriores.

    Se Sire nos ensinou que uma cosmovisão orienta nossa interpretação da realidade, então nossa compreensão do pecado também precisa ser examinada.

    O que nosmostra que, o pecado não é simplesmente aquilo que fazemos ocasionalmente. Ele revela uma determinada orientação da existência.

    Portanto, a questão fundamental é:

    Quem ocupa o centro?

    Deus?

    Ou nós mesmos?

    Nesse sentido, o pecado possui pelo menos três dimensões: intelectual, moral e espiritual.

    Ele deixa de ser apenas transgressão de regras, e passa a ser uma forma desordenada de existir diante de Deus. E obter essa compreensão, nos impede que reduzamos o evangelho a uma espécie de programa de aperfeiçoamento moral.

    Afinal, Cristo não veio simplesmente tornar pessoas ruins um pouco melhores. Ele veio realizar aquilo que o ser humano não poderia realizar por si mesmo.

    O que Cristo fez?

    Depois de apresentar a pessoa de Cristo e a necessidade humana, Stott chega à obra de Cristo. Aqui a estrutura do livro se torna particularmente clara:

    Quem é Cristo?

    Qual é o problema humano?

    O que Cristo fez?

    Como devemos responder?

    Essa sequência é praticamente uma arquitetura do evangelho.

    A terceira parte trata da morte de Cristo e da salvação de Cristo. Em Cristianismo Básico, a cruz não aparece como um acidente trágico. Ela é interpretada como parte central da missão de Jesus.

    Cristo morreu pelos pecadores.

    Cristo levou sobre si o pecado.

    Cristo realizou uma obra de reconciliação.

    Cristo oferece salvação.

    A cruz, portanto, não é apenas um símbolo religioso de sofrimento. É o centro da obra redentora de Deus.

    A cruz não é um detalhe da mensagem cristã

    Isso também nos ajuda a compreender por que Stott é uma ponte tão importante dentro desta trilha.

    A apologética pode responder:

    “O cristianismo é intelectualmente defensável?”

    A epistemologia pode perguntar:

    “A crença cristã pode ser racional?”

    A investigação histórica pode perguntar:

    “O que aconteceu com Jesus?”

    Mas o evangelho precisa finalmente perguntar:

    “O que significa a cruz?”

    A fé cristã não termina quando demonstramos que Jesus existiu. Nem tão pouco quando mostramos que a ressurreição é uma afirmação historicamente central. Tudo isso nos conduz a uma pergunta ainda mais profunda:

    Por que a morte de Jesus é boa notícia para pecadores?

    A resposta cristã está na própria estrutura do evangelho:

    Cristo morreu por nós.

    Salvação não é apenas escapar do castigo

    A palavra “salvação” pode ser facilmente reduzida. Algumas vezes ela é apresentada apenas como:

    “ir para o céu quando morrer.”

    Mas a salvação cristã é muito mais rica. Ela envolve reconciliação com Deus, perdão, nova vida, libertação do pecado, nova relação com Deus e uma nova existência sob o senhorio de Cristo.

    Por isso, quando Stott fala da salvação, ele não está apresentando simplesmente uma passagem de um destino eterno para outro. Stott está falando de uma transformação radical da relação entre o ser humano e Deus. E assim, a pergunta deixa de ser:

    “Onde estarei depois da morte?”

    E passa a ser:

    “A quem pertenço agora?”

    A resposta humana

    E aqui chegamos à última parte do livro.

    Depois de investigar Cristo, o pecado, a cruz e a salvação, Stott chega à pergunta inevitável:

    Como devemos responder?

    Esse movimento é fundamental para a nossa trilha. Porque o cristianismo não é uma teoria que pode ser admirada à distância. Se Jesus é quem afirma ser, então sua identidade exige uma resposta.

    A estrutura final de Cristianismo Básico trata justamente do custo, da decisão e do que significa ser cristão. Isso significa que a apologética cristã não termina na cabeça. Ela chega à vontade, à consciência, à vida e à decisão. E tudo isso tem um custo.

    O custo de seguir Cristo

    Esse ponto é particularmente importante tanto para a obra quanto para a nossa proposta de trilha.

    Em uma época em que a religião pode ser apresentada como instrumento para melhorar a autoestima, alcançar prosperidade ou encontrar bem-estar psicológico, Stott mantém uma pergunta desconfortável:

    O que significa realmente tornar-se cristão?

    Conforme o autor, seguir a Cristo possui um custo. E o custo envolve dentre outras coisas, reconhecer que ele é Senhor. E reconhecer Cristo como Senhor significa abandonar a pretensão de autonomia.

    Observem;

    Não somos mais o centro.

    Não definimos sozinhos o bem e o mal.

    Não determinamos independentemente o sentido da existência.

    Não pertencemos exclusivamente a nós mesmos.

    O evangelho oferece graça.Mas a graça não significa autonomia.

    Ao contrário, A graça nos reconcilia com aquele a quem pertencemos.

    Da epistemologia à existência

    Aqui podemos enxergar a beleza da passagem de Plantinga para Stott.

    Plantinga perguntou:

    É racional crer?

    Stott pergunta:

    O que significa crer?

    Plantinga trabalha com categorias como:

    • crença;
    • racionalidade;
    • conhecimento;
    • warrant;
    • funcionamento cognitivo;
    • verdade.

    Stott nos conduz para:

    • Cristo;
    • pecado;
    • cruz;
    • salvação;
    • decisão;
    • discipulado.

    O primeiro nos ajuda a compreender a racionalidade da fé. O segundo nos lembra o conteúdo e o objeto da fé.

    Isso significa que o movimento II da nossa trilha não é apenas uma introdução à filosofia. É uma pedagogia da inteligência cristã.

    Pensar melhor não significa afastar-se do evangelho.

    Significa aprender a compreender melhor aquilo que o evangelho afirma.

    O “básico” não significa superficial

    Existe uma ironia no título.

    Cristianismo Básico poderia sugerir um livro destinado apenas a iniciantes. Mas “básico” não significa necessariamente simples. Significa aquilo que está na base.

    Aquilo sem o qual o restante perde seu sentido.

    Diferentemente da percepção apressada sobre o título da obra, Stott não está oferecendo uma versão simplificada do cristianismo para pessoas que não conseguem compreender teologia. Ele está perguntando:

    Quais são as afirmações fundamentais sem as quais não podemos chamar determinada crença de cristianismo?

    Isso é especialmente importante para uma época em que utiliza-se a palavra “cristão” para designar realidades extremamente diferentes.

    Mas afinal, o que torna uma pessoa cristã?

    Uma moral?

    Uma tradição familiar?

    Uma identidade cultural?

    Uma experiência religiosa?

    Uma frequência à igreja?

    Uma determinada posição política?

    Stott nos conduz de volta ao centro.

    Cristianismo é Cristo.

    O cristianismo não começa com “o que devo fazer?”

    Talvez essa seja uma das grandes lições pedagógicas do livro.

    Muitas apresentações da fé começam com comportamento.

    Faça isso, não faça aquilo. Ore, leia a Bíblia, vá à igreja, seja uma pessoa melhor, etc,.

    Mas o evangelho possui outra ordem. Primeiro:

    Quem é Cristo?

    Depois:

    Qual é nossa condição diante de Deus?

    Então:

    O que Cristo fez?

    E finalmente:

    Como responderemos?

    Essa ordem protege o cristianismo de se tornar moralismo. Pois, não somos chamados a viver corretamente para então merecer Cristo. Somos chamados a Cristo e, a partir dele, somos transformados.

    A ética cristã nasce da redenção.

    A obediência nasce da graça.

    A vida cristã nasce da relação com Cristo.

    Plantinga e Stott: duas perguntas inseparáveis

    Podemos agora enxergar a arquitetura completa do segundo movimento.

    Plantinga pergunta:

    “É racional crer em Deus?”

    Stott responde à pergunta seguinte:

    “O que o cristianismo realmente afirma?”

    Mas essas perguntas permanecem inseparáveis. Pois,uma fé irracional não poderia sustentar adequadamente sua reivindicação de verdade.

    Mas uma fé racionalmente defensável ainda poderia estar errada sobre seu objeto.

    Precisamos, portanto, de ambas as perguntas:

    Podemos crer racionalmente?

    E:

    Em que devemos crer?

    É justamente essa combinação que impede dois extremos. Pois, de um lado, uma fé que despreza o pensamento. De outro, um pensamento que jamais chega ao objeto da fé.

    Ou seja, o cristianismo não pede que deixemos de pensar. Ele nos chama a pensar até Cristo.

    Para ler Stott com atenção

    Ao ler Cristianismo Básico, vale a pena manter algumas perguntas diante de nós:

    1. O que Jesus afirmou sobre si mesmo?
    2. Por que o caráter de Jesus é relevante para avaliar suas afirmações?
    3. Por que a ressurreição ocupa lugar central na argumentação cristã?
    4. Como Stott compreende o problema do pecado?
    5. O que a morte de Cristo realizou?
    6. O que significa salvação no contexto do evangelho?
    7. Por que a fé cristã exige uma resposta pessoal?
    8. Qual é o custo de reconhecer Jesus como Senhor?

    Essas perguntas impedem que “cristianismo básico” seja confundido com “cristianismo simplificado”.

    Stott está voltando ao fundamento. E fundamentos precisam ser examinados com cuidado.

    A pergunta que fica

    Agora podemos observar o percurso completo do segundo movimento:

    Plantinga:

    É racional crer em Deus?

    ↓

    Stott:

    O que o cristianismo realmente afirma?

    O movimento começou com uma pergunta epistemológica e termina diante de uma pessoa.

    Começamos perguntando sobre a racionalidade da crença. Terminamos perguntando sobre Cristo.

    Mas justamente quando pensamos que chegamos ao fundamento, surge uma nova questão.

    Se Cristo é verdadeiro.

    Se o evangelho é verdadeiro.

    Se a cruz é verdadeira.

    Se a salvação é verdadeira.

    Então precisamos perguntar:

    Como essas verdades realmente formam uma pessoa?

    Porque é possível saber coisas verdadeiras sem ser transformado por elas. É possível defender uma doutrina e continuar desejando as mesmas coisas. É possível possuir uma cosmovisão cristã intelectualmente coerente e continuar vivendo segundo desejos moldados por outra visão de mundo.

    Assim, uma nova fronteira aparece.

    O que nos forma?

    Somos formados principalmente por aquilo que pensamos acreditar?

    Ou existem forças mais profundas — desejos, amores, hábitos, práticas, imaginação e histórias — que moldam nossa vida?

    Essa pergunta nos conduz ao próximo movimento.

    Próxima etapa

    II — APRENDER A SER FORMADO

    07 — Somos formados apenas por aquilo em que acreditamos?

    James K. A. Smith — Você é Aquilo que Ama

    O terceiro movimento começará onde Stott termina.

    Depois de aprender a enxergar a realidade e a pensar sobre a verdade, precisamos perguntar:

    Como a verdade cristã passa a habitar uma vida?

    Talvez não sejamos formados apenas por nossas ideias.

    Talvez nossos desejos estejam formando aquilo que somos muito antes de percebermos.

    E talvez uma das grandes tarefas do discipulado cristão seja aprender a amar corretamente.

    A trilha, então, deixa a epistemologia e entra na formação.

    De pensar para ser formado.

    Dicas de Leitura

    Ler. Pensar. Discernir.

    Uma trilha de formação intelectual cristã.

    Logos & Cosmos
    Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

  • Alvin Plantinga — Conhecimento e Crença Cristã

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    DICAS DE LEITURA

    05 — É racional crer em Deus?

    II — APRENDER A PENSAR

    Alvin Plantinga — Conhecimento e Crença Cristã

    Quando enxergar já não é suficiente

    Toda pergunta nasce de outra.

    Durante os quatro primeiros passos desta trilha, aprendemos a olhar para a realidade antes de tentar defendê-la.

    James W. Sire nos mostrou que não simplesmente encontramos a realidade: nós a interpretamos.

    C. S. Lewis mostrou que abandonar a verdade objetiva não modifica apenas nossas opiniões, mas pode modificar nossa própria compreensão do ser humano.

    Francis Schaeffer nos levou a perguntar se a visão cristã corresponde efetivamente à realidade.

    Alister McGrath, por sua vez, mostrou que a verdade cristã precisa ser comunicada em meio a culturas que possuem outras categorias, outras perguntas e outras maneiras de interpretar o mundo.

    Chegamos, então, a uma fronteira inevitável. Se existe uma realidade, se o cristianismo afirma corresponder a essa realidade,se essa verdade pode ser comunicada.

    Como podemos saber?

    E mais especificamente:

    É racional crer em Deus?

    É nesse ponto que começa o segundo movimento da nossa trilha:

    II — APRENDER A PENSAR

    E o nosso primeiro interlocutor é Alvin Plantinga.

    A pergunta que estava esperando por nós

    O motivo pelo qual em nossa trilha, Plantinga vem depois de McGrath, se dá ao fato de que a apologética frequentemente começa respondendo às objeções levantadas contra a fé.

    Mas existe uma questão anterior:

    Que tipo de crença pode ser considerada racional?

    Durante muito tempo, a discussão sobre a racionalidade da fé religiosa foi dominada pela ideia de que uma crença só poderia ser racionalmente aceita se estivesse apoiada em determinados tipos de evidência ou argumento.

    Plantinga questiona essa estrutura.

    Em Conhecimento e Crença Cristã, versão mais breve e acessível de seu trabalho comtradução para o português brasileiro, ele pergunta precisamente se a crença cristã pode ser racional, justificável e, em última análise, possuir aquilo que ele chama de warrant — traduzido na edição brasileira como “aval”.

    A questão é extraordinariamente importante.

    Porque talvez o problema não seja simplesmente:

    “Existem argumentos suficientes para provar que Deus existe?”

    Talvez devamos perguntar antes:

    “A ausência de um argumento demonstrativo significa necessariamente que a crença em Deus é irracional?”

    Plantinga responde negativamente.

    E essa resposta modifica profundamente a maneira como pensamos a fé cristã.

    Crer não é o mesmo que acreditar sem pensar

    Há uma caricatura recorrente da fé cristã. E segundo essa caricatura, existem duas opções: razão de um lado e fé do outro.

    Pois, enquanto a pessoa racional exige evidências, a pessoa religiosa simplesmente acredita e pronto.

    Plantinga ajuda a desmontar essa falsa alternativa. Conforme o autor, ao imvez de optar por escolher entre razão e fé, nós deveriamos tentar compreender como a razão funciona quando avaliamos nossas crenças.

    Afinal, todos nós possuímos crenças que consideramos racionalmente legítimas sem que tenhamos elaborado argumentos formais para elas. Exemplos;

    Acreditamos que o mundo exterior existe.

    Confiamos em nossa memória.

    Reconhecemos outras pessoas como seres conscientes.

    Aceitamos determinadas percepções como verdadeiras.

    No entanto, não costumamos construir uma cadeia de argumentos para cada uma dessas crenças antes de aceitá-las. E isso não significa que sejam irracionais.

    Significa que nem toda crença racional precisa ser inferida de outras crenças por meio de um argumento formal.

    E é exatamente aqui que Plantinga começa a desafiar aquilo que ele considera uma compreensão estreita da racionalidade.

    A diferença entre “verdadeiro” e “racionalmente aceitável”

    Uma das distinções mais importantes para acompanhar Plantinga é a diferença entre uma crença ser verdadeira e uma pessoa estar epistemicamente justificada ao sustentá-la. Segundo o autor, uma pessoa pode acreditar em algo verdadeiro por razões completamente inadequadas.

    Da mesma forma, alguém pode possuir boas razões para uma crença que, posteriormente, se revele falsa.

    Isso mostra que a epistemologia não pode perguntar apenas:

    “A crença é verdadeira?”

    Ela precisa perguntar também:

    “Como essa crença foi formada?”

    E:

    “As faculdades cognitivas envolvidas estavam funcionando adequadamente?”

    É nesse terreno que Plantinga desenvolve sua noção de warrant. Para ele, conhecimento não é simplesmente possuir uma crença verdadeira.

    Uma crença precisa possuir determinadas condições epistemicamente adequadas para que possa constituir conhecimento. O projeto de Plantinga relaciona essa condição ao funcionamento apropriado das faculdades cognitivas, em um ambiente adequado e orientado para a verdade.

    Reconheço que essa discussão pode parecer excessivamente técnica. Mas suas consequências para a fé cristã são enormes.

    A fé precisa começar com um argumento?

    Aqui chegamos ao coração da proposta de Plantinga.

    Imagine alguém perguntando:

    “Qual é o seu argumento para acreditar que Deus existe?”

    A pergunta parece razoável. E argumentos filosóficos para a existência de Deus certamente possuem seu lugar. Mas Plantinga pergunta se essa é a única maneira pela qual uma crença em Deus poderia ser racional.

    Sua resposta é não. Uma pessoa pode ter uma crença racionalmente apropriada sem que essa crença tenha sido inferida a partir de uma série de premissas previamente demonstradas.

    É isso que Plantinga chama de crença propriamente básica.

    O conceito não significa:

    “acreditar sem qualquer fundamento”.

    Significa que determinadas crenças podem ser racionalmente sustentadas sem depender de uma inferência argumentativa a partir de outras crenças.

    Essa distinção é decisiva. Porque, se toda crença precisasse ser provada por outra crença, entraríamos numa cadeia interminável.

    Para justificar A, precisaríamos de B.

    Para justificar B, precisaríamos de C.

    Para justificar C, precisaríamos de D.

    Em algum momento, precisamos reconhecer que determinadas crenças são básicas dentro de nosso funcionamento cognitivo.

    A pergunta, então, não é: “A crença em Deus foi deduzida de alguma outra crença?”

    Mas; “Há boas razões para considerar que essa crença pode ser racionalmente formada sem depender de uma inferência?”

    É nesse ponto que Plantinga começa a construir sua epistemologia da crença religiosa.

    O sensus divinitatis

    Plantinga recupera uma antiga intuição cristã, especialmente associada a João Calvino: a ideia de que os seres humanos possuem uma capacidade ou disposição natural para formar crenças sobre Deus. Ele chama essa faculdade de sensus divinitatis.

    A proposta não é simplesmente afirmar que todos os seres humanos possuem automaticamente crenças cristãs corretas.

    O argumento é mais cuidadoso.

    Plantinga propõe um modelo segundo o qual, em determinadas circunstâncias, uma faculdade cognitiva poderia produzir crenças sobre Deus de maneira não inferencial e, quando funcionando adequadamente, essas crenças poderiam possuir warrant.

    Aqui aparece uma conexão particularmente importante com a tradição cristã. A fé não é apresentada como um defeito intelectual. Ela pode ser compreendida como parte daquilo que significa ser uma criatura racional diante de Deus.

    Plantinga apresenta a sua proposta sem a necessidade de elimina a reflexão. certamente que isso não elimina a apologética ou os argumentos. Mas simplesente nos impedem que aceitemos a premissa de que uma crença só pode ser racional se tiver sido produzida por um argumento formal.

    O cristianismo pode ser racional mesmo sem começar pela filosofia

    Essa é talvez a consequência mais importante de Plantinga para o leitor cristão comum. Uma vez que um cristão pode crer em Deus sem ter lido Aristóteles.

    Pode confiar em Cristo sem conhecer a filosofia analítica.

    Pode conhecer a Deus sem dominar argumentos cosmológicos, teleológicos ou ontológicos.

    No entanto, isso não significa que filosofia seja inútil. Mas significa que a filosofia não é a condição necessária para que a fé seja racional.

    E porque essa distinção importa?

    Simples, a Igreja não precisa transformar cada cristão em um filósofo profissional para que ele possa possuir uma fé intelectualmente legítima. Mas isso também não significa que o cristão deva desprezar a filosofia, como é comum no meio cristão tal prática.

    Pelo contrário. A reflexão filosófica pode ajudar a esclarecer aquilo que já cremos, identificar objeções, responder desafios e compreender melhor as estruturas intelectuais que sustentam nossas crenças.

    Portanto, Plantinga não torna a filosofia desnecessária. Ele ajuda a colocá-la em seu devido lugar.

    A crítica do “de fato” e do “de direito”

    Um dos instrumentos conceituais mais importantes de Plantinga é a distinção entre objeções de facto e de jure.

    Uma objeção de facto afirma:

    “A crença cristã é falsa.”

    Uma objeção de jure afirma algo diferente:

    “Mesmo que fosse verdadeira, a crença cristã seria irracional, injustificada ou intelectualmente ilegítima.”

    Essa distinção muda completamente o debate.

    Imagine que alguém diga:

    “Eu não acredito em Deus.”

    Ainda não sabemos qual é a objeção.

    A pessoa pode estar dizendo: “Deus não existe.”

    Isso é uma questão de facto.

    Mas pode estar dizendo:

    “Mesmo que Deus existisse, ninguém poderia racionalmente acreditar nele.”

    Essa é uma questão de jure.

    Plantinga concentra grande parte de sua análise nessa segunda questão. Sua obra investiga justamente se existe uma objeção de jure bem-sucedida contra a crença cristã.

    Essa distinção será fundamental para todo o restante da nossa trilha.

    Porque uma coisa é contestar a verdade de uma crença. Outra é declarar que ninguém poderia racionalmente sustentá-la.

    A fé não precisa pedir desculpas por existir

    Existe uma diferença importante entre dizer:

    “Minha fé é verdadeira porque eu não preciso pensar sobre ela.”

    e dizer:

    “Minha fé não é irracional simplesmente porque não nasceu de um argumento filosófico.”

    Plantinga está defendendo a segunda afirmação. E isso representa uma mudança significativa na apologética. Pois, durante muito tempo, muitos cristãos sentiram que precisavam começar cada conversa defendendo a própria legitimidade intelectual da fé.

    Plantinga inverte parcialmente a situação.

    Ele pergunta aos críticos:

    Por que devemos aceitar que o cristianismo precisa cumprir um padrão epistemológico que outras crenças humanas não precisam cumprir?

    Por que a crença em Deus precisaria de uma justificativa argumentativa especial se aceitamos outras crenças fundamentais sem demonstrá-las da mesma maneira?

    É bem verdade que essa pergunta não prova que Deus existe. E Plantinga não pretende que prove. Ela faz algo diferente, ele questiona a regra do jogo.

    O problema do naturalismo

    Plantinga leva a discussão ainda mais longe.

    Se nossas faculdades cognitivas são produtos de processos evolutivos, como podemos ter confiança de que elas são orientadas para a produção de crenças verdadeiras?

    Essa questão aparece na filosofia de Plantinga de maneira mais ampla e está relacionada ao chamado argumento evolucionário contra o naturalismo.

    Aqui a discussão se torna especialmente interessante.

    O naturalismo afirma, em linhas gerais, que a realidade pode ser compreendida sem recorrer a Deus ou ao sobrenatural.

    Mas Plantinga pergunta:

    Se naturalismo e evolução forem simultaneamente verdadeiros, por que deveríamos confiar que nossas faculdades cognitivas foram produzidas de maneira suficientemente confiável para alcançar a verdade?

    A questão é profunda porque não ataca apenas uma crença religiosa. Ela pergunta pelas próprias condições que tornam possível confiar em nossas crenças. Em outras palavras:

    Que fundamento temos para confiar na razão?

    E essa pergunta conduz a epistemologia para um terreno muito mais amplo.

    A razão também precisa de uma cosmovisão

    Aqui a trilha volta, de maneira surpreendente, ao seu ponto de partida.

    Sire nos ensinou que toda pessoa interpreta a realidade a partir de uma cosmovisão.

    Agora Plantinga nos obriga a perguntar:

    Essa cosmovisão possui recursos suficientes para explicar a própria racionalidade que utilizamos para defendê-la?

    Isso é uma questão epistemológica de primeira grandeza. Não basta utilizar a razão. Precisamos perguntar por que podemos confiar na razão.

    Não basta afirmar que conhecemos.

    Precisamos perguntar o que torna o conhecimento possível.

    Não basta acusar a fé de ser irracional.

    Precisamos definir o que estamos chamando de racionalidade.

    É por isso que Plantinga é tão importante nesta trilha. Ele não está simplesmente oferecendo “argumentos a favor de Deus”.

    Ele está questionando os pressupostos epistemológicos a partir dos quais determinadas pessoas consideram a fé cristã intelectualmente suspeita.

    E os argumentos?

    Seria um erro concluir que Plantinga é contra argumentos para a existência de Deus.

    Não é isso.

    Argumentos continuam importantes. A apologética pode apresentar argumentos cosmológicos, teleológicos, morais, históricos e outros. No entanto, o ponto é outro:

    eles não constituem necessariamente a única base racional possível para a crença em Deus.

    Essa distinção nos ajuda a recuperar uma apologética mais equilibrada. Onde o argumento pode ser uma ferramenta. Mas, não precisa ser transformado em fundamento absoluto da possibilidade da fé. Pois, a crença cristã não precisa esperar que o filósofo termine sua demonstração para então tornar-se racional.

    Fé, conhecimento e o testemunho do Espírito

    Plantinga não limita sua proposta à crença genérica em Deus.

    Seu objetivo é explicar como a própria crença cristã, em sua particularidade, pode possuir warrant. E é aqui que sua proposta passa do sensus divinitatis para aquilo que ele chama de modelo Aquino/Calvino ampliado.

    Nesse modelo, Plantinga procura explicar epistemologicamente a crença cristã levando em consideração a Escritura, a fé e o testemunho interno do Espírito Santo. E isso é particularmente importante porque o cristianismo não afirma apenas:

    “Existe algum ser divino.”

    A fé cristã afirma algo muito mais específico:

    Deus criou.

    Deus se revelou.

    Cristo veio.

    Cristo morreu.

    Cristo ressuscitou.

    O Espírito Santo testemunha.

    O evangelho é verdadeiro.

    A salvação está em Cristo.

    Plantinga, portanto, não quer explicar apenas como alguém poderia racionalmente acreditar em um “deus genérico”.

    Ele pretende mostrar como uma epistemologia cristã pode dar conta da particularidade da fé cristã.

    E as objeções?

    Plantinga não ignora os grandes desafios contemporâneos. Ao contrário. A versão mais acessível de sua obra trata de possíveis “derrotadores” da crença cristã, incluindo questões relacionadas à crítica bíblica histórica, pluralismo, ciência, sofrimento e mal.

    Isso é importante para nossa trilha, porque a tese de Plantinga não é:

    “Não existem objeções contra o cristianismo.”

    Sua tese é muito mais específica:

    “A existência de objeções não demonstra, por si mesma, que a crença cristã seja irracional.”

    Pois, uma objeção precisa ser avaliada. E nessa avaliação, ela pode revelar-se como; forte, fraca, pode ser respondida, pode exigir revisão de uma determinada crença, pode até mesmo ser refutada.

    Mas não devemos confundir:

    “existe uma objeção”

    com

    “a crença é irracional”.

    Plantinga e McGrath: da comunicação à racionalidade

    Agora podemos defender por que a ordem dos livros importa.

    McGrath nos perguntou:

    Como comunicar a fé em uma cultura que pensa de outra maneira?

    Plantinga nos leva um passo mais profundo:

    É racional crer em Deus?

    Enquanto McGrath estava preocupado com a distância entre o evangelho e seu interlocutor, Plantinga está preocupado com as condições epistemológicas dessa crença.

    Enquanto McGrath nos ensina a compreender o interlocutor, Plantinga nos ensina a examinar a estrutura da crença.

    Enquanto McGrath trabalha principalmente no campo da apologética, Plantinga nos conduz para a epistemologia da religião.

    Por isso, o segundo movimento não é uma repetição do primeiro. ma sim, uma mudança de profundidade.

    Uma vez que prender a enxergar nos mostrou que existem diferentes interpretações da realidade, agora precisamos aprender a pensar sobre verdade, crença, racionalidade e conhecimento.

    Para ler Plantinga com atenção

    Ao ler Conhecimento e Crença Cristã, vale a pena manter diante de nós algumas perguntas:

    1. Uma crença precisa ser demonstrada por um argumento para ser racional?
    2. O que Plantinga quer dizer quando chama determinadas crenças de “propriamente básicas”?
    3. Qual é a diferença entre uma objeção de facto e uma objeção de jure?
    4. O que significa dizer que uma crença possui aval (warrant)?
    5. Como o funcionamento adequado das faculdades cognitivas se relaciona com o conhecimento?
    6. Qual é o papel do sensus divinitatis no modelo de Plantinga?
    7. Por que o testemunho interno do Espírito Santo entra numa discussão epistemológica?
    8. Quais são os possíveis “derrotadores” da crença cristã e por que Plantinga entende que eles não conseguem necessariamente derrotá-la?

    Essas perguntas ajudam a evitar uma leitura superficial.

    Plantinga não está simplesmente dizendo:

    “Você pode acreditar no que quiser.”

    Ele está dizendo algo muito mais exigente:

    “Precisamos repensar o que significa uma crença ser racionalmente apropriada.”

    A pergunta que fica

    Ao final do primeiro movimento, perguntamos:

    O cristianismo corresponde à realidade?

    Depois:

    Como podemos comunicar essa verdade a uma cultura que pensa de outra maneira?

    Agora Plantinga nos leva a perguntar:

    É racional crer em Deus?

    E a resposta abre uma nova questão.

    Se a fé cristã pode ser racional sem depender de uma demonstração filosófica prévia, então precisamos perguntar:

    O que exatamente o cristianismo afirma que devemos crer?

    Observe que não basta defender a racionalidade da fé. É preciso apresentar o conteúdo da fé. Bem como, não basta perguntar se podemos crer. Precisamos perguntar:

    Em que estamos crendo?

    E é extamente neste ponto que a nossa trilha encontra John Stott.

    Próxima etapa

    II — APRENDER A PENSAR

    06 — O que o cristianismo realmente afirma?

    John Stott — Cristianismo Básico

    Se Plantinga nos ensinou a perguntar se a crença cristã pode ser racional, Stott nos conduzirá de volta ao centro da mensagem cristã.

    A pergunta agora não será apenas:

    “É racional crer?”

    Será:

    “Em que estamos sendo chamados a crer?”

    Quem é Jesus?

    O que significa sua morte?

    O que significa sua ressurreição?

    O que significa segui-lo?

    O segundo movimento continuará nos ensinando a pensar, mas agora a razão será colocada diante do próprio conteúdo do evangelho.

    Porque uma fé racionalmente defensável ainda precisa ser uma fé verdadeira em seu objeto.

    Dicas de Leitura

    Ler. Pensar. Discernir.

    Uma trilha de formação intelectual cristã.

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    Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

  • Alister E. McGrath — Apologética Cristã no Século XXI

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    DICAS DE LEITURA

    04 — Como comunicar a fé em uma cultura que pensa de outra maneira?

    I — APRENDER A ENXERGAR

    Alister E. McGrath — Apologética Cristã no Século XXI

    Ciência e arte com integridade

    Quando enxergar já não é suficiente

    Uma pergunta nasce da outra.

    No primeiro passo desta trilha, James W. Sire nos ensinou que não encontramos a realidade de maneira intelectualmente neutra. Mas sim, que nós a interpretamos. O que Sire nos mostram é que toda pessoa vive a partir de alguma compreensão, explícita ou implícita, acerca do mundo, do conhecimento, da verdade e de si mesma.

    Logo depois, C. S. Lewis nos obrigou a olhar para as consequências antropológicas dessa interpretação. Lewis nos ensinou que, se uma cultura abandona a existência de valores objetivos, ela não somente perde determinadas crenças morais, ela também começa a modificar a própria compreensão do que significa ser humano.

    Na sequênia, vimos Francis A. Schaeffer levar a questão ainda mais longe. Aprendemos então, que não basta perguntar se determinada visão de mundo é internamente coerente. É necessário perguntar se ela corresponde à realidade. Para isso, o cristianismo não se apresenta simplesmente como uma maneira possível de organizar experiências humanas. Ele afirma que existe um Deus que está ali, que criou o mundo, que se revelou na história e que entrou na própria história, a saber, Jesus Cristo.

    Mas então, surge uma nova questão.

    Se o cristianismo afirma a verdade sobre a realidade, como essa verdade pode ser comunicada a pessoas que aprenderam a enxergar essa mesma realidade a partir de outras categorias?

    É nesse ponto que chegamos a Alister McGrath.

    A apologética começa antes da resposta

    Nessa perspectiva, tratamos a apologética como uma espécie de arsenal intelectual.

    Há argumentos para a existência de Deus.
    Há argumentos relacionados à moralidade.
    Há respostas ao problema do sofrimento.
    Há evidências históricas para a ressurreição.
    Há argumentos relacionados à confiabilidade das Escrituras.

    E tudo isso possui seu lugar. Porém, McGrath, chama nossa atenção para uma questão anterior: qual argumento deve ser apresentado, a quem, em qual situação e de que maneira?

    Sua proposta não consiste em abandonar a apologética tradicional, mas sim, em ampliá-la. A descrição da obra deixa isso bastante claro: McGrath procura remodelar a apologética tradicional, não para desacreditá-la, mas para complementá-la, oferecendo diferentes formas de conceber a tarefa apologética de acordo com as necessidades e oportunidades particulares.

    Isso modifica significativamente a nossa pergunta. Pois, a apologética deixa de ser apenas:

    “Qual é o melhor argumento para provar que o cristianismo é verdadeiro?”

    E passa a incluir:

    “Qual é o ponto de contato entre a verdade do evangelho e a pessoa que está diante de mim?”

    Essa mudança tem impacto extremamente sigificante. Afinal, pessoas diferentes não chegam ao cristianismo carregando exatamente as mesmas perguntas.

    Afinal,utra pode considerar a fé irracional.

    Outra pode acreditar que ciência e cristianismo são incompatíveis.

    Outra pode ter sido moralmente ferida pela própria experiência religiosa.

    Outra pode não possuir sequer categorias para compreender por que a existência deveria apontar para Deus.

    E responder adequadamente estas questões, exige mais do que conhecer respostas. Exige aprender a enxergar a pergunta que está por trás da pergunta.

    2. Construindo pontes sem mudar o destino

    Portanto, a imagem que estrutura a proposta de McGrath é particularmente apropriada: construir pontes.

    Segundo a obra, uma ponte existe porque há uma distância entre dois lados.

    No entanto, na apologética, essa distância pode assumir muitas formas.

    Pode ser intelectual.
    Pode ser cultural.
    Pode ser moral.
    Pode ser existencial.
    Pode ser imaginativa.
    Pode inclusive, resultar de experiências anteriores com a visão de cristianismo a qual estava inserida.

    Sendo assim, a tarefa apologética consiste, em procurar os lugares onde essa distância pode ser atravessada.

    Mas é justamente aqui que mora um perigo.

    Construir uma ponte não significa mover o destino.

    Ou seja, o evangelho não precisa ser alterado para tornar-se verdadeiro para cada geração. Pois, o que precisa ser examinado é a maneira como o evangelho é apresentado. E essa distinção é fundamental para a apologética.

    Pois, uma apologética que altera o conteúdo da fé para torná-la culturalmente aceitável, já deixou de ser apologética cristã a muito tempo.

    Todavia, uma apologética que simplesmente repete as mesmas respostas, independentemente das perguntas que uma cultura está fazendo, pode até conservar a verdade, mas, perderá a sua capacidade de comunicação.

    McGrath procura ocupar justamente esse espaço entre dois extremos:

    fidelidade sem insensibilidade; relevância sem acomodação.

    Ciência e arte

    O subtítulo da edição brasileira — Ciência e arte com integridade — expressa uma das intuições mais interessantes da obra. A apologética possui uma dimensão científica porque exige conhecimento, rigor, argumentação e integridade intelectual.

    Com McGrath prendemos que a fé cristã não precisa ser protegida por argumentos intelectualmente frágeis. Crer não significa abandonar a razão.

    Mas a apologética também possui uma dimensão artística.

    Não porque a verdade seja uma obra de ficção, mas porque comunicar a verdade exige sensibilidade diante das pessoas, das circunstâncias, das imagens, das histórias e das perguntas que estruturam uma cultura.

    Neste sentido, McGrath insiste que uma apologética indiferente à individualidade humana e à diversidade das situações nas quais as pessoas se encontram pode rapidamente perder sua capacidade de comunicação.

    Isso significa que a verdade não muda, mas a forma de apresentar a verdade pode e deve considerar o interlocutor.

    Dentro desta perspectia, o apóstolo Paulo nos oferecem exemplos dessa flexibilidade sem relativismo. Em Atenas, Paulo não começa sua argumentação da mesma maneira que começa diante de uma sinagoga.

    Ele observa.

    Ele escuta.

    Ele identifica categorias.

    Ele reconhece referências culturais.

    E só então, anuncia o Deus verdadeiro.

    E não digo isto porque o evangelho precise ser reconstruído a partir da cultura, mas porque a comunicação do evangelho precisa atravessar a cultura.

    O ponto de contato

    Aqui encontramos o conceito central para compreender a proposta de McGrath: o ponto de contato.

    No entanto, não se trata simplesmente de encontrar algo na pessoa que já seja “cristão”.

    Trata-se de identificar alguma dimensão da experiência humana na qual a pergunta pelo sentido, pela verdade, pela ordem, pela moralidade, pela finitude, pelo desejo ou pela transcendência possa abrir espaço para o anúncio cristão.

    Entre os pontos de contato discutidos por McGrath aparecem, por exemplo:

    • o desejo humano não satisfeito;
    • a racionalidade;
    • a ordem do mundo;
    • a experiência moral;
    • a angústia existencial;
    • a consciência da finitude e da mortalidade.

    O próprio índice da obra organiza sua primeira parte em torno desses diferentes pontos de contato.

    Para a apologética, isso é importante porque desloca de uma situação artificial. Pois, não estamos diante de um tribunal imaginário no qual o cristão precisa vencer um debate. Estamos diante de pessoas reais.

    Pessoas que desejam.

    Que sofrem.

    Que pensam.

    Que duvidam.

    Que amam.

    Que têm medo.

    Que possuem histórias.

    Que carregam pressupostos.

    E que, muitas vezes, fazem perguntas cuja dimensão espiritual elas mesmas ainda não perceberam.

    A apologética não cria a fé

    Todavia, há aqui outra salvaguarda teológica importante que precisamos apontar.

    McGrath não transforma a apologética em uma técnica capaz de produzir conversões. Pois, a apologética pode remover obstáculos, esclarecer equívocos, responder objeções, mostrar coerência e apresentar a plausibilidade da fé.

    Mas ela não cria a fé.

    Isso preserva uma distinção particularmente especial:

    o apologista pode construir a ponte; mas, somente Deus pode conduzir o pecador à fé.

    A apologética, portanto, não substitui a evangelização. Ela serve à evangelização.

    Essa relação é importante porque impede pelo menos dois erros opostos.

    O primeiro é imaginar que a fé cristã não possui conteúdo racional e que, portanto, não precisa ser explicada.

    O segundo é imaginar que uma demonstração lógica suficientemente sofisticada inevitavelmente produzirá fé. Isso é fantasioso. Nenhuma dessas posições faz justiça ao cristianismo.

    A fé cristã possui sim conteúdo. Mas o conhecimento do conteúdo não equivale, por si só, à fé salvadora. E é por isso, que a apologética precisa reconhecer seus próprios limites.

    As barreiras também precisam ser compreendidas

    No entanto, uma das contribuições pedagógicas de McGrath é justamente a sua atenção às barreiras à fé.

    Para McGrath, nem toda resistência ao cristianismo é puramente intelectual. Algumas barreiras são sim intelectuais, mas outras são históricas. Enquanto que;

    Outras estão relacionadas à percepção de relevância.

    Outras nascem de equívocos sobre a natureza do cristianismo.

    Outras envolvem compromissos anteriores com sistemas alternativos de crença.

    Outras ainda estão relacionadas à integridade pessoal, culpa ou sentimentos de inadequação.

    O resultado é uma advertência importante:

    não devemos responder a uma pessoa como se ela fosse apenas uma objeção ambulante. Pois, por trás de uma objeção pode existir uma história.

    Por trás de uma pergunta filosófica pode existir uma experiência de sofrimento.

    Por trás de uma rejeição intelectual pode existir uma caricatura do cristianismo.

    Por trás de uma resistência moral pode existir uma questão que ainda não foi formulada adequadamente.

    E é por isso, que a boa apologética precisa ouvir antes de responder.

    O choque de cosmovisões

    Neste ponto, McGrath retoma algo que atravessa toda a nossa primeira etapa: cosmovisão.

    O problema não é apenas que algumas pessoas discordam de determinadas doutrinas cristãs.

    Frequentemente, elas estão partindo de uma estrutura completamente diferente para decidir o que pode ser considerado verdadeiro.

    McGrath dedica uma parte da obra ao que chama de “choque de cosmovisões”, examinando rivais modernos do cristianismo, incluindo racionalismo iluminista, marxismo, materialismo científico, feminismo, pós-modernismo e Nova Era.

    Aqui nossa trilha retorna ao ponto de partida.

    Sire nos ensinou que interpretamos a realidade.

    Lewis mostrou que essa interpretação possui consequências para aquilo que entendemos como ser humano e valor.

    Schaeffer perguntou se essa interpretação corresponde à realidade.

    McGrath agora mostra que a comunicação cristã acontece em um ambiente no qual diferentes interpretações da realidade se encontram, disputam espaço e procuram convencer.

    A apologética, portanto, não é apenas uma defesa de proposições.

    É também uma forma de confronto entre maneiras de compreender o mundo.

    Não basta responder: é preciso aprender a conversar

    Talvez uma das maiores contribuições de McGrath para esta trilha seja recuperar a dimensão dialógica da apologética.

    Afinal, a defesa da fé não precisa assumir imediatamente a forma de confronto. Ela pode assumir a forma de conversa.

    Pergunta.

    Escuta.

    Esclarecimento.

    Argumentação.

    Narrativa.

    Analogia.

    Testemunho.

    A própria conclusão da obra apresenta a apologética em ação como diálogo, pregação, apelo à imaginação, uso de formas literárias e diálogo com a cultura. Isso não significa transformar o cristianismo em uma experiência subjetiva.

    Significa reconhecer que seres humanos não são convencidos apenas por silogismos.

    Nós também pensamos por imagens, memórias, histórias, experiências, símbolos, desejos, esperanças e medos.

    A razão continua indispensável. Mas a razão humana nunca funciona isoladamente de uma vida concreta.

    McGrath e Schaeffer: da correspondência à comunicação

    A relação entre Schaeffer e McGrath é especialmente importante dentro desta trilha.

    Schaeffer nos ensinou a perguntar: O cristianismo corresponde à realidade?

    McGrath acrescenta: Como essa correspondência pode ser apresentada de maneira intelectualmente íntegra e culturalmente inteligível?

    Essa diferença pode até parecer e em certo sentido é pequena na formulação, mas enorme pedagogicamente.

    Porque é possível estar absolutamente convencido de que o cristianismo é verdadeiro e, ainda assim, não saber comunicar essa verdade.

    Também, é possível aprender a linguagem de uma cultura tão profundamente que, no esforço de ser compreendido, o cristão termine modificando aquilo que pretendia comunicar.

    E é por isso que a apologética madura sempre evitará os dois erros.

    Não podemos sacrificar a verdade para preservar a comunicação.

    Mas também não devemos sacrificar a comunicação em nome de uma suposta fidelidade à verdade.

    A verdade precisa ser dita. E precisa ser dita de modo que possa ser ouvida.

    A pergunta certa para o século XXI

    Mesmo que o título da obra utilize a expressão “século XXI”, a questão de McGrath continua atual justamente porque o problema não é simplesmente cronológico. Pois, cada geração produz novas formas de resistência, novas linguagens, novas sensibilidades e novas estruturas de pensamento.

    Por isso, uma apologética cristã permanente precisa conservar duas características simultaneamente:

    fidelidade ao evangelho e inteligência cultural.

    Neste sentido, o apologista precisa conhecer suficientemente bem o cristianismo para não reduzi-lo. No entanto, esse mesmo apologista, também precisa conhecer suficientemente bem seu interlocutor para não responder a perguntas que ninguém está fazendo.

    E essa talvez seja uma das maiores tentações da apologética contemporânea: combater inimigos intelectuais que já não existem, utilizando categorias que o próprio interlocutor jamais adotou.

    O resultado é uma defesa que pode ser rigorosa e, ao mesmo tempo, irrelevante.

    McGrath nos lembra que a apologética precisa começar onde as pessoas realmente estão.

    Para ler McGrath com atenção

    Ao percorrer Apologética Cristã no Século XXI, vale a pena manter algumas perguntas diante de nós:

    1. Qual é a diferença entre defender a fé e simplesmente vencer uma discussão?
    2. O que McGrath quer dizer com “ponto de contato”?
    3. Por que uma apologética precisa considerar pessoas e contextos diferentes?
    4. Como ciência e arte podem participar juntas da comunicação cristã sem que a verdade seja relativizada?
    5. Quais são as barreiras intelectuais, culturais e existenciais que podem dificultar a compreensão do evangelho?

    Essas perguntas ajudam a perceber que a apologética não é uma coleção de respostas. Ela é uma disciplina de atenção.

    No entanto, antes de responder, precisamos saber o que está realmente sendo perguntado.

    Antes de apresentar um argumento, precisamos saber qual estrutura de pensamento tornou aquela objeção plausível.

    E antes de falar, precisamos aprender a ouvir.

    A pergunta que fica

    Agora podemos enxergar o percurso dos quatro primeiros livros:

    Sire:
    Como interpretamos a realidade?

    Lewis:
    O que acontece ao homem quando perdemos a verdade objetiva?

    Schaeffer:
    O cristianismo corresponde à realidade?

    McGrath:
    Como comunicar a fé em uma cultura que pensa de outra maneira?

    Perceba o movimento. Começamos com a percepção, passamos pela verdade, chegamos à realidade e terminamos diante da comunicação da verdade.

    Assim, o primeiro movimento da trilha chega ao seu término.

    Aprendemos a enxergar.

    Mas agora surge uma pergunta inevitável:

    Se afirmamos que o cristianismo é verdadeiro, em que sentido podemos dizer que conhecemos essa verdade?

    Não basta afirmar que uma cosmovisão corresponde à realidade. Precisamos perguntar sobre o próprio conhecimento.

    O que significa saber?

    Quais são as condições da crença racional?

    É possível crer racionalmente em Deus?

    E, sobretudo:

    A fé cristã pode ser intelectualmente justificada sem depender de uma fuga da razão?

    É nesse ponto que a trilha precisa mudar de movimento.

    Próxima etapa

    II — APRENDER A PENSAR

    05 — É racional crer em Deus?

    Alvin Plantinga — Conhecimento e Crença Cristã

    Se o primeiro movimento nos ensinou a enxergar, o segundo deverá nos ensinar a pensar.

    Depois de perguntar como interpretamos a realidade, o que acontece quando perdemos a verdade, se o cristianismo corresponde ao real e como essa verdade pode ser comunicada, chegamos à questão epistemológica:

    Como podemos saber?

    Alvin Plantinga será nosso próximo interlocutor.

    A pergunta já não será apenas se o cristianismo possui boas respostas.

    Será se a própria crença cristã pode ser racional, intelectualmente legítima e epistemicamente justificada.

    A trilha, então, passa da cosmovisão para a epistemologia.

    De enxergar para pensar.

    Dicas de Leitura

    Ler. Pensar. Discernir.

    Uma trilha de formação intelectual cristã.

    Logos & Cosmos
    Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

  • Francis A. Schaeffer — O Deus que Intervém

    Open ancient book on wooden desk with candle and quill in medieval library

    DICAS DE LEITURA

    03 — O cristianismo corresponde à realidade?

    I — APRENDER A ENXERGAR

    Francis A. Schaeffer — O Deus que Intervém

    Quando enxergar já não é suficiente

    Nas duas primeiras etapas da nossa caminhada, aprendemos que uma cosmovisão não é apenas um conjunto de ideias que carregamos sobre o mundo. Ela determina, em grande medida, como enxergamos o mundo.

    James W. Sire nos ajudou a perceber que não interpretamos a realidade a partir de um ponto absolutamente neutro.

    C. S. Lewis nos mostrou que essa interpretação possui consequências ainda mais profundas: aquilo que pensamos sobre a realidade também afeta aquilo que pensamos sobre o ser humano, sobre a verdade, sobre o bem e sobre aquilo que merece ser amado.

    Mas agora precisamos dar um passo adiante.

    Aquetão é, se existem diferentes maneiras de interpretar a realidade, surge uma pergunta inevitável:

    Como saber se aquilo que acreditamos corresponde realmente à realidade?

    E é justamente essa pergunta que nos conduz a Francis A. Schaeffer.

    Seu livro O Deus que Intervém ocupa um lugar particularmente adequado nesta etapa da nossa trilha porque Schaeffer não quer apenas defender algumas doutrinas cristãs diante de objeções particulares.

    Ele quer enfrentar uma questão mais ampla:

    O cristianismo oferece uma explicação verdadeira e coerente para a realidade?

    É aqui que nossa caminhada começa a adquirir uma nova profundidade.

    Não basta ter uma visão de mundo

    Uma pessoa pode possuir uma cosmovisão coerente e, ainda assim, estar equivocada. Coerência é importante.

    Mas coerência não é sinônimo de verdade.

    Uma explicação pode organizar muito bem nossas experiências e ainda assim não corresponder àquilo que realmente existe.

    Por isso, a questão cristã não pode ser simplesmente:

    “A minha visão de mundo faz sentido para mim?”

    Precisamos perguntar:

    “Essa visão de mundo corresponde ao mundo como ele realmente é?”

    Essa distinção é fundamental.

    Afnal, o cristianismo jamais se apresentou como uma maneira subjetivamente satisfatória de interpretar a existência.

    Ele faz afirmações sobre a realidade.

    Deus existe.

    O mundo foi criado.

    O ser humano é criatura e portador de dignidade.

    O mal é real.

    A história possui significado.

    Deus se revelou.

    Cristo entrou na história.

    A ressurreição aconteceu.

    Essas afirmações podem ser discutidas acadêmicamente como sendo verdadeiras ou falsas. E justamente por isso podem ser investigadas, discutidas e confrontadas.

    Todavia, é justamente esse compromisso com a realidade que torna a apologética cristã uma tarefa intelectual tão importante.

    O Deus que está ali

    O título original da obra de Schaeffer é The God Who Is There — literalmente, “O Deus que está ali”, traduzido no Brasil como “O Deus que intervém”.

    A escolha do título não é acidental. Schaeffer está reagindo a uma situação cultural na qual Deus havia sido progressivamente afastado da explicação pública da realidade. O problema, para ele, não era apenas que algumas pessoas haviam deixado de frequentar a igreja.

    Era muito mais profundo.

    Era a possibilidade de viver em um universo no qual Deus já não fosse considerado intelectualmente necessário.

    O universo poderia ser explicado sem Deus.

    O homem poderia ser explicado sem Deus.

    A moralidade poderia ser explicada sem Deus.

    A arte poderia ser explicada sem Deus.

    A cultura poderia ser explicada sem Deus.

    E, pouco a pouco, a própria pergunta sobre Deus poderia parecer desnecessária.

    Schaeffer responde de maneira radical:

    Deus não desapareceu da realidade simplesmente porque foi retirado de nossas explicações sobre ela.

    Essa é uma distinção decisiva.Podemos construir uma explicação do mundo que não mencione Deus. Mas isso não significa que tenhamos explicado o mundo.

    A “linha do desespero”

    Uma das imagens mais conhecidas de Schaeffer é a chamada “linha do desespero”.

    Seu objetivo é descrever um movimento intelectual que, segundo ele, atravessou parte significativa do pensamento ocidental moderno.

    Schaeffer identifica uma progressiva separação entre a realidade objetiva e as questões de significado, valor e transcendência.

    Em sua leitura, determinadas correntes filosóficas começam a limitar aquilo que pode ser conhecido pela razão; posteriormente, essa ruptura alcança a arte, a música, a cultura e a teologia.

    A estrutura do livro acompanha justamente esse percurso, passando pela filosofia, pela arte, pela música, pela cultura e pela chamada “nova teologia”. O resultado seria uma divisão cada vez mais profunda entre:

    aquilo que podemos conhecer racionalmente

    e

    aquilo que precisamos acreditar para viver.

    É nesse espaço que Schaeffer identifica aquilo que chama de desespero. Mas precisamos fazer uma leitura cuidadosa.

    O mapa de Schaeffer é uma interpretação histórica ampla, construída para responder aos debates intelectuais de seu tempo. Não devemos tratá-lo como uma descrição exaustiva de toda a história da filosofia moderna.

    Seu valor para nossa caminhada está em outra coisa:

    Schaeffer nos ensina a procurar o ponto em que uma visão de mundo começa a separar suas afirmações sobre a realidade de suas afirmações sobre significado, valor e existência humana.

    E essa pergunta continua extremamente atual.

    Quando a razão é confinada

    Schaeffer está especialmente preocupado com uma tendência que percebe no pensamento moderno: restringir o conhecimento racional ao que pode ser tratado de maneira objetiva, enquanto questões de significado, moralidade e transcendência são deslocadas para o campo subjetivo. O resultado é uma espécie de divisão.

    De um lado:

    fatos, ciência, lógica, matéria, verificabilidade.

    Do outro:

    sentido, valor, beleza, moralidade, espiritualidade.

    A dificuldade aparece quando tentamos viver uma vida que precisa das duas dimensões. Porque ninguém vive apenas de fatos.

    Nós também precisamos responder:

    Por que devo fazer o bem?

    O que torna uma vida significativa?

    Por que devo considerar o outro digno?

    O que torna uma injustiça realmente injusta?

    Por que a beleza importa?

    Por que a verdade deve ser preferida à mentira?

    Se essas perguntas forem simplesmente retiradas do campo da realidade objetiva, elas não desaparecem.

    Continuam nos perseguindo.

    Mas agora sem um fundamento comum.

    O problema não é apenas intelectual

    É importante perceber que Schaeffer não está interessado em filosofia apenas por amor à filosofia. Seu objetivo é pastoral e apologético.

    Ele quer compreender por que as pessoas pensam como pensam para saber como apresentar o evangelho de maneira intelectualmente responsável.

    Essa preocupação aparece de modo particularmente claro quando ele fala sobre encontrar o “ponto de tensão”.

    Antes de apresentar uma resposta cristã, é necessário compreender a pergunta que está realmente sendo feita. E isso exige escuta.

    Exige conhecimento da cultura.

    Exige capacidade de identificar pressupostos.

    E exige também disposição para entrar no mundo intelectual do outro sem simplesmente caricaturá-lo.

    A apologética, nesse sentido, não começa com uma resposta. Começa com a compreensão do problema.

    O ponto de tensão

    A expressão de Schaeffer é particularmente útil para nossa trilha.

    Toda cosmovisão possui pontos nos quais suas afirmações precisam ser confrontadas com a experiência humana.

    Uma pessoa pode afirmar que não existe verdade objetiva. Mas ainda protesta contra a injustiça.

    Pode afirmar que o ser humano é apenas matéria. Mas continua falando de dignidade.

    Pode afirmar que tudo é produto de processos naturais. Mas continua procurando significado.

    Pode afirmar que a moralidade é apenas construção social. Mas condena determinadas práticas como verdadeiramente erradas.

    O objetivo da apologética não deve ser simplesmente apontar:

    “Você está sendo incoerente.”

    A questão mais profunda é:

    “Que visão da realidade torna possível aquilo que você está afirmando?”

    Esse é o ponto de tensão. E ele pode se tornar uma porta para o evangelho.

    Pré-evangelização não é um evangelho menor

    Uma das contribuições importantes de Schaeffer está em sua defesa da chamada “pré-evangelização”.

    A expressão pode causar estranhamento. Mas a ideia é simples.

    Existem pessoas que precisam primeiro compreender por que as perguntas cristãs são intelectualmente relevantes antes de estarem preparadas para ouvir a resposta cristã em sua plenitude.

    Isso não significa criar uma etapa que substitua o evangelho.

    Significa preparar o terreno para que o evangelho seja ouvido como resposta a uma pergunta real.

    Schaeffer dedica uma seção inteira de O Deus que Intervém à pré-evangelização, incluindo a tarefa de recomendar a fé cristã à própria geração e a importância da verdade.

    Nesse sentido, a apologética não é uma tentativa de transformar o cristianismo em filosofia. Ela procura remover obstáculos intelectuais e mostrar que a fé cristã possui algo relevante a dizer sobre o mundo real.

    A verdade histórica do cristianismo

    Aqui chegamos ao centro da proposta de Schaeffer.

    Se o cristianismo é verdadeiro, ele não pode ser reduzido a uma experiência interior. Pois, a fé cristã afirma que Deus agiu na história.

    Isso significa que o cristianismo possui uma dimensão pública.

    Ele não fala apenas:

    “Deus pode fazer sentido para você.”

    Ele afirma:

    “Deus é quem Deus é, independentemente de você acreditar nele.”

    E afirma ainda:

    “Aquilo que Deus fez na história possui consequências para aquilo que todos nós devemos pensar sobre a realidade.”

    Essa dimensão histórica é decisiva.

    A fé cristã não começa com o homem procurando uma experiência religiosa. Começa com Deus.

    O Deus que existe.

    O Deus que fala.

    O Deus que se revela.

    O Deus que entra na história.

    O Deus que se dá a conhecer.

    Por isso, a apologética cristã precisa levar a sério a realidade.

    O Deus pessoal e infinito

    Schaeffer insiste que o Deus cristão não é uma abstração filosófica.

    Ele é pessoal.

    Mas também é infinito.

    E essa combinação é fundamental. Pois, se Deus fosse apenas uma força impessoal, poderíamos falar de transcendência, mas não de relacionamento pessoal com o Criador.

    Ou ainda, se Deus fosse apenas uma projeção humana, então, a religião não passaria de uma construção psicológica.

    Mas se existe ( e há) um Deus pessoal e infinito que criou o universo e se revelou, então existe fundamento para aquilo que a razão humana procura:

    verdade, significado, moralidade e conhecimento.

    É justamente essa visão de Deus que permite a Schaeffer responder ao desespero intelectual que identifica em sua cultura.

    Não estamos sozinhos em um universo silencioso.

    O Deus que está ali também é o Deus que fala.

    O cristianismo precisa falar ao mundo real

    Possivelmente, uma das maiores contribuições de Schaeffer para o pensamento cristão contemporâneo seja sua insistência em que a igreja precisa compreender o mundo no qual está vivendo.

    O cristianismo não pode permanecer intelectualmente isolado.

    Não porque precise adaptar sua verdade ao espírito de cada época.

    Mas porque precisa saber a quais perguntas está respondendo.

    Schaeffer estudou filosofia, arte, música, literatura e teologia porque compreendeu que uma cultura revela sua visão de mundo por múltiplos caminhos.

    Neste sentido, a cultura não é apenas entretenimento. Ela também pensa. Assim:

    Uma pintura pode dizer alguma coisa sobre o homem.

    Uma música pode expressar uma visão de realidade.

    Uma obra literária pode revelar uma concepção de significado.

    Uma filosofia pode determinar aquilo que uma geração considera possível conhecer.

    Uma teologia pode alterar a maneira como uma igreja entende sua própria fé.

    Por isso, compreender a cultura é também aprender a enxergar como uma sociedade está pensando.

    Schaeffer depois de Sire e Lewis

    A posição desta obra na nossa trilha torna-se agora mais clara.

    Com Sire:

    aprendemos que interpretamos a realidade a partir de pressupostos.

    Com Lewis:

    aprendemos que esses pressupostos possuem consequências para nossa compreensão do ser humano e dos valores objetivos.

    Com Schaeffer:

    somos conduzidos à pergunta:

    Essa interpretação da realidade corresponde ao que realmente existe?

    A questão começa a mudar de natureza. Já não estamos apenas identificando cosmovisões. Estamos começando a compará-las com a realidade. E isso é fundamental.

    Porque uma cosmovisão cristã não pode ser defendida apenas dizendo:

    “Ela funciona para mim.”

    O cristianismo precisa ser apresentado como uma afirmação verdadeira sobre Deus, o mundo, o homem, a história e o destino da criação.

    Uma apologética que conhece seu interlocutor

    Schaeffer também nos ajuda a corrigir uma compreensão pobre da apologética. Defender a fé não significa simplesmente acumular argumentos.

    É necessário compreender qual pergunta está sendo feita.

    Se alguém afirma que não acredita em Deus, precisamos descobrir o que essa afirmação significa.

    Ela pode significar:

    “Não acredito que exista qualquer realidade transcendente.”

    Mas pode também significar:

    “Não consigo acreditar em um Deus que permita o sofrimento.”

    Ou:

    “A ideia de Deus parece intelectualmente desnecessária.”

    Ou ainda:

    “A religião que conheci foi incoerente com aquilo que dizia acreditar.”

    Essas afirmações são diferentes.

    E exigem respostas diferentes.

    O apologista precisa ouvir antes de responder.

    Essa é uma das razões pelas quais o método de Schaeffer permanece relevante.

    Ele não começa perguntando apenas:

    “Qual argumento tenho para responder?”

    Começa perguntando:

    “Onde exatamente está a tensão?”

    Uma advertência necessária

    Ler Schaeffer hoje exige também discernimento.

    Seu diagnóstico foi produzido em um contexto histórico específico: o mundo intelectual e cultural da segunda metade do século XX.

    Algumas categorias que ele emprega não descrevem adequadamente todas as transformações posteriores.

    A cultura digital, a fragmentação das identidades, as novas formas de secularidade, a crise das instituições, a economia da atenção e as transformações tecnológicas produziram novos problemas que Schaeffer não poderia ter antecipado.

    Por isso, não devemos transformar O Deus que Intervém em um mapa definitivo da cultura contemporânea.

    Devemos utilizá-lo como instrumento de leitura.

    Sua pergunta continua válida:

    Quais são os pressupostos que sustentam a maneira como nossa cultura compreende a realidade?

    Mas precisamos fazer essa pergunta também à nossa própria época.

    E talvez até à igreja.

    Quando a igreja também precisa examinar seus pressupostos

    Existe uma aplicação que não pode ser esquecida.

    É muito fácil utilizar Schaeffer para analisar “o mundo”. No entanto, é difícil permitir que sua pergunta seja dirigida à própria igreja.

    Afinal, quais pressupostos governam nossa maneira de fazer teologia?

    Quais ideias absorvemos da cultura sem perceber?

    Que conceitos de sucesso, liberdade, poder, relevância e realização foram incorporados à nossa prática cristã?

    Estamos realmente pensando a partir da revelação bíblica?

    Ou o cenário é muito pior? estamos simplesmente utilizando linguagem cristã para justificar categorias que aprendemos em outro lugar.

    Todos aqueles que fazem da apologética cristã precisam entender que, a apologética começa a perder sua força quando se torna apenas uma arma utilizada contra os outros. Pois, Ela recupera sua integridade quando também nos ensina a examinar a nós mesmos.

    Para ler Schaeffer com atenção

    Ao percorrer O Deus que Intervém, vale observar especialmente cinco questões:

    1. O que Schaeffer entende por “linha do desespero”?

    Procure compreender o movimento intelectual que ele descreve, mas também observe seus limites históricos.

    2. O que acontece quando verdade e significado são separados?

    Essa é uma das tensões centrais do livro e uma das questões que mais diretamente dialogam com nossa trilha.

    3. O que significa encontrar o “ponto de tensão”?

    Observe como Schaeffer procura compreender o pensamento do interlocutor antes de apresentar a resposta cristã.

    4. Por que a pré-evangelização é importante?

    Pergunte o que precisa acontecer intelectualmente para que uma pessoa perceba que o cristianismo não é simplesmente irrelevante para sua vida.

    5. Por que o Deus cristão precisa ser apresentado como o Deus que está ali?

    Essa pergunta nos leva ao centro do livro: o cristianismo não anuncia uma ideia religiosa criada pelo homem, mas o Deus vivo que existe, se revela e intervém na história.

    A pergunta que fica

    Sire nos ensinou a perguntar:

    Como interpretamos a realidade?

    Lewis nos levou a perguntar:

    O que acontece ao homem quando perdemos a verdade objetiva?

    Schaeffer agora nos obriga a avançar:

    O cristianismo corresponde à realidade?

    Mas essa pergunta não pode ser respondida simplesmente comparando sistemas abstratos.

    Se o cristianismo afirma que Deus existe, que criou o mundo, que o homem é sua criatura, que o pecado é real, que Deus se revelou e que Cristo entrou na história, então precisamos perguntar:

    Podemos conhecer essa realidade?

    E, se podemos conhecê-la:

    Como podemos saber que sabemos?

    Essa será a pergunta que nos conduzirá à próxima etapa.

    Próxima etapa

    04 — Como comunicar a fé em uma cultura que pensa de outra maneira?

    I — APRENDER A ENXERGAR

    Na próxima etapa, nossa atenção se voltará para outra dimensão da tarefa apologética.

    Se o cristianismo é verdadeiro e se as pessoas interpretam a realidade a partir de diferentes pressupostos, como essa verdade pode ser comunicada de maneira inteligível a uma cultura que já não compartilha nossas categorias?

    A questão não será simplesmente:

    “Como defender a fé?”

    Será:

    “Como fazer com que a verdade cristã seja ouvida por pessoas que aprenderam a enxergar o mundo de outra maneira?”

    A caminhada continua.

    Dicas de Leitura — Ler. Pensar. Discernir.

    Sobre a obra

    SCHAEFFER, Francis A. O Deus que Intervém: o abandono da verdade e as trágicas consequências para nossa cultura. São Paulo: Cultura Cristã.

    A obra foi publicada originalmente em inglês em 1968, sob o título The God Who Is There, e constitui o primeiro livro da conhecida trilogia de Schaeffer, seguida por A Morte da Razão e O Deus que se Revela. A edição brasileira da Cultura Cristã atualmente catalogada traz o ISBN 978-85-7622-600-0 e edição de 2022.

    Logos & Cosmos
    Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

  • Bibliotéca Logos & Cosmos

    Dica de Leitura; Logos & Cosmos; open antique book in a library

    Uma trilha de formação para quem deseja pensar a fé cristã

    Ler é mais do que acumular informações.

    Alguns livros nos oferecem respostas. Outros nos ensinam a fazer perguntas melhores. Há ainda aqueles que, depois de lidos, modificam a maneira como enxergamos o mundo.

    É nessa terceira categoria que encontramos os livros que queremos apresentar nesta série.

    Dicas de Leitura, do Logos & Cosmos, não pretende ser uma lista dos “melhores livros cristãos”, nem um catálogo de obras que todo cristão deveria necessariamente ler.

    A proposta é diferente.

    Queremos

    Livros que conversam entre si

    Uma das características desta série será a escolha deliberada das obras.

    Cada livro será apresentado por aquilo que ele pode acrescentar à nossa compreensão da fé, da cultura, do ser humano e da realidade.

    Por isso, as indicações não serão simplesmente independentes.

    Elas conversarão entre si.

    Um livro poderá levantar uma pergunta que será aprofundada pelo seguinte. Uma obra poderá oferecer uma perspectiva que outra ajudará a complementar, questionar ou ampliar.

    Assim, pouco a pouco, a série procurará conduzir o leitor por algumas das grandes perguntas que atravessam a existência humana:

    O que é a realidade?

    Como sabemos aquilo que sabemos?

    Existe verdade objetiva?

    O que significa ser humano?

    De onde vem a moralidade?

    O que desejamos e por que desejamos determinadas coisas?

    Como a cultura nos forma?

    Qual é o lugar da imaginação, da razão e da fé?

    Como o cristianismo responde à cultura contemporânea?

    O que significa viver diante de Deus?

    Essas perguntas não pertencem exclusivamente à filosofia ou à teologia. Elas fazem parte da própria vida.

    Da cosmovisão à vida

    A série começou com James W. Sire, em Apologética Além da Razão.

    A escolha não foi casual.

    Sire nos ajuda a perceber que ninguém interpreta a realidade a partir de um ponto absolutamente neutro. Todos nós possuímos pressupostos (conscientes ou não) sobre Deus, realidade, conhecimento, moralidade e ser humano.

    Em seguida, chegamos a C. S. Lewis, com A Abolição do Homem.

    A pergunta então se desloca:

    Se nossas ideias sobre a realidade moldam nossa maneira de viver, que tipo de ser humano é produzido por determinada visão de mundo?

    Lewis nos conduz à verdade objetiva, à moralidade, à formação dos desejos e à própria natureza humana.

    E é justamente assim que pretendemos continuar.

    Não simplesmente acumulando autores e títulos, mas avançando de uma pergunta para outra.

    Uma biblioteca em construção

    A série poderá reunir teólogos, filósofos, apologetas, escritores, historiadores e pensadores cristãos de diferentes períodos e tradições.

    Naturalmente, alguns serão mais conhecidos. A medida que outros talvez sejam descobertos pelo leitor justamente por meio desta série.

    Nem todos escreveram com as mesmas categorias, responderam às mesmas perguntas ou chegaram às mesmas conclusões em todos os assuntos. Isso também faz parte da proposta.

    Ler não significa concordar integralmente.

    Entendendo que uma leitura intelectualmente responsável envolve compreender antes de julgar, ouvir antes de responder e reconhecer tanto a contribuição quanto os limites de uma determinada obra.

    Por isso, cada indicação procurará apresentar não apenas o que o autor diz, mas também por que aquilo merece nossa atenção.

    Mais do que livros: formação

    Existe uma razão para esta série estar dentro do Logos & Cosmos.

    Acreditamos que a fé cristã não precisa temer o pensamento.

    Pelo contrário.

    O cristianismo possui uma tradição intelectual que atravessa séculos e que dialoga com algumas das perguntas mais profundas da existência humana.

    Fé e pensamento não são inimigos.

    A fé pode ser examinada intelectualmente sem deixar de ser fé.

    A razão pode ser utilizada sem precisar transformar-se em soberana absoluta.

    A filosofia pode levantar perguntas que a teologia precisa enfrentar.

    A literatura pode revelar dimensões da experiência humana que argumentos abstratos nem sempre alcançam.

    E a cosmovisão cristã pode oferecer uma estrutura dentro da qual verdade, bondade, beleza, conhecimento, liberdade e esperança encontram sua unidade.

    Uma trilha, não uma lista

    Talvez esta seja a melhor maneira de compreender a proposta:

    Dicas de Leitura não é uma lista de livros. É uma trilha de perguntas.

    Cada obra será uma parada. Cada autor, uma voz. Cada pergunta, uma oportunidade de pensar novamente.

    E, se a trilha cumprir seu propósito, o leitor não terminará apenas conhecendo mais títulos.

    Ele terá aprendido a ler melhor, perguntar melhor e pensar mais cuidadosamente sobre a realidade. Porque uma boa leitura não termina quando fechamos o livro.

    Às vezes, é justamente ali que ela começa.

    Comece a trilha

    Acompanhe as próximas indicações e permita que os livros conversem entre si.

    Talvez você concorde com alguns autores.

    Talvez discorde de outros.

    Talvez alguns livros provoquem perguntas que você nunca havia formulado.

    Tudo isso faz parte da jornada.

    O objetivo não é pensar menos porque encontramos respostas.

    É aprender a pensar melhor porque aprendemos a fazer perguntas mais profundas.

    Bem-vindo à série Dicas de Leitura.

    Uma biblioteca em construção.

    Uma trilha de formação.

    Um convite para pensar a fé, a cultura, o homem e o mundo à luz da verdade.

    Os cinco movimentos da trilha

    A Dicas de Leitura foi organizada como uma trilha de formação. Isso significa que os livros não serão apresentados como uma coleção aleatória de recomendações, mas como etapas de um percurso intelectual.

    Cada movimento aborda uma dimensão diferente da formação cristã. O leitor poderá acompanhar a trilha na ordem proposta ou retornar a movimentos anteriores conforme novas perguntas surgirem.

    I — APRENDER A ENXERGAR

    Antes de perguntar o que devemos fazer ou no que devemos acreditar, precisamos aprender a perceber a realidade.

    Este primeiro movimento trata das lentes pelas quais interpretamos o mundo: nossas pressuposições, nossas ideias sobre realidade, verdade, conhecimento e ser humano. O objetivo é tornar visível aquilo que normalmente permanece oculto, os pressupostos que orientam nossa maneira de pensar.

    Aprender a enxergar é perceber que ninguém olha para o mundo a partir de um ponto absolutamente neutro.

    II — APRENDER A PENSAR

    Enxergar a realidade não significa ainda saber interpretá-la corretamente.

    O segundo movimento aprofunda a relação entre fé, razão, verdade, conhecimento e pensamento crítico. Aqui, somos convidados a examinar argumentos, confrontar pressupostos e compreender que a fé cristã não exige o abandono da inteligência.

    Pensar cristãmente não significa simplesmente acumular respostas religiosas, mas aprender a formular perguntas melhores, reconhecer pressupostos e buscar coerência entre aquilo que confessamos e aquilo que consideramos verdadeiro.

    III — APRENDER A SER FORMADO

    Toda pessoa está sendo formada por alguma coisa.

    Ideias, desejos, histórias, hábitos, imagens, relacionamentos, cultura e práticas cotidianas participam da formação de quem nos tornamos. Por isso, a formação cristã não pode ser reduzida à transmissão de informações.

    Este movimento pergunta que tipo de pessoa estamos nos tornando e como nossos amores, desejos e imaginação participam desse processo.

    Não basta saber o que é verdadeiro. É preciso aprender a amar o que é verdadeiro.

    IV — APRENDER A VIVER NO MUNDO

    A fé cristã não acontece fora da história, da cultura e da vida cotidiana.

    Depois de aprender a enxergar, pensar e reconhecer os processos que nos formam, chegamos à questão da vida no mundo. Como o cristão se relaciona com a cultura? Como vive em uma sociedade plural? Como compreende sua vocação, seu trabalho, sua responsabilidade e seu testemunho?

    Este movimento procura recuperar uma dimensão frequentemente esquecida da fé: seguir a Cristo também significa aprender a habitar o mundo de maneira fiel.

    V — APRENDER A VIVER DIANTE DE DEUS

    A trilha termina onde, na verdade, tudo começa.

    O conhecimento, a razão, a formação, a cultura e a vocação encontram seu sentido último na relação com Deus. Por isso, o último movimento conduz da reflexão para a vida diante de Deus.

    Aqui, as perguntas se tornam mais profundas: o que significa conhecer a Deus? O que significa esperar? Como somos transformados? O que significa seguir a Cristo? Para onde caminha a história e qual é o lugar da esperança cristã?

    Viver diante de Deus significa reconhecer que a fé cristã não é apenas uma maneira de interpretar a realidade, mas uma maneira de viver nela, diante daquele que é o seu Senhor.

    Uma trilha que retorna ao início

    Os cinco movimentos não formam uma escada que abandonamos depois de subir. Eles formam um movimento circular e progressivo.

    Aprendemos a enxergar para poder pensar melhor.
    Aprendemos a pensar para discernir aquilo que nos forma.
    Aprendemos a ser formados para viver fielmente no mundo.
    Aprendemos a viver no mundo para fazê-lo diante de Deus.

    E, diante de Deus, descobrimos novamente que precisamos aprender a enxergar.

    Por isso, esta não é uma trilha de respostas prontas.

    É uma trilha de perguntas cada vez mais profundas.

    Dicas de Leitura — Ler. Pensar. Discernir.

    Logos & Cosmos
    Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

  • Weltanschauung no Brasil

    Glowing mystical book with swirling symbols near ancient stone ruins at sunset

    Da recepção à reconstrução: Madureira, Fontes e os novos caminhos da cosmovisão cristã

    Há conceitos que atravessam fronteiras sem jamais chegar exatamente da mesma maneira como partiram.

    “Cosmovisão” é um deles.

    Depois de acompanhar a trajetória de Weltanschauung desde suas raízes na filosofia alemã, passando por James Orr e Abraham Kuyper, até sua formulação apologética e cultural em Francis Schaeffer e sua sistematização contemporânea em autores como James W. Sire e James W. Naugle, surge uma pergunta inevitável:

    O que aconteceu quando essa categoria chegou ao evangelicalismo brasileiro?

    A resposta não pode ser simplesmente uma lista de traduções, livros e autores. Toda recepção intelectual envolve seleção, tradução, adaptação e, eventualmente, reconstrução.

    É nesse ponto que nomes como Jonas Madureira e Filipe Fontes tornam-se relevantes.

    Não porque tenham sido os responsáveis por introduzir a ideia de cosmovisão no Brasil, nem porque sua contribuição possa ser reduzida à transmissão de Schaeffer, Sire ou Naugle. Sua importância está precisamente no fato de participarem de uma etapa posterior: a apropriação brasileira da categoria de cosmovisão cristã.

    E essa apropriação merece ser compreendida.

    Quando uma categoria atravessa uma cultura

    Uma ideia nunca chega a uma nova cultura em estado absolutamente puro.

    Ela chega por meio de livros traduzidos, cursos, seminários, igrejas, professores, editoras, conferências, movimentos e autores que funcionam como mediadores.

    O conceito de cosmovisão não constitui exceção.

    No contexto evangélico brasileiro, diferentes tradições contribuíram para sua disseminação. A apologética de Schaeffer exerceu influência significativa ao apresentar a fé cristã como uma visão abrangente da realidade, capaz de dialogar com filosofia, arte, ciência, política e cultura.

    Posteriormente, autores como Sire e Naugle ofereceram ferramentas mais explícitas para definir, analisar e sistematizar o conceito.

    Mas o processo não terminou aí.

    Quando essas ideias foram recebidas no Brasil, elas encontraram um contexto eclesiástico, cultural e intelectual próprio. Consequentemente, passaram a ser empregadas para responder a perguntas que também eram próprias da realidade brasileira.

    É justamente nesse movimento que a recepção deixa de ser mera reprodução e começa a tornar-se elaboração.

    A importância de Jonas Madureira

    A contribuição de Jonas Madureira deve ser situada nesse processo mais amplo.

    Sua produção demonstra preocupação não apenas com a definição abstrata de cosmovisão, mas com suas consequências para a vida intelectual e pública do cristão.

    Isso é importante porque impede que cosmovisão seja reduzida a uma coleção de ideias filosóficas.

    A pergunta passa a ser:

    Como aquilo que acreditamos sobre a realidade orienta aquilo que fazemos dentro dela?

    Essa questão aproxima cosmovisão de temas como política, cultura, conhecimento, ética e vocação.

    Ao mesmo tempo, Madureira ajuda a recuperar a dimensão histórica do conceito. Sua atenção a autores como James Orr contribui para desfazer uma percepção bastante comum: a de que “cosmovisão cristã” seria uma invenção recente da apologética norte-americana.

    A história é muito mais antiga.

    Orr já compreendia a necessidade de apresentar o cristianismo não como uma coleção de doutrinas isoladas, mas como uma interpretação abrangente da realidade.

    Kuyper ampliaria essa compreensão ao pensar as implicações da fé cristã para todas as esferas da existência.

    Schaeffer daria à discussão uma poderosa dimensão apologética e cultural.

    Sire desenvolveria ferramentas para descrever e comparar cosmovisões.

    Naugle aprofundaria sua história intelectual e suas implicações filosóficas e teológicas.

    A contribuição brasileira ocorre, portanto, depois de uma longa história de desenvolvimento do conceito, mas não necessariamente como sua simples repetição.

    Filipe Fontes e a relação entre cosmovisão e cultura

    Em Filipe Fontes, encontramos outra contribuição importante para a recepção brasileira do conceito.

    Sua abordagem chama atenção para a relação entre cosmovisão, cultura, educação e produção intelectual.

    Aqui aparece uma questão fundamental:

    Uma cosmovisão não permanece confinada ao interior da mente.

    Ela se expressa nas instituições que construímos, nas perguntas que fazemos, nas respostas que consideramos plausíveis e nas formas pelas quais interpretamos a realidade.

    Esse ponto é particularmente importante para uma compreensão cristã de cultura. Se a cosmovisão é realmente uma interpretação fundamental da realidade, então ela não pode ser reduzida a uma posição tomada em assuntos religiosos.

    Ela alcança aquilo que uma pessoa entende sobre:

    • Deus;
    • humanidade;
    • conhecimento;
    • verdade;
    • moralidade;
    • sociedade;
    • cultura;
    • natureza;
    • história;
    • futuro.

    É nesse sentido que a contribuição de Fontes participa de uma preocupação mais ampla presente na tradição reformada: a fé cristã não possui apenas um departamento religioso dentro da existência humana. Ela reivindica uma interpretação da realidade como um todo.

    Recepção não significa reprodução

    Aqui precisamos fazer uma distinção importante.

    Dizer que autores brasileiros receberam influência de uma tradição anterior não significa dizer que simplesmente reproduziram seus autores. Uma tradição intelectual não sobrevive porque é repetida mecanicamente. Ela sobrevive porque é reinterpretada.

    Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para compreender a história brasileira da cosmovisão. O conceito chegou por diferentes caminhos.

    Alguns encontraram Schaeffer.

    Outros chegaram a Sire.

    Outros conheceram Kuyper.

    Outros foram apresentados a Naugle.

    Outros entraram em contato com o conceito por meio de cursos, seminários, livros, conferências ou professores. E o resultado dessa história não é uma única “cosmovisão brasileira”. É uma recepção brasileira de uma categoria de longa história intelectual.

    E essa recepção continua em movimento.

    O risco da popularização

    Toda popularização possui uma ambiguidade.

    E por um lado, ela democratiza o conhecimento, por outro, pode simplificá-lo. E isso aconteceu também com o conceito de cosmovisão. Em determinados ambientes, a palavra tornou-se tão frequente que passou a funcionar como uma espécie de termo-guarda-chuva.

    Tudo poderia ser chamado de cosmovisão.

    Uma preferência política, uma opinião sobre educação, uma visão sobre economia, uma posição ética, um conjunto de valores, uma filosofia pessoal e até mesmo uma maneira particular de enxergar determinada questão.

    No entanto, o problema não está em reconhecer que essas coisas podem possuir relação com uma cosmovisão. Mas sim, em confundir a manifestação de uma cosmovisão com a própria cosmovisão.

    Uma cosmovisão não é simplesmente aquilo que alguém pensa sobre determinado assunto. Ela envolve estruturas mais profundas de interpretação da realidade.

    É justamente aqui que a contribuição de Sire e, sobretudo, de Naugle permanece importante

    Da definição para a investigação

    Talvez o próximo passo para o pensamento cristão brasileiro não seja produzir mais uma definição de cosmovisão. Talvez seja aprender a investigar como cosmovisões realmente funcionam.

    Essa mudança terá poder significativo, uma vez que deixamos de perguntar apenas:

    “Qual é a sua cosmovisão?”

    E passamos a perguntar:

    “Que concepção de realidade torna essa posição possível?”

    Em vez de perguntar apenas:

    “O que determinada pessoa acredita?”

    podemos investigar:

    “Que visão de Deus, humanidade, verdade, moralidade e mundo sustenta essas crenças?”

    Em vez de identificar simplesmente opiniões cristãs sobre determinados assuntos, podemos procurar compreender a estrutura de pensamento que conecta essas opiniões.

    Essa mudança nos conduzirá da classificação para a interpretação. E da interpretação para a crítica.

    Uma nova etapa: cosmovisão como categoria de investigação cristã

    É aqui que talvez se abra uma nova etapa para o conceito no contexto brasileiro. Uma vez que a cosmovisão cristã não precisa ser apresentada apenas como uma ferramenta apologética, ela pode funcionar também como uma categoria de investigação teológica, filosófica e cultural.

    Isso significa perguntar não apenas:

    “Qual é a cosmovisão desta cultura?”

    mas também:

    “Que concepção de realidade está operando nesta prática?”

    “Que visão do ser humano está pressuposta nesta instituição?”

    “Que ideia de liberdade sustenta determinada proposta moral?”

    “Que compreensão de justiça está implícita em determinada teoria política?”

    “Que concepção de conhecimento orienta determinada prática científica?”

    “Que visão do bem humano está por trás de determinado modelo educacional?”

    desta forma, a cosmovisão passa, então, a ser menos um rótulo e mais uma ferramenta hermenêutica.

    Do diagnóstico à formação

    Há ainda uma consequência importante.

    Se uma cosmovisão não é apenas um conjunto de proposições, então a formação cristã não pode limitar-se à transmissão de proposições.

    Portanto, é necessário formar pessoas capazes de habitar uma determinada compreensão da realidade. E isso envolve intelecto, imaginação, afetos, hábitos, virtudes e práticas.

    Nesse sentido, a pergunta pela cosmovisão encontra uma antiga preocupação da tradição cristã:

    Que tipo de pessoa o Evangelho pretende formar?

    A questão deixa de ser somente:

    “O cristão sabe responder corretamente?”

    E passa a incluir:

    “O cristão aprendeu a desejar corretamente?”

    “Aprendeu a interpretar corretamente?”

    “Aprendeu a discernir?”

    “Aprendeu a viver diante de Deus?”

    Essa ampliação é particularmente importante porque impede que a cosmovisão cristã se transforme em apenas mais uma disciplina intelectual.

    Da recepção à formulação

    É nesse ponto que a história que acompanhamos nesta série chega ao seu verdadeiro desfecho. Não terminamos em Sire. Nem terminamos em Naugle. E também não terminamos em Schaeffer, Kuyper ou Orr.

    Uma tradição intelectual não deve ser visto como uma espécie de museu. Ela é uma conversa.

    Veja, Orr formulou perguntas em seu contexto. Kuyper ampliou suas implicações. Schaeffer respondeu aos desafios culturais de seu tempo. Sire ofereceu instrumentos para a análise comparativa das cosmovisões. Naugle investigou profundamente a história, a estrutura e o significado do conceito.

    Autores brasileiros receberam, traduziram, ensinaram e desenvolveram essas contribuições.

    Entre eles, Jonas Madureira e Filipe Fontes representam uma etapa importante dessa recepção contemporânea.

    Mas uma recepção madura não deveria perguntar apenas:

    “Como devemos repetir aquilo que recebemos?”

    Ela deveria perguntar:

    “O que precisa ser pensado agora?”

    O próximo capítulo ainda não foi escrito

    O Brasil contemporâneo apresenta problemas que não podem simplesmente ser resolvidos pela repetição das formulações anteriores.

    Inteligência artificial, biotecnologia, economia digital, redes sociais, novas formas de trabalho, transformações familiares e até mesmo, crises de autoridade. Bem como mudanças na compreensão de pessoa, liberdade e identidade. Novas relações entre tecnologia e poder.

    Nada disso torna as formulações anteriores irrelevantes. Pelo contrário. Elas fornecem parte do vocabulário necessário para compreender essas transformações.

    Mas novas perguntas exigem novas investigações.

    Possivelmente, a tarefa de uma cosmovisão cristã madura não consiste em oferecer uma resposta previamente pronta para cada fenômeno cultural.

    Consiste em possuir recursos teológicos, filosóficos e hermenêuticos suficientes para pensar cristãmente aquilo que ainda não foi pensado. Talvez seja essa uma das tarefas mais importantes para a próxima geração.

    O desafio para uma nova formulação brasileira

    Se a história de Weltanschauung nos ensina alguma coisa, é que nenhuma formulação surge no vazio. Toda nova formulação nasce de uma conversa com aquilo que recebeu. Por isso, o futuro da reflexão cristã sobre cosmovisão no Brasil não precisa escolher entre repetir a tradição e abandoná-la.

    Existe uma terceira possibilidade: receber criticamente, compreender profundamente e formular novamente.

    É nesse espaço que uma nova geração de pensadores cristãos poderá perguntar:

    • O que significa pensar cristãmente em uma sociedade digital?
    • Como uma cosmovisão molda práticas e não apenas ideias?
    • Como distinguir princípios bíblicos de aplicações culturais?
    • Como discernir quando uma prática cristã foi moldada mais pela cultura do que pelo Evangelho?
    • Como a formação da imaginação participa da formação da cosmovisão?
    • Como teologia, filosofia, ética e cultura podem voltar a conversar?
    • Como pensar a vida cristã sem fragmentar a realidade em compartimentos religiosos e seculares?

    Essas perguntas não encerram a história da cosmovisão. Elas mostram que a história continua.

    Epílogo — A cartografia não é o território

    Ao longo desta série, acompanhamos a trajetória de uma palavra que se tornou muito maior do que sua origem linguística.

    Weltanschauung nasceu como linguagem para falar de uma visão abrangente do mundo. Com o tempo, tornou-se uma categoria filosófica, teológica, apologética e cultural.

    Foi apropriada por diferentes tradições, foi redefinida, foi popularizada, foi criticada, foi sistematizada.

    E chegou também ao Brasil.

    Hoje, quando falamos em “cosmovisão cristã”, estamos falando depois de uma longa história. E assim, carregamos palavras que não inventamos. Recebemos perguntas que não foram formuladas originalmente por nós. Utilizamos categorias construídas por gerações anteriores.

    Isso não é uma limitação. É a condição normal de todo pensamento. Pois, pensar não significa começar do zero. Significa aprender a conversar com aqueles que pensaram antes de nós.

    Mas existe uma responsabilidade que acompanha essa herança:

    não confundir fidelidade com repetição.

    A tradição nos oferece um mapa. Mas o mapa não é o território. O território continua diante de nós.

    E novas perguntas continuam surgindo. E talvez seja justamente essa a tarefa de uma cosmovisão cristã viva:

    não apenas explicar o mundo que recebemos, mas aprender a pensar diante de Deus o mundo em que fomos chamados a viver.

    A história de Weltanschauung não terminou.

    Ela apenas chegou até nós.

    Referências bibliográficas

    As obras abaixo não constituem uma bibliografia exaustiva sobre Weltanschauung, mas representam os principais pontos de referência utilizados para reconstruir, neste artigo, o percurso que vai da formulação moderna do conceito à sua recepção e reelaboração no contexto evangélico brasileiro.

    1. James Orr — a apropriação cristã inicial

    ORR, James. The Christian view of God and the world as centering in the incarnation: being the Kerr lectures for 1890–1891. 2. ed. London: A. Elliot, 1893.

    Edição brasileira:

    ORR, James. A visão cristã de Deus e do mundo. Tradução de A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2023.

    A obra de Orr é fundamental para este percurso porque representa uma das primeiras apropriações cristãs sistemáticas da categoria de Weltanschauung. Seu argumento procura apresentar o cristianismo não como uma coleção de doutrinas isoladas, mas como uma visão abrangente da realidade. A edição brasileira de 2023 é particularmente relevante para o presente artigo por recuperar essa obra no contexto editorial brasileiro e por contar com Jonas Madureira na coordenação editorial.

    2. Abraham Kuyper — a amplitude cultural da fé cristã

    KUYPER, Abraham. Lectures on Calvinism. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1931.

    Edição brasileira:

    KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

    Embora Kuyper não possa ser simplesmente identificado com uma teoria moderna de cosmovisão, sua contribuição é indispensável para compreender a ampliação da fé cristã para além do âmbito estritamente eclesiástico. As Stone Lectures articulam a relação entre cristianismo e diferentes áreas da vida, fornecendo uma das matrizes importantes para a posterior reflexão cristã sobre cosmovisão e cultura. A bibliografia do curso de Cosmovisão Reformada de Filipe Fontes também inclui Calvinismo como referência.

    3. Francis Schaeffer — cosmovisão, apologética e cultura

    SCHAEFFER, Francis A. How should we then live? The rise and decline of Western thought and culture. Old Tappan, NJ: Fleming H. Revell, 1976.

    Schaeffer ocupa uma posição importante na história da recepção evangélica moderna da ideia de cosmovisão porque relacionou diretamente pressupostos filosóficos, produção cultural, arte, ciência, política e vida cristã. How Should We Then Live? tornou-se uma de suas obras mais conhecidas para essa abordagem histórico-cultural.

    4. James W. Sire — sistematização e análise comparativa

    SIRE, James W. The universe next door: a basic worldview catalog. 5. ed. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2009.

    SIRE, James W. Naming the elephant: worldview as a concept. 2. ed. Downers Grove, IL: IVP Academic, 2015.

    Sire representa uma etapa decisiva da popularização e sistematização da análise de cosmovisões no evangelicalismo contemporâneo. The Universe Next Door apresenta uma abordagem comparativa de diferentes cosmovisões, enquanto Naming the Elephant trata diretamente da natureza do próprio conceito. A quinta edição de The Universe Next Door foi publicada em 2009 e possui 293 páginas; a segunda edição de Naming the Elephant foi publicada pela IVP Academic em 2014/2015.

    5. David K. Naugle — história e fundamentação do conceito

    NAUGLE, David K. Worldview: the history of a concept. Grand Rapids, MI: W. B. Eerdmans Publishing, 2002.

    Edição brasileira:

    NAUGLE, David K. Cosmovisão: a história de um conceito. Brasília, DF: Monergismo, 2017.

    A obra de Naugle constitui uma referência central para a reconstrução histórica realizada nesta série. Diferentemente de uma apresentação meramente apologética, Naugle investiga a formação intelectual do conceito, sua trajetória filosófica e suas apropriações nas tradições cristãs. A edição original foi publicada pela Eerdmans em 2002; a edição brasileira apareceu em 2017.

    6. Jonas Madureira — recepção brasileira e recuperação de Orr

    MADUREIRA, Jonas. Apresentação. In: ORR, James. A visão cristã de Deus e do mundo. Tradução de A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2023.

    Neste artigo, a contribuição de Madureira é considerada principalmente a partir de sua atuação editorial e intelectual na recuperação brasileira da obra de James Orr. Sua apresentação à edição brasileira de A visão cristã de Deus e do mundo chama atenção para a importância histórica de Orr na apropriação cristã do conceito de cosmovisão e relaciona explicitamente essa trajetória à pesquisa posterior de David Naugle.

    7. Filipe Fontes — reflexão brasileira sobre cosmovisão reformada

    FONTES, Filipe. A cosmovisão reformada. São Paulo: Instituto Reformado de São Paulo, [s.d.].

    FONTES, Filipe. Educação em casa, na igreja e na escola: uma perspectiva cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2018.

    FONTES, Filipe. Entrevista exclusiva com Filipe Fontes. Electus, 2016.

    Fontes representa, neste percurso, uma expressão mais explícita da reflexão brasileira contemporânea sobre cosmovisão. Seu trabalho aborda tanto a dimensão conceitual — origem, definição, análise e articulação da cosmovisão — quanto suas consequências para a educação, cultura e vida cristã. Em entrevista, o próprio Fontes chama atenção para a necessidade de uma apropriação cuidadosa do conceito e menciona explicitamente autores como Kuyper, Schaeffer, Sire e Naugle em sua trajetória de recomendação e reflexão.

    8. Uma genealogia em poucas obras

    Tomadas em conjunto, essas referências permitem visualizar a trajetória que orienta este artigo:

    Orr → Kuyper → Schaeffer → Sire → Naugle → recepção brasileira → Madureira e Fontes → novas formulações.

    Essa sequência não deve ser entendida como uma linha de transmissão simples ou como uma genealogia exclusiva. Autores, tradições e movimentos se cruzam de maneiras muito mais complexas. A finalidade da sequência é apenas tornar visível um movimento intelectual: da formação do conceito à sua apropriação cristã, da sistematização à recepção brasileira e, finalmente, da recepção à possibilidade de novas formulações.

    É justamente nesse último movimento que se encontra o propósito do presente artigo.

  • Weltanschauung: Sire e Naugle

    Glowing mystical book with swirling symbols near ancient stone ruins at sunset

    Cartografia Final do Conceito

    Chegamos ao fim de uma jornada de dois séculos. Começamos com Kant descrevendo uma percepção estética diante do céu estrelado. Terminamos com dois autores contemporâneos que transformaram essa mesma palavra em ferramenta de discipulado, ensino e autoconhecimento cristão. Entre um extremo e outro, atravessamos o idealismo alemão, o niilismo de Nietzsche e a resposta reformada holandesa. Agora, é hora de fechar o círculo. Ou não?

    No texto anterior desta série, vimos Francis Schaeffer popularizar a cosmovisão cristã para além dos muros acadêmicos, em L’Abri e em obras como O Deus Que Intervém e Como Viveremos Então. Neste post final, encontramos dois autores que dão à história do conceito sua forma mais madura e sistemática: James W. Sire e David K. Naugle — este último, autor da obra que inspirou toda esta série.

    James W. Sire e o Mapa das Cosmovisões

    James W. Sire foi, por muitos anos, editor da InterVarsity Press nos Estados Unidos, e é autor de The Universe Next Door (1976), publicado no Brasil como O Universo ao Lado, um dos livros mais usados em cursos de cosmovisão cristã ao redor do mundo, hoje em sua sétima edição.

    A contribuição mais duradoura de Sire foi oferecer uma definição de trabalho clara e uma metodologia comparativa para o estudo de cosmovisões. Em edições mais recentes da obra, ele define cosmovisão como um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expressa como uma história, um conjunto de pressupostos que podem ser verdadeiros, parcialmente verdadeiros ou totalmente falsos, e que sustentamos, consciente ou inconscientemente, coerente ou incoerentemente, sobre a constituição básica da realidade, e que fornece o fundamento sobre o qual vivemos, nos movemos e existimos.

    Note o que essa definição faz, em diálogo com toda a história que percorremos: ela recupera, de Dilthey, a ideia de que cosmovisão envolve cognição, sentimento e vontade, e não apenas um sistema de ideias, mas uma orientação do coração inteiro. Mas, ao falar de pressupostos que podem ser “verdadeiros ou falsos”, Sire rejeita explicitamente o relativismo que Nietzsche havia levado ao extremo: para ele, cosmovisões podem e devem ser avaliadas quanto à sua correspondência com a realidade, sua coerência interna e sua viabilidade existencial.

    A partir dessa definição, Sire mapeia sistematicamente as grandes cosmovisões que competem na cultura contemporânea; teísmo cristão, deísmo, naturalismo, niilismo, existencialismo, panteísmo oriental, Nova Era e pós-modernismo, entre outras, perguntando, para cada uma, como ela responderia às mesmas sete questões fundamentais: o que é a realidade última, o que é o ser humano, o que acontece quando morremos, por que é possível conhecer algo, como sabemos o que é certo e errado, qual o sentido da história, e como devo viver diante de tudo isso.

    Esse método comparativo transformou-se no formato padrão de praticamente todo curso evangélico de cosmovisão desde então. Inclusive, inspirou a pergunta que deu origem a esta própria série.

    David K. Naugle: A História do Conceito Contada Por Dentro

    Chegamos, enfim, ao autor com quem esta série começou. Cosmovisão: A história de um conceito (Originalmente lançado em 2002, edição Português em 2017 pela Monergismo), de David K. Naugle, professor de filosofia na Dallas Baptist University, certamente, é uma obra de outra natureza: não um mapa comparativo de cosmovisões rivais, como a fantástica obra de Sire, mas uma história filosófica rigorosa de como a própria categoria “cosmovisão” nasceu, se desenvolveu e foi apropriada pela tradição cristã. Exatamente a trajetória que esta série percorreu, de Kant a Schaeffer.

    Certamente, o que torna a obra de Naugle singular é sua dupla tarefa. Na primeira metade do livro, ele reconstrói com precisão acadêmica o percurso secular do conceito; Kant, o idealismo alemão, o historicismo, a fenomenologia de Husserl, o existencialismo de Heidegger e Jaspers, mostrando como Weltanschauung se tornou uma das categorias mais influentes, e mais contestadas, da filosofia continental do século XX. Já na segunda metade, ele narra a apropriação cristã do termo, precisamente os autores que ocuparam boa parte desta nossa série: Orr, Kuyper, Dooyeweerd, Van Til, Schaeffer.

    Mas Naugle não se contenta em apenas narrar. Nos capítulos finais, ele oferece sua própria contribuição teológica: propõe que cosmovisão, entendida biblicamente, deve ser compreendida como uma questão fundamentalmente relacionada à condição do coração diante de Deus, recuperando a antropologia bíblica em que o coração (lev, em hebraico) é o centro integrador de pensamento, afeto e vontade, não uma faculdade puramente racional ou puramente emocional. Para Naugle, Cosmovisão não é primariamente um sistema de proposições que assentimos intelectualmente, mas sim, a orientação mais profunda do coração humano, formada pela graça ou distorcida pelo pecado. Uma síntese entre a ênfase cognitiva das tradições reformadas que estudamos e a dimensão mais existencial que já aparecia em Dilthey e em Sire.

    O Que Esta Série Nos Ensinou

    Olhando para trás, nos oito textos desta série traçamos um arco que vale a pena resumir:

    • Kant inaugura o termo como percepção estética individual, dentro de um sistema que já separava razão e realidade última
    • Hegel e Dilthey transformam essa percepção em força histórica coletiva e estrutura psicológica da vida, mas ao preço do historicismo, que relativiza toda verdade
    • Nietzsche leva esse historicismo ao limite, declarando a morte de qualquer fundamento último, o colapso mais radical do Logos que a tradição ocidental já produziu
    • Orr responde, pela primeira vez de forma sistemática, ocupando o próprio termo secular para afirmar uma cosmovisão cristã centrada na Encarnação
    • Kuyper converte essa teoria em programa de vida, cultura e ação pública
    • Dooyeweerd e Van Til aprofundam filosoficamente a tese de que não existe razão neutra
    • Schaeffer leva tudo isso ao grande público evangélico
    • Sire e Naugle oferecem, respectivamente, o mapa comparativo definitivo e a história definitiva do conceito inteiro

    O que essa trajetória revela, em última análise, é que a palavra “cosmovisão” nunca foi neutra, nem quando nasceu em Kant, muito menos, quando a tradição cristã a ocupou. Ela sempre carregou, embutida em si, a pergunta mais antiga que a filosofia e a teologia já fizeram: existe um Logos, uma Razão ordenadora e pessoal, que precede e sustenta o cosmos, ou estamos, como sugeriu Nietzsche, sozinhos diante de um universo silencioso, construindo sentidos que não correspondem a nada além de nossa própria vontade?

    Duzentos anos depois de Kant contemplar o céu estrelado e nomear, pela primeira vez, uma “visão de mundo”, a pergunta permanece a mesma que abre o Evangelho de João. A cosmovisão cristã não é apenas mais uma opção no mercado de ideias que rastreamos nesta série. Acima de tudo, é a convicção de que a resposta a essa pergunta já foi dada, no princípio, e revelada em plenitude quando o próprio Verbo se fez carne.

    Todavia, a trajetória de Weltanschauung não termina com Sire e Naugle, pois um conceito não vive apenas de sua formulação histórica: ele também precisa ser recebido, traduzido e reelaborado em novos contextos. Por isso, depois de reconstruir sua trajetória intelectual, é necessário perguntar como a ideia de cosmovisão cristã foi recebida no contexto evangélico brasileiro. Esse movimento nos conduz a autores como Jonas Madureira e Filipe Fontes e, sobretudo, abre espaço para investigar quais novas formulações podem surgir a partir dessa tradição.

    Nos vimos no último Post da Série.

    Até lá!

    “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” (Jo 1.1-3)

  • Weltanschauung: Schaeffer

    Glowing mystical book with swirling symbols near ancient stone ruins at sunset

    Cosmovisão Para o Leigo

    Kant escreveu para filósofos. Hegel e Dilthey, para acadêmicos. Dooyeweerd e Van Til, para seminaristas e especialistas em epistemologia. Faltava alguém capaz de pegar dois séculos de história filosófica e teológica densa e entregá-la, com a clareza e urgência pastoral, a um jovem sentado numa igreja evangélica comum. Esse alguém foi Francis Schaeffer.

    No texto anterior desta série, vimos Dooyeweerd e Van Til levarem a cosmovisão cristã ao seu ponto mais técnico, demonstrando filosoficamente que não existe razão neutra, e que toda cosmovisão, cristã ou secular, repousa sobre pressupostos religiosos últimos. Neste texto, encontramos Francis Schaeffer (1912–1984): o apologista que tomaria essa herança sofisticada e a transformaria em algo que pudesse não somente ser compreendido, mas também, ser vivido por qualquer cristão comum.

    De Filadélfia aos Alpes Suíços

    Schaeffer foi formado no Westminster Theological Seminary, sob a influência direta de Cornelius Van Til, cuja apologética presuposicional marcaria profundamente seu pensamento. Mas Schaeffer não permaneceu na academia. Em 1955, ele e sua esposa Edith fundaram, nos Alpes suíços, uma comunidade chamada L’Abri (“o abrigo”, em francês), um lugar aberto a estudantes, artistas, céticos e buscadores de todo o mundo, onde perguntas difíceis sobre fé, filosofia e sentido da vida podiam ser feitas sem pressa e sem julgamento.

    Foi em L’Abri, conversando dia após dia com jovens ocidentais formados na contracultura das décadas de 1960 e 1970, onde muitos deles já profundamente influenciados pelo niilismo que rastreamos até Nietzsche nesta série, que Schaeffer desenvolveu o método que o tornaria célebre: mostrar, com paciência quase socrática, que toda cosmovisão não-cristã, levada às suas últimas consequências lógicas, se torna insustentável. Seja intelectualmente, seja existencialmente.

    “O Deus Que Intervém” e o Método da “Linha de Desespero”

    Em The God Who Is There (1968), publicado no Brasil aproximadamente trinta e quatro anos depois como O Deus Que Intervém, Schaeffer apresenta ao público leigo, de forma acessível, boa parte da história filosófica que percorremos nesta série. Ele descreve o que chama de “linha de desespero”: o momento histórico em que o pensamento ocidental abandonou a crença numa verdade unificada e absoluta, acessível tanto à razão quanto à revelação, e passou a dividir a realidade em dois andares separados: um andar “inferior”, dos fatos, da razão, da ciência; e um andar “superior”, dos valores, do sentido, da fé. Detalhe, sem nenhuma ponte racional entre os dois.

    Para Schaeffer, essa linha de desespero atravessa exatamente a trajetória que vimos nos posts anteriores: de Kant, que já separava o mundo fenomênico (acessível à razão) do mundo nouménico (inacessível), passando por Hegel e Dilthey, até Kierkegaard, cuja noção de “salto de fé” Schaeffer interpreta como o momento em que a fé é definitivamente relegada ao andar superior, irracional, desconectado dos fatos, preparando o terreno para Nietzsche declarar, no andar inferior, que não resta fundamento nenhum.

    Segundo o diagnóstico de Schaeffer, a cultura ocidental do século XX inteiro; sua arte, sua música, seu cinema, sua filosofia popular, estava vivendo as consequências dessa fratura: um mundo que buscava (e ainda busca) sentido e valor sem ter mais nenhuma base racional para encontrá-los. Esta é precisamente a “morte do fundamento” que descrevemos ao tratar de Nietzsche.

    “Como Viveremos Então”: Cosmovisão e Declínio Cultural

    Se O Deus Que Intervém é primariamente filosófico, Como Viveremos Então? (Publicada no Brasil pela primeira vez em 2003), é o projeto mais ambicioso de Schaeffer: uma história da civilização ocidental, que percorre da Roma antiga à cultura pop dos anos 1970, contada inteiramente através da lente de cosmovisões em disputa. Arte, música, arquitetura, ciência e política são todas tratadas como expressões visíveis de pressupostos filosóficos e teológicos subjacentes. Exatamente a tese que Dooyeweerd defendera filosoficamente, agora narrada como história cultural acessível ao grande público.

    A obra também deu origem a uma série de filmes documentários, algo raro para uma obra de apologética teológica em sua época, e ajudou a moldar toda uma geração de líderes evangélicos nos Estados Unidos e, por tradução e influência, também no Brasil, a enxergar a fé cristã não como um compartimento privado da vida, separado da cultura, da política e das artes, mas como uma cosmovisão pública, coerente e abrangente, no mesmo espírito que Kuyper já havia proclamado décadas antes: não existe centímetro neutro.

    O Legado Duplo de Schaeffer

    Todavia, a contribuição histórica de Schaeffer para a maturação do conceito de cosmovisão cristã pode ser resumida em duas frentes:

    • Popularização: ele tornou acessível, para pastores, líderes de jovens e leigos comuns, um vocabulário e uma estrutura de pensamento que, até então, permanecera confinado a obras técnicas de teólogos e filósofos reformados holandeses
    • Aplicação cultural ampla: ele demonstrou, de forma sistemática e narrativa, como a categoria “cosmovisão” pode ser usada para interpretar não apenas doutrinas religiosas explícitas, mas também arte, música, cinema, filosofia popular e tendências culturais. Um método que continua sendo usado, até hoje, em análise cultural cristã

    Não é exagero dizer que parte significativa do vocabulário que hoje associamos à “cosmovisão cristã” nos círculos evangélicos brasileiro, como a ideia de que a fé cristã possui implicações para a política, a arte, a ciência, a família e as demais esferas da existência, foi difundida e desenvolvida, entre outros, por autores como Jonas Madureira e Filipe Fontes. Nesse processo, a obra de Francis Schaeffer exerceu influência importante, especialmente por sua insistência na relação entre verdade cristã, pensamento e cultura. Contudo, essa história não começa com Schaeffer: sua abordagem se insere em uma tradição intelectual mais ampla, que passa por autores como James Orr e Abraham Kuyper e, posteriormente, por diferentes desenvolvimentos da teoria cristã de cosmovisão.

    O Que Vem a Seguir

    Chegamos ao penúltimo texto desta série. Depois de Schaeffer ter levado a cosmovisão cristã ao grande público evangélico, restava ainda um passo: transformar tudo isso em ferramenta pedagógica sistemática, um mapa claro das diferentes cosmovisões que competem pela mente contemporânea, e uma história rigorosa do próprio conceito que estivemos rastreando desde Kant. No próximo e último post da série, veremos como James W. Sire e David K. Naugle — este último, autor da obra que inspirou toda esta jornada — completam essa cartografia final.

    Até lá!

    “Vede que ninguém vos venha a enganar por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens… e não segundo Cristo.” (Cl 2.8)