O Drama da Liberdade Cristã

Broken rusty chain on textured paper marked with small black footprints
a libertação real seguida do caminho longo

Libertados, Mas Ainda Aprendendo

Esta também é uma daquelas frases que raramente aparece nos testemunhos de conversão, nos sermões de avivamento ou nos livros de espiritualidade cristã popular. Uma frase que a Escritura sustenta com certa honestidade que nos eixa desconfortáveis, mas que a cultura do triunfo eclesial sistematicamente evita. A frase pode ser simples, mas é suficiente para incomodar o ouvinte:

Escravos não sabem o que fazer com a liberdade.

A Porta Aberta Não É o Fim da História

O Êxodo é o paradigma bíblico mais rico para compreender esse drama. Quando Israel atravessou o mar Vermelho, a libertação era real, espetacular, soberana. No entanto, quarenta e cinco dias depois estavam saudosom das panelas de carne do Egito.

O que percebe-se é que a escravidão havia sido romantizada pela memória seletiva da distância. Os sofrimentos foram apagados; os confortos foram amplificados. E a liberdade do deserto, com sua incerteza, sua dependência de Deus, sua exigência de confiança diária, parecia inferior à servidão conhecida.

No entanto, o mecanismo não é peculiar a Israel. Ele é a operação da psicologia humana sob pressão. E é um dos padrões centrais pelos quais a mentalidade de escravo persiste no crente liberto: o pecado do qual foi liberto frequentemente parece, na distância e sob pressão, mais atraente do que era na realidade. Os quarenta anos no deserto não foram apenas punição, foram o tempo necessário para que uma geração formada pela escravidão fosse progressivamente substituída por uma que não conhecia a casa do escravo.

Portanto, a porta aberta é o começo, não o fim. Pois, do outro lado da porta há um caminho longo a ser percorrido.

A Mentalidade que Persiste

Este post tem como objetivo examina com precisão os padrões específicos que a escravidão forma na psicologia humana e que persistem no crente genuinamente libertado.

O medo como modo de existência: Não o medo circunstancial diante de uma ameaça específica, mas o medo como textura de fundo de toda experiência. Geralmente, o crente que foi formado pela ameaça permanente continua lendo as circunstâncias da vida como sinais do humor divino, interpretando dificuldades como punição, antecipando a retirada do favor que a justificação em Cristo nos garantiu como permanente. O apóstolo João nomeia esse medo de forma direta: “No amor não existe medo; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo envolve castigo, e quem teme não é aperfeiçoado no amor” (1 João 4.18) NAA.

A dependência como estrutura relacional: A abdição da função deliberativa própria em favor de uma autoridade que pense e decida no lugar do sujeito. O crente formado pela dependência busca, com a mesma urgência com que o escravo buscava as instruções do senhor, uma figura que substitua o senhor anterior. Pode ser um pastor, um sistema teológico exaustivo, uma tradição que regulamente cada aspecto da vida. O conteúdo muda; a estrutura permanece.

A fuga da responsabilidade: A transferência sistemática das consequências das próprias escolhas para circunstâncias, outros ou Deus. O escravo que falha aprende rapidamente a não assumir culpa, porque a culpa resulta em punição. Liberto, continua operando pelo mesmo reflexo: nunca assume completamente o peso daquilo que fez.

O Que o Evangelho Diz Sobre Isso

Em Romanos 8.15, Paulo nomeia o remédio com uma precisão que é ao mesmo tempo teológica e existencial: “Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes, outra vez, em temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!”

A verdade, é que o espírito de escravidão produz temor; a ansiedade do desempenho, a vigilância de quem nunca sabe se fez o suficiente. Já o espírito de adoção produz o clamor confiante de filho que conhece o Pai e sabe que é conhecido por ele.

No entanto, a transformação da mentalidade de escravo para a mentalidade de filho não ocorre por decisão. Ocorre por um processo que é ao mesmo tempo longo, dependente da graça e totalmente sustentado pelos meios que Deus providenciou: a Palavra que reforma a consciência, a oração que reorienta os desejos, a igreja que confronta com amor e acompanha com paciência.

Todavia, a libertação é real. Pois, a formação para a liberdade é o projeto de uma vida inteira. E a igreja que acompanha esse processo e que não abandona o convertido no limiar da porta aberta, mas caminha com ele no longo aprendizado de andar como livre, está fazendo algo que é ao mesmo tempo profundamente bíblico e profundamente contracultural.

A Liberdade que Se Aprende

Por exemplo, o filho mais velho da história narrada em Lucas 15 habitou a casa do pai como escravo “há tantos anos que te sirvo”, disse ele, usando o verbo grego para servidão. No entanto, ele estava no lugar certo, fazendo as coisas certas, pelas razões erradas. E quando a graça do pai transbordou para além da lógica transacional, ele ficou de fora.

O pai saiu ao seu encontro. A festa estava acontecendo. A herança estava disponível.

Tudo o que faltava era a decisão de entrar, de deixar para fora o sistema que havia governado a relação, e receber o amor que o pai oferecia sem a mediação da transação.

Essa decisão é o que chamamos de aprender a viver como livre. Não um evento único. Um processo. Custoso, lento, frequentemente não linear. Todavia, mais glorioso em seu destino do que qualquer progresso parcial poderia sugerir.

A porta está aberta. O Pai está esperando.


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✝ In Lumine Tuo Videbimus Lumen

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