
Cosmovisão Como Fundamento da Razão
Em continuação a Série Weltanschauung, no texto anterior desta série, vimos Abraham Kuyper transformar a cosmovisão cristã de teoria em programa de vida (política, imprensa, universidade)sustentado pelas doutrinas da soberania de esferas e da graça comum. Neste post, avançamos uma geração e encontramos dois herdeiros diretos de seu projeto, que levam a cosmovisão cristã ao terreno mais técnico da filosofia e da apologética: Herman Dooyeweerd (1894–1977), na Holanda, e Cornelius Van Til (1895–1987), nos Estados Unidos.
Kuyper afirmou que Cristo é Senhor sobre cada centímetro da existência. E esa afimação deixou uma pergunta em aberto: por que a própria razão humana, sendo o instrumento com que filósofos, cientistas e teólogos pensam sobre tudo isso, não seria ela mesma um território neutro, comum a todos, cristãos ou não? Esse foi um dos desafios que esses dois pensadores holandeses de gerações seguintes decidiram responder a essa pergunta com todo o rigor que a filosofia acadêmica exige.
Dooyeweerd: A Filosofia da Ideia Cosmonômica
Coincidência ou não, Herman Dooyeweerd foi professor de filosofia do direito na Vrije Universiteit, a mesma universidade fundada por Kuyper décadas antes. Junto com seu cunhado Dirk Vollenhoven, ele desenvolveu o que ficou conhecido como filosofia da ideia cosmonômica, um sistema filosófico ambicioso que buscava fazer, em nível estritamente filosófico, o que Kuyper havia feito em nível teológico e cultural: mostrar que toda a realidade está sujeita à soberania ordenadora de Deus.
No entanto, a contribuição mais original de Dooyeweerd para a história que estamos contando é sua crítica ao que ele chamava de mito da neutralidade da razão. Argumentava ele que toda a tradição filosófica ocidental, de Platão a Kant, de Hegel a Dilthey, os próprios pensadores que acompanhamos nos primeiros posts desta série, operaram sob a suposição de que a razão humana é um instrumento autônomo, neutro, capaz de investigar a realidade sem pressupostos religiosos prévios.
Dooyeweerd negou essa suposição de forma radical. Para ele, não existe pensamento neutro. Em última nstância, toda filosofia, toda ciência, toda cosmovisão parte de um compromisso religioso, o que ele chamou de motivo-raiz, ainda que esse compromisso permaneça implícito ou não reconhecido pelo próprio pensador.
Dooyeweerd identifica, na história do pensamento ocidental, diferentes motivos-raiz rivais: o dualismo grego entre forma e matéria; a síntese medieval entre natureza e graça; o dualismo moderno entre natureza e liberdade (justamente o legado de Kant que abrimos nesta série); e o motivo bíblico de criação, queda e redenção, que ele propõe como fundamento de uma filosofia genuinamente cristã. Cada motivo-raiz gera, a partir de si, todo um sistema filosófico coerente. O que significa que, para Dooyeweerd, não existem apenas cosmovisões religiosas explícitas, mas toda filosofia é, em sua raiz, uma forma de cosmovisão religiosa, ainda quando se apresenta como puramente racional e secular.
Essa tese devolveu, com nova roupagem filosófica, a mesma pergunta que atravessou toda a nossa série desde Kant: existe uma razão neutra que todos compartilhem igualmente, independente de fé ou descrença? Dooyeweerd responde que não. E, ao fazê-lo, aprofunda filosoficamente a intuição de Kuyper de que não existe território neutro em toda a criação.
Van Til: A Apologética Presuposicional
Do outro lado do Atlântico, Cornelius Van Til, teólogo presbiteriano holandês-americano e professor no Westminster Theological Seminary, chega a uma conclusão semelhante à de Dooyeweerd, mas a aplica de forma mais direta ao campo da apologética cristã; a defesa racional da fé.
Van Til rompe com o modelo tradicional de apologética que buscava provar a existência de Deus, ou a veracidade do cristianismo, apelando a uma razão supostamente neutra e compartilhada entre crentes e incrédulos. E este é o mesmo pressuposto de neutralidade que Dooyeweerd atacava filosoficamente.
Para Van Til, esse método está condenado ao fracasso desde o início, porque não existe fato bruto, neutro, interpretado igualmente por todos. Todo fato é sempre um “fato interpretado”, e interpretado a partir de uma cosmovisão prévia, de um conjunto último de pressupostos sobre Deus, o homem e o mundo.
Disso nasce o que ficou conhecido como apologética presuposicional: em vez de argumentar a partir de premissas neutras até a conclusão de que Deus existe, Van Til propõe começar reconhecendo abertamente o pressuposto cristão; a existência do Deus trino, revelado nas Escrituras, como fundamento de toda inteligibilidade, e então demonstrar que apenas esse pressuposto torna possível a própria racionalidade, a lógica, a ciência e a moralidade que o incrédulo usa para questionar a fé.
Sem o Deus cristão como fundamento último, argumenta Van Til, o próprio incrédulo não teria base para confiar nas leis da lógica ou na uniformidade da natureza que sua ciência pressupõe.
Esta, certamente é uma inversão radical da estratégia apologética clássica: ao invés de provar Deus a partir da razão, Van Til argumenta que a razão só é inteligível a partir de Deus. Ou seja, para ele, toda cosmovisão não-cristã, vive de “capital emprestado”, usa categorias racionais e morais que só fazem sentido dentro de uma visão de mundo teísta, mesmo enquanto nega essa visão de mundo.
Dois Caminhos, Uma Convicção Comum
É bem verdade que, Dooyeweerd e Van Til divergiram entre si em pontos técnicos importantes como; a relação exata entre filosofia e teologia, o papel da revelação geral, a estrutura da própria apologética. Mas, ambos compartilharam a mesma convicção fundamental que os uniu à tradição que vimos se formar com Orr e Kuyper: não existe razão neutra, e toda cosmovisão, inclusive as que se apresentam como puramente científicas, filosóficas ou seculares, repousa, em sua raiz, sobre um compromisso religioso último, consciente ou não.
Naugle observa que essa contribuição holandesa é decisiva para a maturação do conceito de cosmovisão dentro da tradição cristã: ela transforma “cosmovisão” de uma categoria meramente descritiva (um jeito de catalogar diferentes sistemas de crença, como fazia Dilthey), em uma categoria epistemológica central: a lente através da qual toda razão humana necessariamente opera, sem exceção, sem neutralidade possível.
O Que Vem a Seguir
Até aqui, a história que contamos permaneceu majoritariamente dentro dos muros da academia; seminários, universidades, tratados técnicos de filosofia e teologia. No próximo texto da série, essa cosmovisão cristã sofisticada ganhará um tradutor extraordinário para o grande público: Francis Schaeffer, o apologista evangélico que, em sua comunidade L’Abri, na Suíça, e em obras como O Deus Que Intervém e Como Viveremos Então, levaria essas ideias complexas para além dos círculos acadêmicos, direto para a igreja, para os jovens e para a cultura ocidental do século XX.
Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis… tudo foi criado por ele e para ele.” (Cl 1.16)


