O Lobo em Pele de Cordeiro

O Lobo em Pele de Cordeiro – A Estética do Engano (Parte I de III)

O Lobo em Pele de Cordeiro e o falso Profeta, sem dúvidas é uma das figuras mais controversas de toda a Sagrada Escritura. Porém, antes de entramos no assunto, permitam-me regressar um pouco no temo.

A literatura sempre foi parte constitutiva da minha vida.
Mesmo em uma infância marcada por privações profundas — materiais, afetivas e estruturais —, os livros se tornaram refúgio, escola e horizonte. Entre as responsabilidades precoces de cuidar da casa, de dois irmãos mais novos, e o esforço quase heroico de frequentar a escola (que eu amava), encontrava tempo para ler. Ler era respirar.

Embora nutrisse profundo apreço pela literatura nacional, foi na estrangeira que algumas imagens se imprimiram de modo quase indelével na memória. Entre elas, uma em especial jamais me deixou em paz: a fábula de Esopo, “O Lobo em Pele de Cordeiro”.

Eu tinha por volta de dez anos quando a li.
E algo ali me perturbou de verdade.

Não se tratava da figura mítica de um animal disfarçado — isso, por si só, não me causava espanto. O que me inquietava era o gesto simbólico: a escolha consciente do engano. O lobo era, por natureza, um predador. Alimentar-se de animais menores não despertava em mim qualquer conflito moral. Era ordem da natureza.

Mas disfarçar-se de fragilidade, vestir-se daquilo que simboliza mansidão, inocência e confiança, apenas para tirar proveito — isso me parecia uma perversão intolerável da ordem das coisas.

Lembro-me de pensar, ainda criança:

por que não atacar como lobo?
por que fingir ser cordeiro?

Ali, sem que eu soubesse formular, já estava diante de uma intuição profundamente teológica: o mal mais perigoso não é o que se apresenta como mal, mas o que se mascara de bem.

Anos depois, por volta dos meus 14 ou 15 anos, quando o Senhor começou Sua obra em minha vida, fui novamente confrontado com a mesma imagem — agora não mais pela literatura clássica, mas pelas palavras do próprio Cristo:

“Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores” (Mt 7.15).

Nesse momento, compreendi algo decisivo:
Jesus não estava apenas advertindo contra falsos ensinos, mas revelando uma estética espiritual do engano.

O falso profeta não se apresenta como ameaça visível.
Ele assume a linguagem da piedade, a aparência da mansidão, os símbolos da fé. Ele habita o vocabulário do Reino, mas não participa de sua ontologia.

O problema do lobo em pele de cordeiro não é a violência — é a fraude.
Não é a força — é a simulação.
Não é o ataque — é a infiltração.

Por isso essa imagem atravessa séculos.
Ela expõe uma verdade desconfortável: o anti-Reino não se opõe frontalmente ao Reino; ele o imita, o parasita e o perverte por dentro.

Discernir não é aprender a reconhecer lobos que rosnam, mas lobos que sabem balir.
E essa é uma das tarefas mais urgentes da maturidade cristã.

A imagem do lobo em pele de cordeiro não pertence apenas ao universo das fábulas nem se limita à advertência moral da infância. Em Cristo, essa figura atravessa o campo do símbolo e se instala no centro da realidade espiritual.

O que antes causava incômodo intuitivo revela-se agora como um princípio de discernimento: o Reino de Deus não é ameaçado apenas por forças externas e declaradamente hostis, mas — e talvez sobretudo — por distorções internas que se apresentam com aparência de piedade, linguagem correta e gestos familiarmente religiosos.

Na advertência de Jesus, o perigo não está no erro grosseiro, mas no engano refinado; não na negação explícita da verdade, mas em sua apropriação funcional a serviço de outro espírito.

Assim, a pergunta deixa de ser apenas “quem é o lobo?”
E passa a ser:
como o lobo aprende a vestir a pele do cordeiro?
quais sinais o traem?
e por que tantas vezes ele é acolhido como guia?

Na Parte II, avançaremos do impacto simbólico para a análise teológica:
como o falso profeta opera,
como o engano se estrutura,
e por que a estética do Reino pode ser usada contra o próprio Reino.

Discernir não é suspeitar de todos, mas aprender a ver com clareza — à luz do Logos — a ordem verdadeira do Cosmos.

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