
DICAS DE LEITURA
01 — Como interpretamos a realidade?
I — APRENDER A ENXERGAR
James W. Sire — Apologética Além da Razão: Por que ver é realmente crer.
Uma trilha começa com uma pergunta
Toda caminhada precisa de um primeiro passo. Mas, antes de dar qualquer passo, precisamos saber o que estamos procurando.
A série Dicas de Leitura, do Logos & Cosmos, nasce dessa convicção.
Não queremos simplesmente reunir recomendações de bons livros cristãos. Queremos construir uma trilha de formação intelectual, na qual cada leitura nos conduza a uma pergunta, cada pergunta nos obrigue a reconsiderar alguma coisa e cada resposta nos prepare para a pergunta seguinte.
Por isso, a primeira pergunta da nossa caminhada é aparentemente simples:
Como interpretamos a realidade?
A pergunta é mais profunda do que parece.
Nós não apenas encontramos o mundo. Nós o interpretamos.
Interpretamos aquilo que vemos, aquilo que experimentamos, aquilo que consideramos verdadeiro, aquilo que julgamos bom, aquilo que admiramos e até aquilo que esperamos do futuro.
Mas de onde vêm essas interpretações?
É justamente nesse ponto que esta primeira leitura se torna importante.
Não começamos pelos argumentos, mas pelo modo como vemos
A apologética cristã é frequentemente associada à defesa racional da fé: argumentos sobre a existência de Deus, a confiabilidade das Escrituras, a ressurreição de Cristo ou a coerência da crença cristã.
Essas questões continuam sendo importantes.
Mas James W. Sire nos convida a perceber que a relação humana com a verdade é mais ampla do que a capacidade de vencer um debate.
Seu livro Apologética Além da Razão procura mostrar que existem na realidade sinais que apontam para uma dimensão transcendente e que podem ser percebidos não apenas por meio de argumentos formais, mas também através da literatura, da beleza, da experiência humana e daquilo que Sire chama de “sinais de transcendência”.
A própria edição brasileira apresenta a proposta como uma apologética mais abrangente, na qual verdade, bondade e beleza participam do testemunho cristão.
Isso nos leva a uma questão fundamental:
Será que o problema está apenas naquilo que as pessoas concluem ou também na maneira como aprenderam a enxergar?
A realidade não chega até nós sem interpretação
A realidade não chega até nós sem interpretação. Antes mesmo de formularmos argumentos, já carregamos pressupostos sobre aquilo que existe, sobre quem somos, sobre como conhecemos alguma coisa e sobre o que torna uma vida digna de ser vivida.
É por isso que duas pessoas podem observar o mesmo acontecimento e chegar a interpretações profundamente diferentes.
Elas não estão necessariamente olhando para mundos diferentes.
Podem estar olhando para o mesmo mundo a partir de estruturas interpretativas diferentes.
E é aqui que começa nossa caminhada.
A apologética também precisa ensinar a ver
Sire desloca a apologética de uma concepção exclusivamente combativa. Isso não significa abandonar a razão. Significa reconhecer que a verdade pode ser percebida em dimensões que um argumento isolado não consegue abarcar.
A literatura, por exemplo, pode revelar aspectos da experiência humana que uma definição conceitual não consegue expressar com a mesma força. Assim como, uma narrativa pode fazer-nos perceber a injustiça antes mesmo de conseguirmos defini-la. Ou ainda, uma obra de arte, por exemplo, pode despertar nossa percepção da beleza. Bem como, uma história pode revelar nossa própria condição.
Ainda nesta perspectiva, uma experiência de sofrimento pode obrigar-nos a perguntar se a realidade possui algum significado para além daquilo que conseguimos medir. Ou, um desejo humano pode apontar para algo que o objeto imediato do desejo não consegue satisfazer.
No entanto, nada disso substitui o pensamento. Mas tudo isso pode despertar o pensamento.
Essa é uma das intuições mais fecundas de Apologética Além da Razão: há ocasiões em que o problema não é a ausência de evidências, mas nossa incapacidade de perceber aquilo que está diante de nós.
Ver é mais do que olhar
O título da obra — Apologética Além da Razão: Por que viver é realmente crê — já indica a direção do argumento.Umavez, que Sire não está propondo uma fé irracional.
A questão é outra.
Existe uma diferença entre possuir uma informação e perceber o significado daquilo que está diante de nós. Podemos conhecer determinadas proposições sobre o mundo e, ainda assim, não perceber aquilo que elas revelam.
Podemos saber que a beleza existe e, contudo, permanecer indiferentes a ela. Alias, isso é mais comum do que imaginamos. Podemos reconhecer intelectualmente que o sofrimento é um problema e nunca permitir que ele nos conduza às perguntas mais profundas sobre a realidade.
Podemos conhecer argumentos sobre Deus e, ainda assim, não perceber a realidade para a qual eles apontam.
Por isso, a apologética precisa também formar uma espécie de atenção intelectual.
Não basta perguntar:
“Qual é o argumento?”
Precisamos aprender a perguntar:
“O que estou vendo?”
E, talvez ainda mais profundamente:
“Por que estou interpretando aquilo que vejo dessa maneira?”
Quando a literatura se torna uma janela
É nesse ponto que a literatura ocupa um lugar importante na proposta de Sire. A literatura não aparece simplesmente como ilustração de argumentos teológicos. Ela pode funcionar como uma janela para a realidade humana.
Autores que não compartilham da fé cristã podem, por exemplo, descrever com extraordinária profundidade a culpa, o desejo, a solidão, a beleza, a morte, a esperança ou a busca por significado.
No entanto, isso não transforma automaticamente suas obras em literatura cristã. Mas pode revelar algo importante sobre a própria condição humana.
A apologética, então, aprende a ouvir.
Em vez de perguntar apenas:
“Como posso responder a essa pessoa?”
começa a perguntar:
“O que essa pessoa está percebendo sobre o mundo?”
E depois:
“Que visão da realidade torna essa percepção possível?”
Essa mudança de postura é fundamental para quem deseja dialogar com a cultura sem reduzir a apologética a uma disputa de argumentos.
Verdade, bondade e beleza
Existe ainda outra dimensão importante nessa proposta.
A verdade cristã não é apresentada apenas como uma conclusão lógica. Ela está relacionada à realidade de Deus e, portanto, também às categorias de verdade, bondade e beleza.
Isso não significa transformar a beleza em uma prova simplista da existência de Deus. Significa reconhecer que a realidade humana possui dimensões que não podem ser reduzidas àquilo que é mensurável ou formalmente demonstrável.
Por que algumas coisas nos parecem belas?
Por que determinadas ações despertam em nós admiração?
Por que a injustiça nos incomoda?
Por que a experiência da morte parece não corresponder à maneira como imaginamos que a vida deveria ser?
Por que determinados desejos parecem apontar para algo que nenhum objeto finito consegue satisfazer completamente?
Essas perguntas não encerram a apologética. Elas a ampliam.
E é justamente essa ampliação que torna Sire uma escolha adequada para abrir nossa trilha.
O primeiro aprendizado: precisamos aprender a enxergar
É possível estudar teologia durante anos e ainda assim não perceber os pressupostos que governam nossa própria maneira de pensar.
É possível conhecer argumentos apologéticos e continuar interpretando a realidade a partir de categorias que nunca examinamos.
É possível defender a fé cristã e não perceber que o próprio modo como formulamos nossas perguntas já pressupõe determinada visão do mundo.
Por isso, nossa primeira tarefa não será responder a todas as perguntas.
Será aprender a enxergar as perguntas que já estão por trás das respostas.
Esse é o primeiro movimento da trilha:
I — APRENDER A ENXERGAR
Antes de aprender a argumentar, precisamos aprender a perceber. Antes de confrontar outras cosmovisões, precisamos reconhecer a nossa. Antes de perguntar se determinada resposta é verdadeira, precisamos perguntar qual concepção de realidade tornou aquela resposta possível.
Para ler Sire com atenção
Ao percorrer Apologética Além da Razão, vale observar especialmente quatro questões:
1. O que Sire entende por “sinais de transcendência”?
Não apenas como argumentos formais, mas como elementos da experiência e da realidade que podem despertar a percepção de algo que ultrapassa o mundo imediatamente observável.
2. Qual é o lugar da literatura na apologética?
Observe como a literatura pode ajudar a revelar aspectos da condição humana e da realidade que permanecem ocultos quando reduzimos o conhecimento ao argumento abstrato.
3. O que a beleza tem a ver com a verdade?
A proposta de Sire convida o leitor a considerar que uma apologética cristã pode falar não apenas daquilo que é verdadeiro, mas também daquilo que é bom e belo.
4. O que nossa maneira de ver revela sobre nossa cosmovisão?
Talvez esta seja a pergunta mais importante para nossa trilha.
Porque não estamos apenas tentando compreender Sire. Estamos começando a compreender como nós mesmos interpretamos a realidade.
A pergunta que fica
Toda boa leitura deveria nos deixar com alguma coisa que não tínhamos antes. Às vezes, é uma resposta. Mas, em outras ocasiões, é uma pergunta melhor.
Depois de Sire, talvez a pergunta já não seja simplesmente:
“Quais argumentos existem a favor da fé cristã?”
Talvez precisemos perguntar:
“O que acontece quando uma sociedade deixa de reconhecer que existem verdades que não dependem de nossas preferências?”
E essa pergunta nos leva imediatamente para uma questão ainda mais profunda:
O que acontece com o próprio ser humano quando a verdade objetiva deixa de orientar sua compreensão da realidade?
É essa pergunta que nos conduzirá à próxima etapa da caminhada.
Próxima etapa
02 — O que acontece ao homem quando perdemos a verdade objetiva?
Continuamos dentro do primeiro movimento:
I — APRENDER A ENXERGAR
Na próxima etapa, nossa atenção se deslocará da maneira como interpretamos a realidade para aquilo que acontece com a própria pessoa humana quando suas percepções de verdade, valor e realidade começam a ser reconstruídas.
A caminhada continua.
Dicas de Leitura — Ler. Pensar. Discernir.
Sobre a obra
SIRE, James W. Apologética além da razão: por que ver é realmente crer. São Paulo: Cultura Cristã, 2017.
A edição brasileira possui 160 páginas e foi publicada pela Cultura Cristã; o título original é Apologetics Beyond Reason: Why Seeing Really Is Believing.
Logos & Cosmos
Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.

Seja bem-vindo à Trilha das Reflexões.