
DICAS DE LEITURA
04 — Como comunicar a fé em uma cultura que pensa de outra maneira?
I — APRENDER A ENXERGAR
Alister E. McGrath — Apologética Cristã no Século XXI
Ciência e arte com integridade
Quando enxergar já não é suficiente
Uma pergunta nasce da outra.
No primeiro passo desta trilha, James W. Sire nos ensinou que não encontramos a realidade de maneira intelectualmente neutra. Mas sim, que nós a interpretamos. O que Sire nos mostram é que toda pessoa vive a partir de alguma compreensão, explícita ou implícita, acerca do mundo, do conhecimento, da verdade e de si mesma.
Logo depois, C. S. Lewis nos obrigou a olhar para as consequências antropológicas dessa interpretação. Lewis nos ensinou que, se uma cultura abandona a existência de valores objetivos, ela não somente perde determinadas crenças morais, ela também começa a modificar a própria compreensão do que significa ser humano.
Na sequênia, vimos Francis A. Schaeffer levar a questão ainda mais longe. Aprendemos então, que não basta perguntar se determinada visão de mundo é internamente coerente. É necessário perguntar se ela corresponde à realidade. Para isso, o cristianismo não se apresenta simplesmente como uma maneira possível de organizar experiências humanas. Ele afirma que existe um Deus que está ali, que criou o mundo, que se revelou na história e que entrou na própria história, a saber, Jesus Cristo.
Mas então, surge uma nova questão.
Se o cristianismo afirma a verdade sobre a realidade, como essa verdade pode ser comunicada a pessoas que aprenderam a enxergar essa mesma realidade a partir de outras categorias?
É nesse ponto que chegamos a Alister McGrath.
A apologética começa antes da resposta
Nessa perspectiva, tratamos a apologética como uma espécie de arsenal intelectual.
Há argumentos para a existência de Deus.
Há argumentos relacionados à moralidade.
Há respostas ao problema do sofrimento.
Há evidências históricas para a ressurreição.
Há argumentos relacionados à confiabilidade das Escrituras.
E tudo isso possui seu lugar. Porém, McGrath, chama nossa atenção para uma questão anterior: qual argumento deve ser apresentado, a quem, em qual situação e de que maneira?
Sua proposta não consiste em abandonar a apologética tradicional, mas sim, em ampliá-la. A descrição da obra deixa isso bastante claro: McGrath procura remodelar a apologética tradicional, não para desacreditá-la, mas para complementá-la, oferecendo diferentes formas de conceber a tarefa apologética de acordo com as necessidades e oportunidades particulares.
Isso modifica significativamente a nossa pergunta. Pois, a apologética deixa de ser apenas:
“Qual é o melhor argumento para provar que o cristianismo é verdadeiro?”
E passa a incluir:
“Qual é o ponto de contato entre a verdade do evangelho e a pessoa que está diante de mim?”
Essa mudança tem impacto extremamente sigificante. Afinal, pessoas diferentes não chegam ao cristianismo carregando exatamente as mesmas perguntas.
Afinal,utra pode considerar a fé irracional.
Outra pode acreditar que ciência e cristianismo são incompatíveis.
Outra pode ter sido moralmente ferida pela própria experiência religiosa.
Outra pode não possuir sequer categorias para compreender por que a existência deveria apontar para Deus.
E responder adequadamente estas questões, exige mais do que conhecer respostas. Exige aprender a enxergar a pergunta que está por trás da pergunta.
2. Construindo pontes sem mudar o destino
Portanto, a imagem que estrutura a proposta de McGrath é particularmente apropriada: construir pontes.
Segundo a obra, uma ponte existe porque há uma distância entre dois lados.
No entanto, na apologética, essa distância pode assumir muitas formas.
Pode ser intelectual.
Pode ser cultural.
Pode ser moral.
Pode ser existencial.
Pode ser imaginativa.
Pode inclusive, resultar de experiências anteriores com a visão de cristianismo a qual estava inserida.
Sendo assim, a tarefa apologética consiste, em procurar os lugares onde essa distância pode ser atravessada.
Mas é justamente aqui que mora um perigo.
Construir uma ponte não significa mover o destino.
Ou seja, o evangelho não precisa ser alterado para tornar-se verdadeiro para cada geração. Pois, o que precisa ser examinado é a maneira como o evangelho é apresentado. E essa distinção é fundamental para a apologética.
Pois, uma apologética que altera o conteúdo da fé para torná-la culturalmente aceitável, já deixou de ser apologética cristã a muito tempo.
Todavia, uma apologética que simplesmente repete as mesmas respostas, independentemente das perguntas que uma cultura está fazendo, pode até conservar a verdade, mas, perderá a sua capacidade de comunicação.
McGrath procura ocupar justamente esse espaço entre dois extremos:
fidelidade sem insensibilidade; relevância sem acomodação.
Ciência e arte
O subtítulo da edição brasileira — Ciência e arte com integridade — expressa uma das intuições mais interessantes da obra. A apologética possui uma dimensão científica porque exige conhecimento, rigor, argumentação e integridade intelectual.
Com McGrath prendemos que a fé cristã não precisa ser protegida por argumentos intelectualmente frágeis. Crer não significa abandonar a razão.
Mas a apologética também possui uma dimensão artística.
Não porque a verdade seja uma obra de ficção, mas porque comunicar a verdade exige sensibilidade diante das pessoas, das circunstâncias, das imagens, das histórias e das perguntas que estruturam uma cultura.
Neste sentido, McGrath insiste que uma apologética indiferente à individualidade humana e à diversidade das situações nas quais as pessoas se encontram pode rapidamente perder sua capacidade de comunicação.
Isso significa que a verdade não muda, mas a forma de apresentar a verdade pode e deve considerar o interlocutor.
Dentro desta perspectia, o apóstolo Paulo nos oferecem exemplos dessa flexibilidade sem relativismo. Em Atenas, Paulo não começa sua argumentação da mesma maneira que começa diante de uma sinagoga.
Ele observa.
Ele escuta.
Ele identifica categorias.
Ele reconhece referências culturais.
E só então, anuncia o Deus verdadeiro.
E não digo isto porque o evangelho precise ser reconstruído a partir da cultura, mas porque a comunicação do evangelho precisa atravessar a cultura.
O ponto de contato
Aqui encontramos o conceito central para compreender a proposta de McGrath: o ponto de contato.
No entanto, não se trata simplesmente de encontrar algo na pessoa que já seja “cristão”.
Trata-se de identificar alguma dimensão da experiência humana na qual a pergunta pelo sentido, pela verdade, pela ordem, pela moralidade, pela finitude, pelo desejo ou pela transcendência possa abrir espaço para o anúncio cristão.
Entre os pontos de contato discutidos por McGrath aparecem, por exemplo:
- o desejo humano não satisfeito;
- a racionalidade;
- a ordem do mundo;
- a experiência moral;
- a angústia existencial;
- a consciência da finitude e da mortalidade.
O próprio índice da obra organiza sua primeira parte em torno desses diferentes pontos de contato.
Para a apologética, isso é importante porque desloca de uma situação artificial. Pois, não estamos diante de um tribunal imaginário no qual o cristão precisa vencer um debate. Estamos diante de pessoas reais.
Pessoas que desejam.
Que sofrem.
Que pensam.
Que duvidam.
Que amam.
Que têm medo.
Que possuem histórias.
Que carregam pressupostos.
E que, muitas vezes, fazem perguntas cuja dimensão espiritual elas mesmas ainda não perceberam.
A apologética não cria a fé
Todavia, há aqui outra salvaguarda teológica importante que precisamos apontar.
McGrath não transforma a apologética em uma técnica capaz de produzir conversões. Pois, a apologética pode remover obstáculos, esclarecer equívocos, responder objeções, mostrar coerência e apresentar a plausibilidade da fé.
Mas ela não cria a fé.
Isso preserva uma distinção particularmente especial:
o apologista pode construir a ponte; mas, somente Deus pode conduzir o pecador à fé.
A apologética, portanto, não substitui a evangelização. Ela serve à evangelização.
Essa relação é importante porque impede pelo menos dois erros opostos.
O primeiro é imaginar que a fé cristã não possui conteúdo racional e que, portanto, não precisa ser explicada.
O segundo é imaginar que uma demonstração lógica suficientemente sofisticada inevitavelmente produzirá fé. Isso é fantasioso. Nenhuma dessas posições faz justiça ao cristianismo.
A fé cristã possui sim conteúdo. Mas o conhecimento do conteúdo não equivale, por si só, à fé salvadora. E é por isso, que a apologética precisa reconhecer seus próprios limites.
As barreiras também precisam ser compreendidas
No entanto, uma das contribuições pedagógicas de McGrath é justamente a sua atenção às barreiras à fé.
Para McGrath, nem toda resistência ao cristianismo é puramente intelectual. Algumas barreiras são sim intelectuais, mas outras são históricas. Enquanto que;
Outras estão relacionadas à percepção de relevância.
Outras nascem de equívocos sobre a natureza do cristianismo.
Outras envolvem compromissos anteriores com sistemas alternativos de crença.
Outras ainda estão relacionadas à integridade pessoal, culpa ou sentimentos de inadequação.
O resultado é uma advertência importante:
não devemos responder a uma pessoa como se ela fosse apenas uma objeção ambulante. Pois, por trás de uma objeção pode existir uma história.
Por trás de uma pergunta filosófica pode existir uma experiência de sofrimento.
Por trás de uma rejeição intelectual pode existir uma caricatura do cristianismo.
Por trás de uma resistência moral pode existir uma questão que ainda não foi formulada adequadamente.
E é por isso, que a boa apologética precisa ouvir antes de responder.
O choque de cosmovisões
Neste ponto, McGrath retoma algo que atravessa toda a nossa primeira etapa: cosmovisão.
O problema não é apenas que algumas pessoas discordam de determinadas doutrinas cristãs.
Frequentemente, elas estão partindo de uma estrutura completamente diferente para decidir o que pode ser considerado verdadeiro.
McGrath dedica uma parte da obra ao que chama de “choque de cosmovisões”, examinando rivais modernos do cristianismo, incluindo racionalismo iluminista, marxismo, materialismo científico, feminismo, pós-modernismo e Nova Era.
Aqui nossa trilha retorna ao ponto de partida.
Sire nos ensinou que interpretamos a realidade.
Lewis mostrou que essa interpretação possui consequências para aquilo que entendemos como ser humano e valor.
Schaeffer perguntou se essa interpretação corresponde à realidade.
McGrath agora mostra que a comunicação cristã acontece em um ambiente no qual diferentes interpretações da realidade se encontram, disputam espaço e procuram convencer.
A apologética, portanto, não é apenas uma defesa de proposições.
É também uma forma de confronto entre maneiras de compreender o mundo.
Não basta responder: é preciso aprender a conversar
Talvez uma das maiores contribuições de McGrath para esta trilha seja recuperar a dimensão dialógica da apologética.
Afinal, a defesa da fé não precisa assumir imediatamente a forma de confronto. Ela pode assumir a forma de conversa.
Pergunta.
Escuta.
Esclarecimento.
Argumentação.
Narrativa.
Analogia.
Testemunho.
A própria conclusão da obra apresenta a apologética em ação como diálogo, pregação, apelo à imaginação, uso de formas literárias e diálogo com a cultura. Isso não significa transformar o cristianismo em uma experiência subjetiva.
Significa reconhecer que seres humanos não são convencidos apenas por silogismos.
Nós também pensamos por imagens, memórias, histórias, experiências, símbolos, desejos, esperanças e medos.
A razão continua indispensável. Mas a razão humana nunca funciona isoladamente de uma vida concreta.
McGrath e Schaeffer: da correspondência à comunicação
A relação entre Schaeffer e McGrath é especialmente importante dentro desta trilha.
Schaeffer nos ensinou a perguntar: O cristianismo corresponde à realidade?
McGrath acrescenta: Como essa correspondência pode ser apresentada de maneira intelectualmente íntegra e culturalmente inteligível?
Essa diferença pode até parecer e em certo sentido é pequena na formulação, mas enorme pedagogicamente.
Porque é possível estar absolutamente convencido de que o cristianismo é verdadeiro e, ainda assim, não saber comunicar essa verdade.
Também, é possível aprender a linguagem de uma cultura tão profundamente que, no esforço de ser compreendido, o cristão termine modificando aquilo que pretendia comunicar.
E é por isso que a apologética madura sempre evitará os dois erros.
Não podemos sacrificar a verdade para preservar a comunicação.
Mas também não devemos sacrificar a comunicação em nome de uma suposta fidelidade à verdade.
A verdade precisa ser dita. E precisa ser dita de modo que possa ser ouvida.
A pergunta certa para o século XXI
Mesmo que o título da obra utilize a expressão “século XXI”, a questão de McGrath continua atual justamente porque o problema não é simplesmente cronológico. Pois, cada geração produz novas formas de resistência, novas linguagens, novas sensibilidades e novas estruturas de pensamento.
Por isso, uma apologética cristã permanente precisa conservar duas características simultaneamente:
fidelidade ao evangelho e inteligência cultural.
Neste sentido, o apologista precisa conhecer suficientemente bem o cristianismo para não reduzi-lo. No entanto, esse mesmo apologista, também precisa conhecer suficientemente bem seu interlocutor para não responder a perguntas que ninguém está fazendo.
E essa talvez seja uma das maiores tentações da apologética contemporânea: combater inimigos intelectuais que já não existem, utilizando categorias que o próprio interlocutor jamais adotou.
O resultado é uma defesa que pode ser rigorosa e, ao mesmo tempo, irrelevante.
McGrath nos lembra que a apologética precisa começar onde as pessoas realmente estão.
Para ler McGrath com atenção
Ao percorrer Apologética Cristã no Século XXI, vale a pena manter algumas perguntas diante de nós:
- Qual é a diferença entre defender a fé e simplesmente vencer uma discussão?
- O que McGrath quer dizer com “ponto de contato”?
- Por que uma apologética precisa considerar pessoas e contextos diferentes?
- Como ciência e arte podem participar juntas da comunicação cristã sem que a verdade seja relativizada?
- Quais são as barreiras intelectuais, culturais e existenciais que podem dificultar a compreensão do evangelho?
Essas perguntas ajudam a perceber que a apologética não é uma coleção de respostas. Ela é uma disciplina de atenção.
No entanto, antes de responder, precisamos saber o que está realmente sendo perguntado.
Antes de apresentar um argumento, precisamos saber qual estrutura de pensamento tornou aquela objeção plausível.
E antes de falar, precisamos aprender a ouvir.
A pergunta que fica
Agora podemos enxergar o percurso dos quatro primeiros livros:
Sire:
Como interpretamos a realidade?
Lewis:
O que acontece ao homem quando perdemos a verdade objetiva?
Schaeffer:
O cristianismo corresponde à realidade?
McGrath:
Como comunicar a fé em uma cultura que pensa de outra maneira?
Perceba o movimento. Começamos com a percepção, passamos pela verdade, chegamos à realidade e terminamos diante da comunicação da verdade.
Assim, o primeiro movimento da trilha chega ao seu término.
Aprendemos a enxergar.
Mas agora surge uma pergunta inevitável:
Se afirmamos que o cristianismo é verdadeiro, em que sentido podemos dizer que conhecemos essa verdade?
Não basta afirmar que uma cosmovisão corresponde à realidade. Precisamos perguntar sobre o próprio conhecimento.
O que significa saber?
Quais são as condições da crença racional?
É possível crer racionalmente em Deus?
E, sobretudo:
A fé cristã pode ser intelectualmente justificada sem depender de uma fuga da razão?
É nesse ponto que a trilha precisa mudar de movimento.
Próxima etapa
II — APRENDER A PENSAR
05 — É racional crer em Deus?
Alvin Plantinga — Conhecimento e Crença Cristã
Se o primeiro movimento nos ensinou a enxergar, o segundo deverá nos ensinar a pensar.
Depois de perguntar como interpretamos a realidade, o que acontece quando perdemos a verdade, se o cristianismo corresponde ao real e como essa verdade pode ser comunicada, chegamos à questão epistemológica:
Como podemos saber?
Alvin Plantinga será nosso próximo interlocutor.
A pergunta já não será apenas se o cristianismo possui boas respostas.
Será se a própria crença cristã pode ser racional, intelectualmente legítima e epistemicamente justificada.
A trilha, então, passa da cosmovisão para a epistemologia.
De enxergar para pensar.
Dicas de Leitura
Ler. Pensar. Discernir.
Uma trilha de formação intelectual cristã.
Logos & Cosmos
Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

Seja bem-vindo à Trilha das Reflexões.