
O Destino para o Qual Tudo Aponta
Toda compreensão cristã da vida presente é, em algum grau, escatológica; orientada pelo horizonte do que ainda não chegou, mas que é tão real quanto o que já aconteceu. A teologia sem escatologia perde sua direção. E a liberdade cristã, mais do que qualquer outra dimensão da vida redimida, precisa desse horizonte. Pois, sem ele, a tensão entre o indicativo da libertação e a experiência persistente da luta parece uma contradição que o evangelho não resolve.
Com ele, a tensão é inteligível. O crente vive entre o já e o ainda não; entre a liberdade conquistada e a liberdade consumada, entre a regeneração que inaugurou a orientação correta e a glorificação que a tornará definitiva e perfeita.
A Criação que Aguarda
Acredito que Romanos 8.18-21 seja o texto mais rico das Escritura Sagradas sobre a dimensão escatológica da liberdade. Nesta passagem extraordinária, o Apóstolo Paulo não restringe a expectação ao ser humano. pelo contrário, ele a estende à criação inteira.
“Na esperança de que a própria criação será libertada do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.”
A criação geme como em dores de parto, e o gemido tem direção. Não é agonia sem saída. É parturição: algo está sendo produzido pela dor. A liberdade escatológica não é apenas libertação humana. É libertação cósmica. Portanto, a glória dos filhos de Deus, quando for revelada, se expandirá para o cosmos inteiro e o cosmos responderá com o florescimento que a sujeição à vaidade havia impedido.
Paulo acrescenta uma comparação que é estruturalmente assimétrica e deliberadamente assim: o sofrimento presente “não é para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (8.18). Nem tão pouco a minimização do sofrimento. Paulo o conhecia com profundidade que poucos de seus leitores igualavam. É afirmação de proporção: como tentar comparar um grão de areia com a extensão do oceano.
A Vontade Confirmada no Bem
Neste sentido, há uma questão que a escatologia cristã levanta e que raramente é tratada com a profundidade que merece: se na glorificação o crente será incapaz de pecar, se a vontade será confirmada no bem de tal maneira que o pecado se torna impossível. Então, essa incapacidade não contradiz a liberdade?
A intuição moderna responderia que sim. Pois, concebe a liberdade como neutralidade, como capacidade de escolher indiferentemente entre alternativas opostas. Nessa lógica, a glorificação seria uma redução da liberdade.
Mas, defendo que a intuição é falsa. E demonstrá-la como falsa é uma das contribuições mais importantes que a teologia cristã pode fazer ao debate contemporâneo.
A liberdade genuína não é proporcional ao número de alternativas disponíveis. É proporcional à perfeição da orientação da vontade para o seu bem próprio. E o bem próprio da vontade humana, o objeto para o qual foi criada, o único que pode satisfazê-la completamente, é Deus.
Neste sentido, Agostinho articulou os quatro estados da liberdade humana com uma clareza que ainda não foi superada. Antes da queda: possibilidade de não pecar. Após a queda: impossibilidade de não pecar. No estado de graça: possibilidade restaurada, mas em tensão com os resíduos da natureza velha. Na glorificação: impossibilidade do pecado, que não é limitação, mas consumação.
A vontade glorificada que não pode pecar não experimenta a impossibilidade como constrangimento. Experimenta-a como a expressão mais plena de si mesma. Como o olho perfeito que não pode ver escuridão quando está diante da plena luz do sol. Portanto, a incapacidade não é um defeito do olho. É a consequência necessária de sua perfeita função diante de seu objeto perfeito.
1 João 3.2 aponta para o mecanismo: “quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é.” A visão de Deus transforma o contemplador à imagem do contemplado. A vontade que vê a Bondade absoluta não tem razão para se orientar para nada que não seja essa Bondade. E o “não querer” o pecado não é esforço. É consequência natural da orientação perfeita.
A Liberdade que Permanece
Em 1 Coríntios 13.13, Paulo afirma que o amor permanece. Quando a fé for substituída pela visão e a esperança pela posse, o amor continuará. Este, é o modo de existência da vida trinitária de Deus. E o que está enraizado nessa vida permanece com ela.
Portanto, a liberdade que permanece é a liberdade do amor; a liberdade que não precisa de autonomia para ser real, que não precisa de ausência de obrigação para ser plena, que cresce na medida em que o amor que a motiva cresce, e que será consumada quando o amor for perfeito na visão de Deus face a face.
No entanto, os sistemas de liberdade que a história produziu não permaneceram. O projeto iluminista da razão autônoma produziu as utopias totalitárias do século XX. A revolução sexual prometeu autenticidade e entregou solidão. A autonomia digital prometeu conexão e entregou fragmentação. Em cada caso, a promessa revelou-se inadequada à profundidade do problema humano.
Todavia, a liberdade que Cristo conquistou tem uma qualidade diferente. É mais antiga do que qualquer projeto filosófico. Pois, foi inscrita na criação à imagem de Deus. E é mais profunda do que qualquer reforma cultural; atinge a natureza, transforma a vontade, reorienta os desejos. E é mais gloriosa do que qualquer destino que a modernidade imaginou. Esta é a confirmação escatológica da vontade no bem, a visão de Deus face a face, a communio trinitária habitada por criaturas que foram finalmente o que foram criadas para ser.
“O Espírito e a noiva dizem: Vem!” (Apocalipse 22.17).
desta forma, a liberdade que aguardamos é mais gloriosa do que qualquer liberdade que já experimentamos. E a que já experimentamos; imperfeita, parcial, frequentemente lutada, é real precisamente porque aquela existe.
As primícias são reais porque a colheita está vindo.
✝ In Lumine Tuo Videbimus Lumen.

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