Weltanschauung: James Orr

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A glowing magical book casts swirling mystical light near ancient ruins at sunset

Depois de três textos, descendo pela filosofia alemã de Kant à morte de Deus em Nietzsche, chegamos ao ponto de virada desta série.

Hoje, falaremos de um teólogo escocês, quase esquecido do tempo presente fora dos círculos acadêmicos, e que no entanto, foi o primeiro a fazer algo que parece óbvio em retrospecto, mas que exigiu coragem intelectual em seu tempo. Pegar emprestada a ferramenta conceitual forjada pelo idealismo alemão e devolvê-la, com outro fundamento, que é a fé cristã.

James Orr e a Primeira Cosmovisão Cristã Sistematizada

Nos textos anteriores desta série, vimos que o termo Weltanschauung nasceu como uma percepção estética em Kant, tornour-se força histórica coletiva em Hegel, ganhou arquitetura psicológica em Dilthey, e finalmente, foi levada ao colapso niilista por Nietzsche.

Em cada etapa, o conceito se afastava mais de qualquer fundamento estável e se tornava cada vez mais historicizado, mais relativizado, mais vazio de verdade última. E é exatamente nesse ponto da história que James Orr (1844–1913) entra em cena.

O que nos conduz a pergunta;

Quem Foi James Orr?

Orr foi um grande professor de Apologética e Teologia Dogmática no United Free Church College, em Glasgow (Escócia). Formado na tradição reformada escocesa, ele acompanhava de perto os debates teológicos e filosóficos do continente europeu e inclusive o desenvolvimento do conceito de Weltanschauung que estivemos traçando nesta série.

Diferente de muitos teólogos de sua geração, que ou ignoravam o desafio filosófico alemão ou capitulavam diante dele, Orr decidiu enfrentá-lo de frente, no próprio terreno em que a batalha estava sendo travada.

Em 1893, ele profere as prestigiosas Kerr Lectures (Palestras Kerr – em memória de Joan Kerr), publicadas no mesmo ano sob o título The Christian View of God and the World as Centring in the Incarnation (A Visão Cristã de Deus e do Mundo). Esta obra é considerada, por David K. Naugle e por praticamente todo historiador do conceito, como sendo o primeiro tratamento sistemático e consciente de uma cosmovisão cristã. o momento em que o cristianismo deixa de apenas possuir implicitamente uma visão de mundo e passa a articulá-la, de forma deliberada, usando a linguagem que a própria filosofia secular havia criado.

A Ousadia de Batizar um Termo Estrangeiro

No entanto, há algo notável na escolha de Orr: ele não rejeitou a palavra “cosmovisão” por sua origem kantiana e hegeliana. Ele a ocupou. Nas palavras de um grande professor da minha caminhada teológica; ele a redimiu.

Pois, onde Kant via uma intuição estética do sujeito autônomo, e onde Hegel e Dilthey viam um produto do Espírito histórico ou da estrutura psicológica da vida, Orr propõe algo radicalmente diferente: que existe, sim, uma cosmovisão verdadeira. Não porque a mente humana a constrói com maior habilidade que as demais, mas porque Deus a revelou em Cristo.

Para Orr, o cristianismo não é apenas um conjunto de doutrinas isoladas sobre pecado, salvação e vida eterna. É acima de tudo, um sistema coerente e abrangente. E o termo que ele preferiu chamar foi justamente Weltanschauung. Um termo que oferece respostas integradas a todas as grandes questões: a natureza de Deus, a origem e o propósito do mundo, a condição humana, o problema do mal, o sentido da história e o destino final de todas as coisas.

Essa é uma resposta direta ao historicismo que vínhamos acompanhando: se Dilthey dizia que toda cosmovisão nasce de uma combinação situada de cognição, sentimento e vontade, Orr responde que a cosmovisão cristã, embora comunicada dentro da história, não é produto da história, ela é revelada por Aquele que está fora e acima dela, e que nela mesma entrou.

A Encarnação Como Centro Organizador

O subtítulo da obra de Orr por si só já entregava sua tese central: “…Centrada na Encarnação”. Diferente de sistemas filosóficos que buscam um princípio abstrato e dentre eles podemos citar o Espírito hegeliano, a Vida em Dilthey, a Vontade de Poder em Nietzsche, Orr propõe que o centro organizador de toda cosmovisão cristã é um evento histórico concreto: o Verbo que se fez carne.

Isso retoma, de forma direta, o texto com que abrimos esta série: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1.1,14). Onde Nietzsche declarou a morte do fundamento transcendente, Orr aponta para o momento em que esse fundamento transcendente entrou na história sem deixar de ser transcendente e sem se dissolver nela.

Fato é, que essa escolha teve uma consequência metodológica importante, que se tornaria marca registrada da cosmovisão cristã daquele ponto em diante: ela não é apenas um sistema de ideias abstratas sobre Deus e o mundo, mas está ancorada em um acontecimento, algo que aconteceu em um tempo e lugar específicos, e que pode (e deve) ser examinado historicamente, não apenas contemplado filosoficamente.

Orr Como Resposta ao Desafio Alemão

No entanto, é importante situarmos Orr dentro do panorama que construímos nos textos anteriores. Pois, ele escreveu em pleno auge do historicismo alemão e da crítica bíblica liberal que dele derivava. Correntes que tratavam o cristianismo como um produto cultural entre outros, sujeito às mesmas leis de desenvolvimento histórico que qualquer outra cosmovisão.

Orr conhecia bem esses argumentos; grande parte de sua obra teológica dialoga diretamente com Ritschl, com a teologia liberal alemã e com as correntes que reduziam a fé cristã a fenômeno psicológico ou histórico, nos moldes que Dilthey havia teorizado.

Assim, a sua resposta não foi o isolamento apologético, mas o confronto direto. Ou seja, usar a categoria “cosmovisão” nascida em Kant, desenvolvida por Hegel e Dilthey, precisamente para argumentar que o cristianismo oferece o sistema mais coerente, mais abrangente e mais racionalmente satisfatório entre todas as alternativas disponíveis, incluindo o materialismo, o panteísmo e o agnosticismo de sua época.

Nisso, Orr estabeleceu um padrão que seria seguido por praticamente todos que vieram depois dele nesta série: a cosmovisão cristã não se define apenas contra o mundo secular, isolando-se dele, mas se articula em diálogo com ele, e usando as mesmas ferramentas conceituais, para chegar a conclusões opostas.

O Legado de Orr

Embora hoje menos lido que Kuyper ou Schaeffer, James Orr é, segundo Naugle, o ponto de origem indispensável de toda essa tradição. Pois, sem ele, é difícil imaginar o vocabulário que Kuyper usaria poucos anos depois para descrever o calvinismo como sistema de vida abrangente, ou que Van Til e Schaeffer usariam, décadas mais tarde, para estruturar a apologética evangélica do século XX inteiro.

O Que Vem a Seguir

Dito isto, no próximo texto desta série, cruzaremos o Mar do Norte, da Escócia para a Holanda, para conhecer Abraham Kuyper, teólogo, jornalista, educador e, por um breve período, primeiro-ministro dos Países Baixos.

E se Orr lançou os fundamentos teóricos da cosmovisão cristã, Kuyper seria quem a converteria em programa de vida, cultura e ação pública, na frase que se tornaria símbolo de todo o movimento: “Não existe um centímetro sequer, em todo o domínio de nossa existência humana, sobre o qual Cristo, que é Soberano de tudo, não clame: Meu!”

Continue conosco.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1.14)

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