
Hegel, Dilthey e a Cosmovisão como Espírito de Época
Uma percepção estética não muda o mundo. No entanto, um espírito de época, sim. Foi essa a transformação que a palavra “cosmovisão” sofreu entre Kant e o fim do século XIX. E é essa transformação que torna o conceito, pela primeira vez, perigoso e poderoso o suficiente para merecer uma resposta cristã.
No post anterior desta série, vimos Kant cunhar o termoWeltanschauung como algo até de certo modo, modesto: a intuição contemplativa do sujeito diante do mundo sensível, uma nota lateral em sua estética do sublime. Neste texto, veremos o que aconteceu quando esse conceito saiu das mãos de Kant e passou pelas de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831) e, décadas depois, Wilhelm Dilthey (1833–1911). O resultado deixa deser uma percepção individual, e passa a ser um sistema, uma força histórica, quase um organismo vivo que atravessa culturas inteiras.
Hegel: Da Percepção ao Espírito
É bem verdade que Hegel herda de Kant a consciência de que a mente não é passiva diante da realidade, mas, rejeita a ideia de que exista um limite fixo (a “coisa em si”) além do qual o pensamento não pode chegar. Para Hegel, a razão não apenas organiza a experiência: ela se desdobra na história, e a história é o próprio processo pelo qual o Espírito (Geist) chega ao conhecimento de si mesmo.
Nesse sistema, uma “visão de mundo” deixa de ser um ato isolado do sujeito individual e passa a ser a expressão de um momento do Espírito objetivo. E assim, a filosofia, a religião, a arte e a política de uma época são todas manifestações do mesmo movimento histórico avançando em direção à sua autoconsciência plena.
David K. Naugle observa que, com Hegel, a cosmovisão adquire pela primeira vez uma dimensão coletiva e histórica: já não se trata apenas de como um indivíduo percebe o mundo, mas de como uma época inteira; um povo, uma cultura, uma civilização, pensa, sente e se organiza diante da realidade. É o nascimento da ideia de que existem cosmovisões de época, sistemas de pensamento que nascem, amadurecem e são superados por outros, num processo dialético de tese, antítese e síntese.
Essa ideia gera uma tensão que a tradição cristã levaria séculos para nomear com precisão: se toda cosmovisão é apenas um momento passageiro de um Espírito em desdobramento, então nenhuma cosmovisão (inclusive a cristã)poderia reivindicar uma verdade permanente. Ou seja, tudo seria etapa, nada seria fundamento.
Dilthey: A Cosmovisão Como Estrutura da Vida
Se Hegel historiciza o conceito de cosmovisão, Dilthey é quem psicologiza e a sistematiza. Conhecido como sendo o Filósofo da Lebensphilosophie (filosofia da vida), Dilthey busca compreender como surgem as grandes visões de mundo. Entre elas, as filosóficas, as religiosas e as artísticas, a partir da estrutura mesma da experiência vivida (Erlebnis).
Para Dilthey, toda Weltanschauung nasce de uma tríade: uma estrutura da realidade (como o mundo é), uma avaliação da vida (o que ela vale) e um conjunto de ideais (o que se deve fazer). Assim temos cognição, sentimento e vontade. com isso, os três se combinam para produzir aquilo que ele chamou de “cosmovisão”: não uma teoria abstrata, mas uma resposta existencial completa ao ao chamado “enigma da vida”.
É também Dilthey quem propõe uma das classificações mais influentes da história do conceito. E desta forma, as cosmovisões humanas se organizariam em três grandes tipos; naturalismo, idealismo da liberdade e idealismo objetivo. Cada um oferece uma resposta diferente às mesmas perguntas últimas: o que é real, o que vale a pena, para onde caminhamos.
Naugle destaca algo importante aqui: com Dilthey, o termo cosmovisão finalmente ganha a arquitetura conceitual que reconhecemos hoje, um sistema abrangente que integra metafísica, ética e propósito de vida. E é a partir dele, mais do que de Kant ou Hegel, que a palavra passa a circular na filosofia, na teologia e nas ciências humanas com o sentido robusto que os cristãos do século seguinte passa a herdar e ocupar.
O Preço do Historicismo
Há, porém, uma sombra nesse desenvolvimento. Tanto em Hegel quanto em Dilthey, a cosmovisão está profundamente enraizada no historicismo: a convicção de que toda verdade, todo valor, toda estrutura de sentido é produto de seu tempo e lugar, e portanto, relativa a ele.
Se para os gregos o Logos era a razão ordenadora e permanente inscrita no real, conforme o fundamento que já estudamos nesta série, para Hegel e Dilthey a “razão” que organiza o mundo é, ela mesma, histórica, mutável, situada.
Nenhuma cosmovisão fala a partir de um ponto fixo fora do tempo. Todas, inclusive a que se apresenta como definitiva, são filhas de sua época.
É precisamente contra esse relativismo latente, e não apenas contra o naturalismo ou o materialismo, que a apropriação cristã do conceito, algumas décadas depois, precisaria se posicionar.
Portanto, quando James Orr e Abraham Kuyper falarem em “cosmovisão cristã”, eles estavam fazendo algo de uma natureza extemamente ousada: usando uma ferramenta conceitual forjada no historicismo alemão para afirmar exatamente o oposto daquilo que seus criadores pressupunham. Ou seja, que existe sim, uma verdade revelada, estável, que não é mero produto do seu tempo, ainda que se manifeste dentro da história e consequentemente, do tempo.
O Que Vem a Seguir
Poré, antes de chegarmos a essa apropriação cristã, a história do conceito precisava passar por aquele que talvez seria o seu momento mais sombrio.
No próximo texto da série, veremos como Friedrich Nietzsche leva o historicismo às suas últimas consequências, declarando não apenas que toda cosmovisão é situada e passageira, mas que a própria busca por um fundamento último, um Logos que ordene o real, é uma ilusão que o homem maduro deve abandonar.
E este é o ponto de ruptura mais radical entre a cosmovisão que este blog busca articular e a cosmovisão que a nega desde dentro.
“Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente, fortalecei-vos.” (1Co 16.13)

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