O Colapso da Liberdade Humana

Ancient stone arch with statues collapsing and debris falling under stormy sky
An ancient stone arch collapses dramatically with debris falling amid dark clouds

Quando a Autonomia Produz Escravidão

Existe um experimento que a civilização ocidental vem conduzindo há pelo menos três séculos. O experimento tem uma hipótese central, uma metodologia clara e resultados que já podem ser avaliados com honestidade intelectual. A hipótese é esta: o ser humano pode ser plenamente livre sem Deus. A metodologia foi a remoção progressiva de toda referência transcendente da organização da vida individual e coletiva. Os resultados estão expostos diante de nós.

No entanto, eles não confirmam a hipótese proposta.

Três Senhores, Uma Escravidão

Em Efésios 2.1-3, o Apostolo Paulo identificou com uma precisão cirúrgica a estrutura da escravidão que define a existência humana fora de Cristo. Paulo descobriu que a humanidade tem pelo menos três Senhores. São eles: O mundo, com seus sistemas de valor e suas narrativas de sentido que o homem absorve sem escolha consciente. A carne, com seus desejos desordenados que a cultura contemporânea elevou ao status de critério moral supremo. E o diabo, como força estruturante da rebelião, que opera não pela coerção visível mas pela substituição silenciosa da realidade por versões plausíveis dela.

O que torna essa escravidão tripla e especialmente devastadora é sua sinergia. O mundo normaliza a orientação longe de Deus, torna a rebeldia o estado padrão, aquele que não precisa de justificação. Enquanto isso, a carne encontra satisfação dentro desse ambiente normalizado, onde o homem experiencia seus desejos desordenados como a voz mais autêntica de si mesmo. Então, o diabo garante que a saída; o evangelho, o reino de Deus, permaneça inacessível ou incompreensível, substituída por narrativas que explicam tudo exceto o que mais precisa ser explicado.

Ou seja, o sistema se fecha sobre si mesmo. E o homem dentro dele não experimenta a escravidão como prisão. Experimenta-a como vida. E é exatamaente ai que entra o paradoxo.

O Paradoxo que a Modernidade Não Consegue Explicar

Vale lembrar, que o autor de Eclesiastes (Quohelet) já havia diagnosticado o paradoxo milênios antes de qualquer análise sociológica contemporânea: “Tudo que os meus olhos desejaram não lhes neguei… mas quando atentei para todas as obras que as minhas mãos tinham feito… eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (2.10-11). Vejam, Qohelet não estava escrevendo sobre escassez. Estava escrevendo sobre abundância que não satisfaz, sobre o resultado estrutural de uma existência organizada em torno do eu.

A cultura contemporânea reproduz esse resultado em escala civilizacional. Ironicamente, as sociedades mais prósperas e mais formalmente livres da história humana registram níveis historicamente elevados de ansiedade, depressão e solidão. Ou seja, a proliferação de opções não produziu satisfação. O que produziu é aquilo que o psicólogo Barry Schwartz documentou como a tirania da escolha, que consiste em: quanto mais opções disponíveis, menor a capacidade de habitar plenamente qualquer escolha. Portanto, a liberdade formal se converte em paralisia existencial.

O que faz do paradoxo um diagnostico preciso, é fato de que quanto mais autonomia sem Deus, mais escravidão. E essa punição não se trata de uma arbitrariedade de um Deus que se sente ofendido. Mas, como consequência estrutural e inevitável de uma existência construída sobre uma premissa falsa. Pois, o ser humano não foi criado para ser o centro de si mesmo. Então, quando tenta ocupar esse centro, o resultado está longe de ser esse criador de valores de Nietzsche (Übermensch). Ao contrário do que se espera, a sociedade ou mesmo os indivíduos que a compõem, não entra em um estado de florescimento ou elevação; o que se segue, na verdade, é um processo de colapso.

E essa reação é o resultado e uma identidade construída sem horizonte transcendente e que precisa ser constantemente reafirmada, performada e protegida. Pois, sem um fundamento que o indivíduo não criou, qualquer questionamento externo ameaça sua dissolução. O prazer buscado como finalidade produz entorpecimento progressivo. O poder exercido sem reconhecimento de autoridade superior torna-se prisão do próprio poder. Em cada domínio, a mesma ironia estrutural: a busca pela liberdade sem Deus produz a forma mais refinada de servidão.

A Impossibilidade que Abre o Evangelho

Todavia, o colapso da liberdade humana tem uma conclusão que a modernidade resiste com intensidade proporcional à sua clareza: o homem não pode se libertar por seus próprios recursos. Não porque lhe falte inteligência ou esforço, mas porque o instrumento com que tentaria se libertar compartilha o defeito da condição que precisa ser revertida.

Em Romanos 8.7-8, Paulo o afirma sem atenuação: a inclinação da carne não pode estar sujeita a Deus. O termo utilizado(δύναται – dynatai), refere-se a impossibilidade estrutural, não mera dificuldade. Isso significa que uma mente comprometida não pode diagnosticar com precisão seu próprio comprometimento. Uma vontade inclinada longe de Deus não pode, por esforço próprio, se reorientar para Deus. Assim, como um escravo não pode dar a outro escravo o que nenhum dos dois possui.

Toda tentativa humana de libertação espiritual; filosófica, moral, religiosa, terapêutica, opera com os recursos do homem que está dentro da condição que precisa ser revertida. Portanto, o filósofo usa uma razão comprometida. O moralista usa uma vontade inclinada. O religioso constrói sistemas de ascensão que ainda partem do nível errado e chegam ao lugar errado.

Longe de ser pessimismo, a impossibilidade aqui, é o diagnóstico mais misericordioso possível, porque é o diagnóstico que torna o evangelho necessário com a urgência que ele merece. Se o homem pudesse se libertar por seus próprios meios, Cristo seria uma opção entre outras. Mas se toda a humanidade está impossibilitada sem exceção, então Cristo não é uma opção. É a única possibilidade.

E a única possibilidade que é simultaneamente necessária e suficiente é infinitamente mais gloriosa do que a melhor das opções.

O Que Vem a Seguir

O diagnóstico está completo. Três partes foram necessárias para que ele alcançasse a profundidade que o evangelho exige como contexto. A ilusão da liberdade cultural, a queda que destruiu a liberdade original, o colapso de toda tentativa humana de reconstruí-la.

Não há saída humana. E é precisamente essa afirmação que em qualquer outro contexto seria desespero puro, que prepara o terreno para a proclamação do próximo post.

A liberdade que o homem não pôde conquistar foi conquistada por Outro.


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✝ “Omnia Ad Maiorem Dei Gloriam” (Inácio de Loyola)

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