A Figura Feminina em Provérbios (II)

🎓 Versão Acadêmica

A Mãe como Mediação Sapiencial e Autoridade Pedagógica

Existe um elemento extremamente marcante no contexto sapiencial do livro de Provérbios. A figura materna certamente é algo que nos saltam os olhos dentro dos diálogos (1.8; 4.3; 6.20; 31.1) Esse elemento é decisivo para a compreensão da construção da figura feminina na literatura sapiencial israelita. Diferentemente da mulher estrangeira (Prov 1–9) e da Mulher Sabedoria (Prov 8–9), a qual a função é predominantemente simbólica e retórica, a mãe aparece como uma espécie de agente histórica e concreta da transmissão da tradição sapiencial.1 A presença dessa ilustre figura parece deslocar ou quem sabe, realocar a análise de uma leitura exclusivamente metafórica do elemento feminino para uma configuração mais pedagógica e até mesmo, institucional da autoridade feminina.

A Fórmula Parental e a Legitimação da Autoridade Materna

Em Provérbios 1.8 lemos:

“Meu filho, ouça o ensino de seu pai e não despreze a instrução de sua mãe.”2

Neste ponto, o paralelismo sintático parece não estabelecer uma hierarquia explícita entre a figura do pai e a figura da mãe. No entanto, ele coloca ambos (pai e mãe) como fontes normativas da instrução. Além do más, o uso do termo תּוֹרָה (torah) em referência ao ensino materno é particularmente significativo. Embora o termo possa designar instrução em sentido amplo, o seu emprego aqui confere uma espécie de densidade normativa particularmente à palavra da mãe, aproximando-a da tradição legal e pedagógica mais ampla de Israel neste período.3

Essa mesma estrutura reaparece em Provérbios 6.20, reforçando a fórmula dual. Essa repetição sugere que a autoridade materna não é incidental. Ao contrário, ela é constitutiva para a formação ética desse “meu filho” como é citado. Portanto, a instrução parental em Provérbios deve ser entendida como veículo primário de internalização da sabedoria. Ou seja, anterior à institucionalização cultual ou estatal.

Adiante, Provérbios 4.3 acrescenta um elemento memorial, ao reivindicar o espaço familiar como agencia primária da formação dos indivíduos no contexto social humano. Uma vez que na literatura bíblica Deus é o Agente Primário por excelência da educação geral. Desta forma, a menção explícita da mãe reforça a dimensão afetiva e relacional da transmissão sapiencial, que não se reduz a formalidade jurídica, mas envolve toda a modelagem identitária.

A Mãe de Lemuel: Sabedoria e Instrução Régia

Em Provérbios 31.1 somos surpreendidos pela introdução de um caso singular na literatura sapiencial:

“Palavras do rei Lemuel, de Massá, que a mãe dele lhe ensinou.”4

E eu gostaria de chamar a atenção para este ponto. Aqui, a mãe não apenas participa da instrução doméstica, mas também, instrui um rei. A utilização do verbo יסר (yāsar), ao qual é primordialmente associado ao campo semântico da disciplina (correção, instrução e repreensão) e da formação moral característica da literatura sapiencial, confere autoridade formal à mãe ao colocá-la como mediadora de uma instrução régia, algo notável no contexto do Antigo Oriente Próximo ao analisarmos seus paralelos.

Portanto, do ponto de vista literário, podemos afirmar que a mãe de Lemuel assume uma função análoga à do mestre sapiencial (Sábio). E do ponto de vista teológico, sua voz integra-se ao projeto ético do livro, reforçando que a ordem moral fundamentada no Temor de YHWH, também pode ser mediada por autoridade feminina. Desta forma, a presença feminina na moldura do livro (Prov 1–9 e 31) cria uma verdadeira inclusão estrutural que reforça a centralidade simbólica e prática da mulher na formação ética.

A Mãe como Figura de Estabilidade Ética

É notável como a inclusão da figura materna altera a leitura estrutural de Provérbios 1–9. Uma vez que a mulher estrangeira representa desordem e ruptura da aliança social (Prov 2.16–19; 5.1–23; 7.1–27), a figura materna automaticamente é associada à preservação da vida por meio da instrução. Conforme argumenta um dos principais especialistas em Literatura de Sabedoria do século XX, Roland E. Murphy, que analisa a polarização feminina no livro de Provérbios focando principalmente na personificação (figuras literárias) e na metáfora, em especial em sua obra The Tree of Life, Murphy argumenta que as figuras femininas em Provérbios 1-9 (Sabedoria vs. Loucura/Mulher Estranha) não são apenas descrições de mulheres reais, mas símbolos poderosos de dois caminhos de vida. Além do mas, a mãe, nesse cenário, representa o polo da estabilidade formativa.

Assim, a figura feminina em Provérbios não se limita à dicotomia entre o perigo e a idealização. Ela inclui uma forma estável e normativa de autoridade.

Implicações Comparativas: Mediação Feminina e Ordem Ética

A consideração da mãe também ilumina a comparação com a tradição egípcia. Nos textos associados à Ma’at, a instrução é frequentemente enquadrada na relação entre pai e filho ou entre oficial e subordinado, dentro da lógica da ordem cósmica e régia.5 Embora exista uma imensa gama de figuras femininas relevantes na mitologia egípcia, a mediação pedagógica explícita da ordem moral por uma mãe como voz instrutiva régia é menos comum nos textos sapienciais preservados.

Em Provérbios, entretanto, a ordem ética fundamentada no Temor de YHWH é transmitida também por mediação materna. Isso sugere que, enquanto Ma’at opera predominantemente como princípio cósmico e real, a sabedoria israelita incorpora uma dimensão doméstica e relacional mais ampla. Aqui, a autoridade feminina não é apenas simbólica, mas pedagógica e histórica.

Conclusão: Feminilidade como Eixo Multipolar de Autoridade

Podemos concluir, que a inclusão da figura materna permite reformular o eixo feminino em Provérbios como estrutura multipolar:

  1. A mulher estrangeira: Figura de desordem;
  2. A Mulher Sabedoria: Personificação da ordem divina;
  3. A mulher virtuosa: Encarnação prática da sabedoria;
  4. A mãe: Mediação pedagógica da tradição.

desta forma, essa configuração revela que a representatividade do gênero feminino em Provérbios constitui um dos principais veículos de construção da autoridade ética e teológica do livro. Ao lado da personificação cósmica da Sabedoria, a figura materna representa a sabedoria encarnada na formação cotidiana, tornando-se um verdadeiro elo entre a teologia do Temor de YHWH e a prática concreta da vida comunitária social hebraica no período em que o livro de Provérbios foi desenvolvido.

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  1. Claudia V. Camp, Wisdom and the Feminine in the Book of Proverbs (Sheffield: Almond Press, 1985), 13–37. ↩︎
  2. Bíblia e Estudo NAA. Barueri, SP :Sociedade Bíblica o Brasil2023. ↩︎
  3. Bruce K. Waltke, Provérbios: Volume 1Capítulos 1–15, Cultura Crista, 2019. ↩︎
  4. Idem: Bíblia e Estudo NAA ↩︎
  5. Miriam Lichtheim, Ancient Egyptian Literature, vol. 1 (Berkeley: University of California Press, 1973), 61–80. ↩︎

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