
Quando a sabedoria ganhou um rosto
Conforme vimos anteriormente, ao longo dos séculos, filósofos, reis, sacerdotes e sábios procuraram compreender a realidade.
Perguntaram sobre a origem do universo. Buscaram entender a natureza da justiça. Refletiram sobre o problema do mal. E tentaram descobrir o propósito da existência humana.
A literatura sapiencial de Israel participou dessa busca. Seus autores observaram a criação, contemplaram a história e meditaram sobre os caminhos de Deus. Mas, é somente com o Novo Testamento que uma resposta satisfatória e ao mesmo tempo surpreendente.
No NT, a sabedoria que os sábios procuravam não é apresentada como mais um princípio abstrato. Aqui, ela possui um rosto. E não somente isso, ela entrou na história e ela habitou entre nós.
O Evangelho de João nos diz que a sabedoria divina se fez carne em Jesus Cristo. Por isso, compreender Cristo deixa de ser apenas compreender a salvação e passa a ser compreender também a própria estrutura da realidade.
A sabedoria antes da criação
Um dos textos mais fascinantes da literatura sapiencial encontra-se em Provérbios 8. Ali, a Sabedoria é apresentada poeticamente como alguém que estava ao lado de Deus durante a criação do universo:
“Quando ele preparava os céus, aí estava eu.”
A imagem é a de um arquiteto trabalhando em perfeita harmonia com o Criador. provérbios apresenta a sabedoria como o princípio pelo qual o cosmos foi ordenado. Nada foi criado de maneira arbitrária. Tudo possui propósito, tudo possui significado e tudo foi estabelecido segundo uma ordem.
Durante séculos, os leitores judeus refletiram sobre essa passagem. Mas somente à luz de Cristo ela revela toda a sua profundidade.
O Evangelho de João inicia de maneira extraordinária:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
A palavra traduzida por “Verbo” é o termo grego Logos. E para os gregos, o Logos era associado à razão que sustenta o universo.
Para os judeus, remetia à Palavra criadora de Deus.
João une essas ideias e declara algo revolucionário. A razão última do universo não é uma força impessoal, é uma pessoa.
O Logos eterno entrou na história.
O Criador tornou-se criatura.
A Palavra tornou-se carne.
Aquele por meio de quem todas as coisas foram feitas passou a habitar entre os homens. E com isso, o significado do cosmos deixou de ser apenas contemplado e passou a ser visto.
Cristo e a verdadeira justiça
Ao longo desta série vimos que a justiça não é uma invenção humana. Ela procede do caráter de Deus. Porém, uma pergunta permanece:
Como é a perfeita justiça quando se manifesta em uma vida humana?
A resposta é Jesus.
Em Cristo vemos a justiça sem corrupção, a verdade sem engano, o amor sem egoísmo, a autoridade sem opressão e a força sem violência. Ele não apenas ensinou a justiça.
Ele a viveu.
Enquanto líderes religiosos utilizavam a lei para oprimir, Cristo restaurava seu propósito original, enquanto os poderosos exploravam os vulneráveis, Cristo aproximava-se deles e enquanto o mundo exaltava o orgulho, Cristo escolhia a humildade.
A justiça deixou de ser apenas um conceito e tornou-se visível
Jó havia perguntado:
Por que o justo sofre?
A cruz responde essa pergunta de forma inesperada. Nela, o homem mais justo que já existiu sofreu mais profundamente do que qualquer outro. Jesus não sofreu por causa de seus pecados. Pois, em tudo não pecou. Ele sofreu por causa dos nossos pecados.
Na cruz, a justiça e a misericórdia se encontram. E ali vemos que Deus leva o pecado a sério. Mas também vemos que Deus ama profundamente aqueles que pecaram.
A cruz revela algo que nem Jó conseguiu enxergar completamente. O sofrimento do justo pode servir aos propósitos redentivos de Deus. Pois, ele não possui a palavra final. A ressurreição possui
Cristo e o enigma de Eclesiastes
Eclesiastes observou um mundo repleto de injustiças. O Pregador viu o mal ocupando o lugar do direito, viu os perversos prosperando e viu a morte alcançando tanto o justo quanto o ímpio. E sua conclusão foi marcada pela tensão.
Existe uma ordem. Mas ela parece escondida.
Cristo responde esse enigma.
Na ressurreição, Deus declara que a injustiça não triunfará para sempre. Que a morte não é o destino final da criação. Que o caos não possui autoridade absoluta e o mal não é eterno.
A ressurreição é a confirmação de que Deus continua governando a história. Ela é a garantia de que a ordem moral do universo não fracassou.
Cristo como o novo Adão
Desde o Éden, a humanidade vive em conflito com a ordem criada por Deus.
Adão procurou autonomia. Escolheu definir o bem e o mal por si mesmo. E a consequência foi a desordem.
Cristo surge como o novo Adão.
Onde o primeiro falhou, o segundo triunfou.
Onde houve rebelião, houve obediência.
Onde houve orgulho, houve humildade.
Onde houve morte, houve vida.
Cristo não apenas corrige os erros da humanidade, Ele inaugura uma nova humanidade. Nele vemos o ser humano vivendo perfeitamente em harmonia com a vontade do Pai. Por isso, Ele é o modelo da verdadeira sabedoria.
A sabedoria de Deus e a loucura da cruz
Talvez nenhuma passagem sintetize melhor essa verdade do que as palavras de Paulo:
“Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Co 1.24).
A cruz parecia loucura.
Parecia derrota.
Parecia fracasso.
Mas era precisamente ali que a sabedoria divina estava operando.
Deus escolheu salvar o mundo por um caminho que nenhuma filosofia teria imaginado. A cruz expõe a falência da sabedoria humana autônoma e revela a superioridade da sabedoria de Deus.
Aquilo que parecia fraqueza tornou-se vitória.
Aquilo que parecia derrota tornou-se redenção.
Aquilo que parecia caos tornou-se restauração.
Cristo: o centro da arquitetura moral do cosmos
Ao olharmos para trás, percebemos que toda a série converge para este ponto.
A arquitetura moral do cosmos possui um centro.
A justiça possui um centro.
O direito possui um centro.
O juízo possui um centro.
A sabedoria possui um centro.
Esse centro é Cristo.
Paulo escreve:
“Nele foram criadas todas as coisas.”
E continua:
“Nele tudo subsiste.”
Cristo não é apenas parte da realidade, Ele é o fundamento da realidade. Tudo existe por meio dele, tudo é sustentado por ele, tudo caminha para ele, a história encontra nele seu significado, o cosmos encontra nele sua ordem e a humanidade encontra nele sua redenção
Conclusão
A literatura sapiencial ensinou que existe uma ordem moral estabelecida por Deus.
Provérbios procurou descrevê-la.
Jó lutou para compreendê-la.
Eclesiastes observou suas aparentes contradições.
Mas o Novo Testamento revela aquilo que permanecia oculto. A sabedoria não é apenas um princípio eterno.
Ela entrou na história.
Ela caminhou entre os homens.
Ela morreu numa cruz.
Ela ressuscitou ao terceiro dia.
Ela reina à direita do Pai.
Cristo é a Sabedoria Encarnada. Nele encontramos a justiça perfeita, n’Ele compreendemos o verdadeiro significado do juízo, n’Ele descobrimos a ordem moral do universo e n’Ele encontramos a esperança de que todas as coisas serão finalmente restauradas.
Porque a sabedoria que sustenta o cosmos possui um nome.
E esse nome é; Jesus Cristo.





