
O Único Libertador Possível
Há uma frase no Novo Testamento que, quando lida com a atenção que merece, reorganiza tudo ao redor dela. E não é uma frase obscura ou surpreendente no vocabulário de tal forma que a torne digna de escrita com uma grafia ou tinta especial. O que a torna digna de atenção é justamente o fato de que em sua simplicidade concentra uma densidade teológica que, ao ser desdobrada, revela profundidades que uma leitura apressada nunca alcança.
“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou.” — Gálatas 5.1
O Apostolo Paulo não diz simplesmente “Cristo nos libertou”, e acrescentaria o para quê poderia perder toda a precisão. Ele também não diz algo do tipo; “para a liberdade fomos chamados”. Creio que com isso, perderia tanto o agente quanto o ato. Todavia, ele simplesmente diz: para a liberdade. E nenhuma outra palavra é acrescentada, nenhum outro propósito é mencionado, nenhum outro destino é apontado. Simplesmente, que, Cristo nos libertou.
O Que o Diagnóstico Exige pode ser Libertador
As três partes anteriores deste livro construíram um diagnóstico. A liberdade que a cultura promete nunca existiu da forma em que é prometida. A queda destruiu a liberdade original de maneira estrutural e universal. E toda tentativa humana de reconstruí-la entra em colapso. Motivo? porque o instrumento com que o homem tentaria se libertar compartilha o defeito da condição que precisa ser revertida.
Esse diagnóstico tem uma consequência lógica inevitável: o Libertador não pode vir de dentro da condição humana.
Em Romanos 8.3, Paulo o afirma com uma precisão que dispensa quelaquer atenuação: “o que era impossível à lei, visto como era fraca por causa da carne, Deus o fez: enviando o seu próprio Filho.” Observem; “Impossível à lei”. Isso não a lei em um instrumento imperfeito, mas simplesmente nos informam que a natureza humana caída não tem capacidade de cumpri-la. Pois, o que a lei não podia fazer, Deus fez. E o fez enviando Alguém que estava dentro da condição humana sem estar sujeito à escravidão que define a condição humana desde a queda.
Portanto, somente Aquele que nasceu livre pode libertar. Isso nos mostra que Cristo não nasceu em escravidão. Ele assumiu tudo o que é genuinamente humano(exceto o pecado – Hebreus 4.15). E precisamente porque é verdadeiramente humano sem ser escravo, pode libertar os que são humanos e escravos: não de fora, como libertador externo que não conhece a condição, mas de dentro, como Alguém que habitou a condição humana em toda a sua profundidade sem ser capturado por sua escravidão.
O Que Cristo Fez: Três Dimensões de Uma Obra
Assim, a libertação que Cristo opera não é declaração sem fundamento. Ela tem estrutura, agente e eficácia específicos, bem como abrange três dimensões inseparáveis que precisam ser mantidas juntas.
A primeira dimensão é a; obediência ativa. Ela nos diz que Cristo não veio apenas para morrer. Ele veio para viver a vida que o homem deveria ter vivido e não viveu. Desta forma, a justiça positiva que a lei exige e que nenhum ser humano pôde cumprir foi cumprida por ele. consequentemente, imputada aos que nele creem.
A segunda dimensão é a; obediência passiva — a cruz. Ela no ensina que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição em nosso lugar” (Gálatas 3.13). Aqui, a frase assume uma preposição é decisiva; em nosso lugar. E não, junto a nós, bem como também não; a nosso favor, de maneira difusa. A preposição diz; “Em nosso lugar”. Ou seja, ocupando a posição de condenados que era a nossa, recebendo a sentença que era a nossa.
A terceira dimensão é a; ressurreição. Ela nos revela e confirma que a maldição foi de fato revertida, e com isso, a inauguração da nova criação dá início. Uma ordem de existência em que a escravidão não tem mais domínio e a morte não tem mais a última palavra.
E o resultado dessa obra dupla é articulado em 2 Coríntios 5.21 com uma densidade que poucas frases da Escritura igualam: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que, nele, nos tornássemos justiça de Deus.” Dupla troca: nossos pecados imputados a Cristo, sua justiça imputada a nós. Com isso, o veredicto de “não há condenação” (Romanos 8.1) é pronunciado não sobre a base do desempenho do crente, mas sobre a base do desempenho de Cristo em lugar do crente.
Dois Tipos de Liberdade, Uma Obra
Desta forma, podemos afirmar que a libertação que Cristo opera tem duas dimensões que precisam ser distinguidas sem serem separadas. São elas;
A liberdade da condenação é forense e instantânea: o crente é declarado justo no momento da justificação, e esse veredicto não oscila com sua performance. Romanos 8 constrói uma sequência que fecha toda saída para a insegurança; “não há condenação”, “quem nos separará”, “nada nos poderá separar”. Como se Paulo antecipasse cada objeção possível e a descartasse uma por uma. A permanência não depende da consistência do crente. Depende da fidelidade de Deus.
A liberdade do poder do pecado é vital e progressiva: a regeneração inaugura uma nova natureza que dispensa qualquer tipo de conserto de uma natureza danificada. Pois, ela é a criação de uma orientação que não estava disponível na natureza caída. Ou seja, o pecado não deixa de atacar. Ele perde o seu domínio, a sua autoridade legítima de senhor. Com isso, a relação que antes era exercida pelas vias de senhor-escravo, muda para invasor-resistido.
A Lógica que Nenhuma Filosofia Produziu
E então Jesus acrescenta algo que inverte toda compreensão humana de liberdade: “Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á” (Mateus 16.25).
Todavia, a liberdade que Cristo concede não deve ser entendida como uma espécie de liberdade para a afirmação irrestrita do eu. Ela é a liberdade exercida pela rendição do eu ao único Senhor que liberta em vez de escravizar. Portanto, o Getsêmani é a demonstração mais completa disso: “Não se faça a minha vontade, mas a tua.” Observem, Jesus não é livre apesar dessa rendição. No entanto, Ele é livre precisamente nela. E isso acontece porque a vontade que se alinha a Deus não está sendo suprimida, mas sim, sendo o que foi criada para ser.
O grão de trigo que não morre fica só. O que morre dá muito fruto.
Essa é a lógica da cruz. Não apenas como doutrina sobre o que Cristo fez, mas como estrutura segundo a qual a vida do crente é formada. Morrer para ser livre, render-se para encontrar e perder para achar.
A Glória do Indicativo
Portanto, o diagnóstico declarou impossível o que a graça tornou possível. A escravidão que era total encontrou uma libertação que também é total. Bem como, a impossibilidade moral encontrou uma suficiência divina.
“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou.”
Todavia, não para nova escravidão religiosa. não para liberdade condicional que depende do desempenho. Mas, para a liberdade completa, suficiente, fundada na obra de Cristo. Bem como, não também para a obra do crente, mas, garantida pela fidelidade de Deus a qual dispensa qualquer consistência humana.
Essa é a mensagem mais libertadora que um ser humano pode ouvir. E ela foi pronunciada por Aquele que tem autoridade para pronunciá-la.
Este post integra a série baseada no livro “Liberdade Cristã: Entre a Graça e a Responsabilidade”, em desenvolvimento.
✝ Coram Deo et Hominibus

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