C. S. Lewis

Quando a perda da verdade começa a transformar o próprio ser humano
Exitem livros que procuram defender a fé cristã contra seus críticos.
No entanto, há livros que fazem algo ainda mais profundo: questionam os pressupostos intelectuais que tornam possível a própria crítica à fé.
A genial obra de C. S. Lewis ; A Abolição do Homem, certamente pertence à segunda categoria.
Depois de inaugurarmos nossa série Dicas de Literatura com Apologética Além da Razão, de James W. Sire, seguimos agora para uma obra que nos conduz a uma pergunta decisiva para qualquer reflexão cristã sobre cultura, moralidade e cosmovisão:
O que acontece com o homem quando ele deixa de acreditar que existe uma verdade objetiva sobre o bem, o belo e o justo?
Lendo a obra, o leitor perceerá que Lewis não responde a essa pergunta apenas como teólogo. Ele a enfrenta como literato, filósofo e crítico da cultura.
Talvez seja justamente por isso que este pequeno livro continua sendo uma leitura tão provocadora.
Sobre a obra
LEWIS, C. S. — A Abolição do Homem
Publicado originalmente em 1943, o livro reúne três ensaios nos quais Lewis examina criticamente determinadas tendências intelectuais da modernidade, especialmente a redução dos valores morais a sentimentos subjetivos.
A obra é relativamente breve, mas sua ambição é enorme.
Lewis não está simplesmente perguntando se determinada regra moral é correta ou incorreta. Ele pergunta algo anterior:
É possível falar racionalmente de certo e errado se os valores forem apenas preferências humanas?
Conforme Lewis, se nós abandonarmos completamente a ideia de valores objetivos, não estaremos simplesmente mudando nossa moralidade. Estaremos comprometendo aquilo que significa ser humano.
O problema dos “homens sem peito”
Lewis inicia sua argumentação examinando a maneira como determinados valores são ensinados. Ele observa, que o problema surge quando julgamentos sobre beleza, bondade ou dignidade são reduzidos a meras reações subjetivas.
Dizer que algo é belo passa a significar apenas:
“Eu sinto que isso é belo.”
Dizer que algo é bom passa a significar:
“Eu aprovo isso.”
E nesse cenário, a razão pode continuar produzindo informações, cálculos e argumentos, mas, inevitavelmente perderá a sua capacidade de reconhecer valores.
É aqui que aparece uma das imagens mais fantástica do livro:
o homem sem peito.
Para Lewis, o ser humano não é simplesmente uma criatura dividida entre razão e desejos.
Existe uma dimensão intermediária. Aquilo que ele simboliza pelo “peito”, responsável pela formação dos afetos, do caráter, da coragem, da honra e da capacidade de amar aquilo que é verdadeiramente digno de amor.
Neste sentido, a educação que destrói essa dimensão pode até produzir pessoas intelectualmente informadas, todavia serão moralmente desorientadas.
Não é atoa que o resultado é uma civilização que possui cada vez mais conhecimento e, paradoxalmente, cada vez menos sabedoria.
O que é o “Tao”?
No segundo ensaio, Lewis introduz um dos conceitos mais importantes da obra: o Tao.
Lewis utiliza esse termo para designar, de maneira abrangente, aquilo que chama de valor objetivo. Aquela convicção de que determinadas coisas são realmente boas ou más, justas ou injustas, nobres ou desprezíveis, independentemente das preferências individuais.
Na obra, ele identifica manifestações dessa concepção em diferentes tradições filosóficas e religiosas, incluindo tradições platônicas, aristotélicas, estoicas, cristãs e orientais.
Certamente que isso não significa que Lewis considere todas essas tradições equivalentes ao cristianismo. O argumento de Lewis é outro.
Até mesmo sociedades muito diferentes reconheceram, de formas variadas, que existe uma ordem moral que não é simplesmente inventada pelo indivíduo. A questão, portanto, não é apenas:
“Quem determina o que é certo?”
Mas:
“Existe algo que torna o certo verdadeiramente certo?”
É uma pergunta profundamente apologética.
Quando o homem pretende conquistar a própria natureza
Com o terceiro ensaio, o argumento de Lewis ganha uma dimensão um tanto inquietante.
Ao contrário do que se pregam por ai, se o homem abandonar uma ordem moral objetiva, ele não se tornará necessariamente mais livre.
No entanto, simplesmente, ele se torna mais manipulável.
A ciência pode conquistar aspectos cada vez maiores da natureza. A tecnologia pode ampliar extraordinariamente nosso poder. Mas quem controla aqueles que controlam a natureza?
E segundo qual critério?
Se o próprio homem passa a ser tratado como matéria-prima, objeto de engenharia e instrumento para determinados fins, surge assim uma ironia terrível:
o homem conquista a natureza exterior enquanto perde a própria humanidade.
É nesse sentido que Lewis fala da “abolição do homem”.
Não significa necessariamente a extinção física da espécie. Significa a possibilidade de conservarmos a aparência humana enquanto perdemos aquilo que torna o ser humano propriamente humano.
A crítica de Lewis ao reducionismo é nesse ponto, especialmente importante: uma concepção de realidade que transforma tudo em mecanismo pode acabar transformando também o próprio ser humano em objeto de manipulação.
Por que esta é uma obra de cosmovisão?
Talvez essa seja a principal razão para incluirmos A Abolição do Homem na biblioteca do Logos & Cosmos.
Lewis não está simplesmente discutindo ética. Ele está perguntando sobre a estrutura da realidade. Pois, Se existe uma ordem moral objetiva, então o universo não é moralmente neutro.
Se existem valores que não dependem exclusivamente de nossas preferências, então a realidade possui uma dimensão normativa.
Se o ser humano possui uma natureza que pode ser aperfeiçoada ou corrompida, então não somos simplesmente matéria organizada.
E se existe uma ordem objetiva à qual devemos responder, então a pergunta sobre Deus deixa de ser uma questão periférica. Ela volta ao centro.
Uma ponte entre apologética e antropologia
É aqui que A Abolição do Homem dialoga de forma especialmente bem com Apologética Além da Razão, de James W. Sire.
Sire nos ajuda a perceber que toda pessoa interpreta a realidade a partir de uma cosmovisão. Lewis nos ajuda a perceber que toda cosmovisão possui consequências para aquilo que entendemos ser o próprio homem.
Assim, uma cosmovisão não permanece apenas no campo das ideias.
Ela molda:
- aquilo que consideramos verdadeiro;
- aquilo que consideramos bom;
- aquilo que consideramos belo;
- aquilo que desejamos;
- aquilo que ensinamos às próximas gerações;
- e, finalmente, aquilo que entendemos por ser humano.
Por isso, defender a fé cristã não consiste apenas em responder objeções intelectuais. Também significa perguntar:
Que visão de realidade torna possível a dignidade humana, a moralidade, a racionalidade e a esperança?
A grande provocação de Lewis
Talvez a pergunta mais desconcertante do livro seja esta:
Podemos rejeitar a verdade objetiva e ainda preservar as consequências morais que herdamos dela?
Veja; queremos justiça, mas negamos uma ordem moral objetiva. Queremos dignidade humana, mas reduzimos o homem à matéria. Queremos liberdade, mas rejeitamos qualquer verdade transcendente que possa limitar nossos desejos. Queremos responsabilidade moral, mas afirmamos que nossos valores são apenas construções sociais.
Queremos humanidade, mas tratamos o próprio ser humano como objeto manipulável
E é aqui que Lewis percebe uma contradição no coração da modernidade:
desejamos os frutos de uma árvore cujas raízes estamos cortando.
Por que ler A Abolição do Homem hoje?
Porque algumas das perguntas levantadas por Lewis tornaram-se ainda mais urgentes em nossos dias.
Em uma cultura marcada pelo relativismo moral, pela fragmentação da verdade e pelo crescente poder tecnológico sobre a vida humana, precisamos perguntar novamente:
O que significa ser humano?
A resposta não pode ser encontrada apenas naquilo que podemos fazer. Precisamos perguntar também:
O que devemos fazer?
E, antes disso:
Por que alguma coisa deve ser considerada boa ou má?
Lewis nos obriga a retornar ao terreno onde apologética, filosofia, ética, antropologia e cosmovisão se encontram. E assim, ele nos lembra que o debate sobre Deus não pode ser separado do debate sobre o homem. E que, quando perdemos uma visão adequada da realidade, talvez não percamos apenas uma ideia.
Podemos perder o próprio homem que pretendíamos libertar.
🎯 Para quem recomendamos este livro?
A Abolição do Homem é especialmente indicada para:
📌 Estudantes de teologia e filosofia
📌 Professores e líderes cristãos
📌 Leitores interessados em cosmovisão cristã
📌 Apologetas e interessados em diálogo cultural
📌 Educadores cristãos
📌 Leitores preocupados com ética, tecnologia e dignidade humana
📌 Cristãos que desejam compreender os fundamentos filosóficos da moralidade
E não se enganem com o tamanho físico desse material intelectual produzido por Lewis. Pode até ser uma leitura curta, mas não é uma leitura superficial.
Lewis exige do leitor atenção, reflexão e disposição para acompanhar um argumento filosófico que vai muito além de uma simples defesa da moral tradicional.
Uma leitura para pensar antes de responder
Talvez esta seja a melhor maneira de ler Lewis.
Não procurando imediatamente respostas para oferecer aos outros, mas permitindo que suas perguntas nos alcancem primeiro. Afinal, a apologética cristã começa muito antes da resposta.
Começa quando aprendemos a enxergar as perguntas por trás das perguntas.
E poucas obras fazem isso com tanta força quanto A Abolição do Homem.
Se James W. Sire nos ensina a perceber que as ideias possuem consequências, C. S. Lewis nos mostra que essas consequências podem chegar ao ponto de determinar que tipo de homem uma civilização será capaz de produzir.
Por isso, esta não é apenas uma recomendação de leitura.
É um convite à reflexão.
Antes de perguntarmos o que o homem pode conquistar, precisamos perguntar; o que é o homem?
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