
Como a Liberdade se Torna Habitável
A Formação da Liberdade. Ser liberto é um evento. Aprender a viver como livre é um processo. E entre o evento e o processo está o território que normalmente a maioria das discussões em torno do tema liberdade cristã poucas vezes percorre com a atenção que merece. Esse é o território da formação.
Bem sabemos que a liberdade que Cristo conquistou é real e suficiente. No entanto, ela não se torna habitável automaticamente. Ela precisa ser formada. E essa formação acontece pelas vias da consciência que é calibrada pela Palavra, pela santificação que desenvolve os hábitos da liberdade, pelo amor que lhe dá direção, e pela comunidade cristã (igreja) que oferece o contexto em que tudo isso ocorre.
Esses quatro agentes não devem ser interpretados como sendo adições à liberdade. Pois, são o processo pelo qual a liberdade deixa de ser apenas posição declarada e se torna experiência vivida.
A Consciência Calibrada
A consciência existe universalmente. — Em Romanos 2.15, Paulo afirma que mesmo os gentios têm “a obra da lei escrita em seus corações, sendo a sua consciência testemunha.” Mas a existência da consciência não garante sua confiabilidade. Afinal, ela é real e é falível simultaneamente.
Todavia, a consciência que foi formada pela cultura, pelo trauma, pela religiosidade deficiente ou pela simples ignorância produz avaliações que são genuinamente sentidas mas objetivamente distorcidas. Portanto, seguir essa consciência cegamente não é fidelidade e sim rendição a um instrumento que precisa ser calibrado.
Dentro da cosmovisão cristã, o padrão de calibração é a Palavra de Deus. Não como lista de regras que constrange a consciência de fora, mas como o espelho que Tiago 1.23-24 descreve, aquele que mostra ao rosto o que o rosto não consegue ver sem ele. Portanto, a consciência cristã madura não é uma consciência silenciada nem uma consciência absolutizada. É acima de tudo, uma consciência que precisa está continuamente exposta à Palavra, progressivamente reformada pelo Espírito, e suficientemente humilde para reconhecer que o julgamento do Senhor transcende o que ela mesma registra.
Neste sentido, Paulo faz uma afirmação que é ao mesmo tempo honesta e perturbadora; “em nada me sinto culpado; mas nem por isso sou justificado; quem me julga é o Senhor.” (1 Coríntios 4.4). Ou seja, a consciência limpa não é garantia de inocência real. Pois, o padrão definitivo está acima dela.
A Disciplina que Liberta
Sendo assim, precisamos alertar sobre um equívoco que empobrece a espiritualidade evangélica contemporânea. Esse equívoco está na percepção equivocada daqueles que veem uma espécie de oposição entre graça e disciplina, como se uma crescesse na medida em que a outra diminui. Veja, as Sagradas Escritura não reconhece essa oposição.
Em 1 Coríntios 9.27, Paulo, descreve o empreendimento espiritual com uma linguagem de um verdadeiro atleta de elite: “subjugo o meu corpo e o reduzo à servidão.” A intensidade não é legalismo, é a descrição honesta do que a formação do caráter exige. Os padrões da velha natureza não cedem pacificamente. Eles precisam ser ativamente mortificados, e em consequência disso, os padrões da nova natureza precisam ser cultivados pela prática deliberada.
Isso nos revelam que a santificação não é passiva. Ela é o processo pelo qual o crente coopera com o que o Espírito Santo está produzindo; pela exposição sistemática à Palavra, pela oração que forma desejos, pelo jejum que confronta a dependência por conforto imediato e pela participação na comunidade que forma virtudes impossíveis no isolamento.
Assim sendo, a disciplina espiritual não constrange a liberdade. Ao contrário, ela é o processo pelo qual a liberdade se torna progressivamente habitável. Assim como as escalas do pianista que não produzem arte nesses momentos de prática, mas libertam a capacidade artística que a prática desenvolve.
Pois, o músico que nunca praticou escalas não é mais livre diante do piano. E sim, menos livre, porque não desenvolveu a capacidade que a liberdade musical exige.
O Amor que Orienta e Limita
É extremamente importante que nos lembremos que a liberdade cristã tem uma teleologia; uma direção para a qual aponta quando é genuína. Gálatas 5.13 define essa teleologia de forma precisa: “servi-vos uns aos outros pelo amor.” Ou seja, a liberdade que foi conquistada pela cruz não é liberdade para o ego. E sim, liberdade para o outro.
Em 1 Coríntios 13, o amor que Paulo descreve não é emoção cultivada por esforço, e sim, uma orientação. A disposição do ser humano que foi libertado do eu como centro e que, precisamente por isso, pode se orientar genuinamente para o outro. E esse amor inclui o limite voluntário que é a disposição de restringir o exercício de direitos legítimos pelo bem do irmão. Isso revela a expressão mais elevada da liberdade e não a sua negação.
Cristo demonstrou isso no Getsêmani: “Não se faça a minha vontade, mas a tua.” Assim, a vontade mais livre que existe expressou-se no limite mais radical que pode ser imaginado. E o limite foi escolhido pelo amor.
A Comunidade que Forma
Portanto, a liberdade cristã não é um projeto individual. É um projeto comunitário. pois, as Sagradas Escrituras não reconhece liberdade madura que se forme no isolamento.
Efésios 4.2 lista as virtudes que a maturidade exige; humildade, mansidão, longanimidade, suportação. E cada uma delas pressupõe o outro como contexto de formação. Ou seja, humildade não pode ser desenvolvida no isolamento. A longanimidade não pode ser desenvolvida sem alguém que teste a paciência. Nem tão pouco, a suportação pode ser desenvolvida sem alguém que precise ser suportado.
Em outras palavras, a igreja é o laboratório em que virtudes impossíveis de desenvolver sozinho são formadas pela fricção real e redimida do convívio.
João 17.21 situa essa comunidade dentro de um horizonte missional: a unidade dos crentes é argumento “para que o mundo creia.” O testemunho que nenhum crente individual pode dar sozinho é dado pela comunidade cristã que demonstra que o evangelho produz uma unidade que transcende as divisões as quais o mundo considera naturais.
A Liberdade que se Torna Real
Desta forma, a formação da liberdade não é projeto de semanas ou de meses. Ela é obra de uma vida inteira sustentada pela fidelidade de Deus que prometeu completar o que começou, acompanhada pela igreja que não abandona o crente no limiar da porta aberta, e orientada pelo horizonte escatológico que revela o destino para o qual o processo aponta.
A liberdade que Cristo conquistou é suficiente. A formação que a torna habitável é necessária. E a graça que sustenta o processo é a mesma graça que conquistou a liberdade. E ela é inesgotável, fiel e acima de tudo, maior do que a distância entre o que somos e o que estamos nos tornando.
✝ In Lumine Tuo Videbimus Lumen.

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