A Abolição do Homem – C. S. Lewis

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DICAS DE LEITURA

02 — O que acontece ao homem quando perdemos a verdade objetiva?

I — APRENDER A ENXERGAR

C. S. Lewis — A Abolição do Homem

Uma pergunta nasce da outra

Toda caminhada intelectual precisa preservar a memória do caminho percorrido.

Na primeira etapa desta trilha, perguntamos:

Como interpretamos a realidade?

A leitura de James W. Sire nos levou a perceber que nossas interpretações do mundo não surgem no vazio. Elas são orientadas por pressupostos mais profundos sobre realidade, verdade, conhecimento, valor e significado.

Mas, se isso é verdade, uma nova pergunta inevitavelmente surge:

O que acontece quando determinada maneira de interpretar a realidade começa a redefinir aquilo que entendemos ser o próprio ser humano?

É exatamente nesse ponto que encontramos C. S. Lewis.

Publicado originalmente em 1943, A Abolição do Homem é uma obra breve, mas extraordinariamente densa. Em três ensaios, Lewis examina as consequências de uma visão de realidade na qual os valores objetivos são progressivamente reduzidos a sentimentos, preferências ou construções humanas.

Lewis não começa perguntando simplesmente:

“Qual é a moral correta?”

Ele vai mais fundo:

É possível preservar uma concepção objetiva do bem, do justo e do belo depois de negar que esses valores tenham alguma realidade para além de nossas preferências?

Essa pergunta nos leva diretamente ao segundo passo da nossa caminhada.

Quando a realidade perde sua dimensão moral

Uma das grandes provocações de Lewis é que não podemos alterar nossa compreensão da realidade sem produzir consequências sobre a maneira como compreendemos o homem.

Se aquilo que chamamos de “bom” é apenas aquilo que aprendemos a aprovar, o que acontece com a própria ideia de bondade?

Se “justo” significa apenas aquilo que determinado indivíduo ou grupo considera justo, o que acontece com a ideia de justiça?

Se a beleza não passa de uma reação subjetiva, podemos ainda dizer que alguma coisa é realmente bela?

E se todos esses valores forem reduzidos a sentimentos, preferências ou condicionamentos culturais, que fundamento permanece para afirmar que determinadas coisas devem ser desejadas e outras não devem?

Lewis percebe que o problema não é simplesmente moral. Ele é antropológico. em consequência, aquilo que uma sociedade acredita sobre o bem e o mal participa daquilo que ela acredita sobre o homem.

Os “homens sem peito”

É nesse contexto que aparece uma das imagens mais conhecidas de A Abolição do Homem: o “homem sem peito”.

Lewis utiliza essa imagem para falar de uma ruptura na formação humana. Pois, o ser humano não é apenas razão de um lado e desejos do outro.

Entre o pensamento e os impulsos existe aquilo que Lewis associa ao “peito”: a formação dos afetos, do caráter, da coragem, da honra e da capacidade de amar aquilo que é digno de amor.

O problema surge quando a educação ensina o indivíduo a desconfiar sistematicamente de seus próprios juízos de valor. neste sentido, podemos continuar ensinando informações. Podemos continuar desenvolvendo habilidades. Podemos continuar produzindo pessoas intelectualmente capazes.

Mas, se deixamos de formar os afetos para reconhecer o que é verdadeiramente digno de admiração, podemos produzir pessoas que sabem muito, mas não sabem o que merece ser amado.

Essa é uma das preocupações centrais de Lewis.

A questão não é simplesmente quanto conhecimento uma civilização possui.

É:

Que tipo de pessoa esse conhecimento está formando?

O problema do valor objetivo

No segundo ensaio, Lewis apresenta aquilo que chama de Tao.

O termo é utilizado por ele para designar uma ordem de valores objetivos, aquilo que permite afirmar que determinadas coisas são realmente boas ou más, justas ou injustas, nobres ou desprezíveis, independentemente das preferências individuais.

Lewis observa que manifestações dessa percepção moral aparecem em diferentes tradições humanas.

Seu argumento não é que todas essas tradições sejam equivalentes ao cristianismo.

O ponto é outro.

Civilizações muito diferentes reconheceram, de maneiras diversas, que existe alguma distinção entre:

aquilo que simplesmente desejamos

e

aquilo que devemos desejar.

Essa distinção é de extrema relevancia. Porque, se não existe qualquer realidade objetiva por trás de nossos juízos morais, em que sentido podemos dizer que uma pessoa deveria fazer o bem?

Podemos dizer que determinada ação não nos agrada.Podemos dizer que nossa sociedade a desaprova.Podemos dizer que fomos educados para rejeitá-la.

Mas essas afirmações ainda não respondem à pergunta:

Por que essa ação é realmente boa ou má?

É aqui que a discussão moral retorna à questão da realidade.

A moralidade não pode ser separada da antropologia

A força de A Abolição do Homem está justamente nessa conexão.

Lewis não está tratando a moralidade como um conjunto de regras isoladas. Ele está perguntando que tipo de realidade precisa existir para que conceitos como bem, mal, justiça, dignidade e dever tenham significado objetivo.

E isso inevitavelmente nos leva ao ser humano.

Se não existe uma ordem moral objetiva, o homem corre o risco de ser compreendido apenas como resultado de forças biológicas, psicológicas, sociais ou culturais. E nesse cenário, até mesmo nossos valores podem ser explicados como produtos de condicionamentos.

Mas então surge uma dificuldade:

Se nossos pensamentos e valores são apenas produtos de processos que não possuem compromisso necessário com a verdade, por que deveríamos confiar neles quando afirmam alguma coisa sobre a própria realidade?

A questão se torna circular.

E é justamente essa tensão que torna Lewis tão importante para uma reflexão sobre cosmovisão.

Quando o homem pretende conquistar a natureza

No terceiro ensaio, Lewis leva a discussão para um terreno ainda mais inquietante.

O ser humano desenvolveu instrumentos extraordinários para dominar a natureza.

A ciência amplia nosso conhecimento.

A tecnologia amplia nosso poder.

A medicina amplia nossas possibilidades.

A engenharia transforma nosso ambiente.

Mas Lewis faz uma pergunta que permanece desconcertante:

Quem controla aqueles que controlam a natureza?

O problema não é simplesmente o poder tecnológico. O problema é o critério pelo qual esse poder será utilizado. Pois, se não existe uma ordem moral objetiva, quem poderá dizer que determinada utilização do poder é realmente boa ou má?

E, se o próprio homem passa a ser tratado como objeto de manipulação, matéria-prima ou instrumento para determinados fins, aquilo que parecia ser uma conquista pode adquirir uma dimensão paradoxal.

O homem conquista a natureza.

Mas pode acabar tratando a si mesmo como parte daquilo que deseja conquistar.

A “abolição do homem”

É nesse sentido que Lewis utiliza a expressão que dá título ao livro.

A “abolição do homem” não significa necessariamente a extinção física da espécie humana. O perigo é mais profundo.

Podemos conservar a aparência humana enquanto perdemos determinadas concepções que historicamente sustentaram aquilo que entendemos por humanidade.

Se o homem é apenas matéria.

Se seus valores são apenas condicionamentos.

Se seus desejos são apenas impulsos.

Se sua razão é apenas resultado de processos que não possuem qualquer compromisso necessário com a verdade.

Se sua moralidade é apenas construção social.

Então, em que sentido ainda podemos falar de dignidade humana objetiva?

Lewis percebe uma ironia:

O homem pode adquirir um poder cada vez maior sobre a natureza enquanto perde uma compreensão objetiva de quem ele próprio é.

O problema, portanto, não é simplesmente o que podemos fazer com o homem.

É:

Quem estamos autorizados a dizer que o homem é?

De Sire a Lewis: da realidade ao homem

É aqui que a segunda etapa conversa diretamente com a primeira.

Sire nos ajudou a perceber que a maneira como interpretamos a realidade importa.

Lewis nos ajuda a enxergar uma consequência dessa percepção:

A visão que temos da realidade também molda nossa visão do homem.

Uma cosmovisão não permanece confinada ao campo das ideias abstratas.

Ela alcança nossas concepções de:

  • verdade;
  • bem;
  • beleza;
  • liberdade;
  • dignidade;
  • educação;
  • natureza humana;
  • responsabilidade;
  • futuro.

Por isso, uma mudança na cosmovisão pode produzir uma mudança na própria antropologia.

A pergunta:

“Como interpretamos a realidade?”

começa a gerar outra:

“O que nossa interpretação da realidade nos permite dizer sobre o ser humano?”

É por isso que A Abolição do Homem pertence ainda ao primeiro movimento da trilha.

Ainda estamos aprendendo a enxergar.

Só que agora nossa atenção mudou de foco.

Começamos olhando para a realidade.

Agora percebemos que, ao interpretá-la, estamos também interpretando a nós mesmos.

A provocação de Lewis

Talvez a pergunta mais desconcertante do livro possa ser formulada assim:

Podemos rejeitar a verdade objetiva e ainda preservar indefinidamente as consequências morais que herdamos dela?

Queremos justiça.

Mas podemos rejeitar qualquer fundamento objetivo para a justiça.

Queremos dignidade humana.

Mas podemos reduzir o homem a processos materiais.

Queremos liberdade.

Mas podemos rejeitar qualquer verdade transcendente que estabeleça limites para nossos desejos.

Queremos responsabilidade moral.

Mas podemos afirmar que nossos valores são apenas construções humanas.

Queremos preservar a humanidade.

Mas podemos tratar o próprio ser humano como objeto de engenharia e manipulação.

Lewis nos força a perceber que essas afirmações não convivem pacificamente. Talvez estejamos tentando conservar os frutos de uma árvore enquanto cortamos suas raízes.

Por que ler Lewis hoje?

A força contemporânea dessa obra não está em fornecer respostas prontas para todos os problemas do nosso tempo. Está em nos obrigar a retornar às perguntas fundamentais.

Em uma época marcada por transformações tecnológicas aceleradas, disputas sobre identidade, debates sobre dignidade humana e diferentes concepções de verdade e moralidade, as perguntas de Lewis continuam provocativas.

Mas é importante lê-lo sem incorrer na tentação de transformá-lo em um comentarista automático do presente. Lewis escreveu em outro contexto histórico.

Seu interlocutor imediato não é simplesmente a cultura contemporânea. Sua contribuição está em fornecer categorias para pensar uma questão mais profunda:

Que acontece com a humanidade quando uma sociedade perde uma concepção objetiva daquilo que é digno de ser amado, buscado e protegido?

Essa pergunta continua aberta.

E é justamente por permanecer aberta que vale a pena lê-lo.

Para ler Lewis com atenção

Ao percorrer A Abolição do Homem, vale observar especialmente quatro questões:

1. O que Lewis entende por valor objetivo?

Observe a diferença entre afirmar que algo é desejável e afirmar que algo é verdadeiramente digno de ser desejado.

2. O que significa ser um “homem sem peito”?

Não leia essa expressão simplesmente como uma crítica à falta de emoção. Lewis está preocupado com a formação dos afetos e do caráter em relação ao que é objetivamente digno.

3. Por que o poder tecnológico exige uma concepção moral do homem?

A questão de Lewis não é ser contra a ciência ou a tecnologia. É perguntar quais critérios devem orientar o poder que elas tornam possível.

4. O que nossa antropologia revela sobre nossa cosmovisão?

Esta talvez seja a pergunta mais importante desta etapa.

Porque uma visão de mundo nunca diz apenas o que pensamos sobre o universo.

Ela também diz:

“Que tipo de criatura é o ser humano?”

Uma leitura para pensar antes de responder

Talvez esta seja a melhor maneira de ler Lewis.

Não procurando imediatamente argumentos para vencer uma discussão. nem tão pouco, procurar frases para confirmar aquilo que já pensamos.

Mas permitindo que a pergunta do autor alcance primeiro nossas próprias convicções. Porque a apologética cristã começa muito antes da resposta.

Começa quando aprendemos a enxergar as perguntas por trás das perguntas.

Sire nos perguntou como interpretamos a realidade. Lewis nos pergunta o que acontece quando essa interpretação transforma a própria concepção de humanidade.

E a trilha continua.

A pergunta que fica

Depois de Sire, perguntamos:

Como interpretamos a realidade?

Depois de Lewis, percebemos que essa pergunta não pode permanecer abstrata.

Nossa maneira de compreender a realidade forma também nossa maneira de compreender o homem.

Mas então surge uma nova questão:

Se diferentes concepções de realidade produzem diferentes concepções de verdade, homem e mundo, como podemos saber se nossa própria maneira de compreender a realidade corresponde àquilo que realmente existe?

Essa será a próxima pergunta da caminhada.

Próxima etapa

03 — O cristianismo corresponde à realidade?

I — APRENDER A ENXERGAR

Na próxima etapa, continuaremos investigando a relação entre fé, verdade e realidade.

Se nossas cosmovisões moldam nossa percepção do mundo e nossa compreensão do ser humano, precisamos enfrentar uma questão inevitável:

A visão cristã da realidade é apenas uma interpretação entre outras ou ela corresponde, de fato, à realidade?

A caminhada continua.

Dicas de Leitura — Ler. Pensar. Discernir.

Sobre a obra

LEWIS, C. S. A abolição do homem.

Publicado originalmente em 1943, A Abolição do Homem reúne três ensaios nos quais Lewis examina a relação entre educação, valores objetivos, natureza humana e poder tecnológico. A obra permanece uma referência importante para debates sobre antropologia, moralidade, educação e cosmovisão.

Logos & Cosmos
Reflexões sobre Teologia, Filosofia e Cosmovisão Cristã.


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