Weltanschauung

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Weltanschauung: Kant e o Nascimento de um Conceito

Kant e o Nascimento de um Conceito

Toda palavra tem uma data de nascimento. A palavra “cosmovisão” nasceu na Alemanha, no fim do século XVIII, e sua origem não é teológica, ela é estética.

Antes mesmo de ser um instrumento da apologética cristã, antes mesmo de Kuyper falar em senhorio de Cristo sobre “cada centímetro quadrado” e antes mesmo de Naugle escrever sua história do conceito, a palavra que hoje chamamos de cosmovisão surgiu de um lugar inesperado: a filosofia crítica de Immanuel Kant (1724–1804).

Este texto abre a série Weltanschauung — A Cosmovisão em Marcha, continuação direta da nossa reflexão inaugural sobre Cosmovisão Cristã. Se ali perguntamos o que é e por que importa, aqui perguntamos algo anterior: de onde veio essa ideia, e o que estava em jogo quando ela surgiu?

O Termo Que Kant Não Sabia Que Estava Criando

Em 1790, na Crítica da Faculdade do Juízo (Kritik der Urteilskraft), Kant emprega pela primeira vez a palavra Weltanschauung. Ele a usa ao discutir o sublime, aquela experiência em que a mente humana, diante da imensidão do cosmos (o céu estrelado, o oceano, o infinito, etc.), é forçada a apreender o mundo sensível como um todo.

Para Kant, Weltanschauung designava, nesse momento, algo relativamente modesto: a intuição contemplativa do mundo sensível, literalmente, uma “visão” (Anschauung) do “mundo” (Welt). Não era ainda um sistema de crenças, nem uma estrutura interpretativa da existência. Era um ato da percepção, situado dentro de sua arquitetura crítica entre sensibilidade, entendimento e razão.

David K. Naugle observa que essa origem é significativa precisamente por sua modéstia. Pois, o conceito que hoje carrega peso existencial e teológico começou como uma nota lateral na teoria estética kantiana. Quase um acidente filológico que a posteridade transformaria em categoria central do pensamento ocidental.

Por Que Isso Não é um Detalhe Menor ?

Poderia parecer curiosidade de rodapé. mas não é. A gênese kantiana do termo carrega pelo menos três implicações que atravessarão toda a história do conceito:

  • Cosmovisão nasce ligada à subjetividade transcendental. Não a uma realidade dada e revelada, mas a estruturas da mente que organizam as experiências.
  • Cosmovisão nasce separada da metafísica clássica. Kant já havia, na Crítica da Razão Pura (1781), fechado o acesso direto à “coisa em si”; toda “visão de mundo” seria, desde o início, uma visão mediada.
  • Cosmovisão nasce no território da estética e do sentimento, não da doutrina ou do dogma. E este é um ponto que ecoaria séculos depois, na definição de James W. Sire a qual particularmente achei fantástica. Sire define cosmovisão como sendo uma “orientação fundamental do coração”.

Percebo aqui uma ironia digna de nota: o termo que a tradição cristã mais tarde ocuparia e sistematizaria, de Orr a Kuyper, de Van Til a Schaeffer, nasce exatamente no sistema filosófico que ergueria um muro entre a razão humana e a realidade última das coisas.

Kant e a Ruptura com o Logos Clássico

A nossa série anterior (Logos & Cosmos) começou com o Logos em Heráclito e Aristóteles, a convicção grega de que existe uma razão ordenadora inscrita na própria estrutura do real, acessível à mente humana. É bem verdade que Kant não nega essa ordem. Porém, ele a relocaliza. Para ele, a ordem que encontramos no mundo não é primariamente uma propriedade do cosmos que contemplamos, mas uma contribuição da mente que o organiza.

Podemos dizer que é uma verdadeira revolução copernicana, se e que assim podemos classificar. Pois, nas palavras do próprio Kant: não é o sujeito que gira em torno do objeto, mas o objeto que passa a girar em torno das categorias do sujeito.

Não é difícil perceber que o efeito, para a história que estamos traçando é decisivo. Pois, se toda “visão de mundo” é, em alguma medida, construída pela mente que a produz, então o próprio terreno está preparado para que, um século depois, “cosmovisão” deixe de significar uma percepção estética individual e passe a significar algo muito maior. Um sistema total de crenças, historicamente situado, que Hegel e Dilthey desenvolveram, e que a tradição cristã, mais tarde, ocuparia com outro fundamento: não a mente autônoma, mas a revelação de Deus.

O Que Vem a Seguir ?

Podemos dizer assim; Kant abre a porta. No entanto, ele não a atravessa sozinho.

No próximo texto da série, veremos como Hegel e Wilhelm Dilthey transformam essa intuição estética individual em algo coletivo e histórico, uma cosmovisão de época, um espírito objetivado no tempo. É o passo que prepara o terreno tanto para as grandes cosmovisões seculares do século XIX (o positivismo, o materialismo histórico) quanto para a resposta cristã que começaria a ser articulada, décadas depois, na obra de James Orr.

A pergunta que fica e que carregaremos adiante é: se a mente humana constrói sua própria visão do mundo, resta saber; ela descobre uma ordem que já existia antes dela, ou apenas projeta uma ordem que não está lá?

É exatamente essa pergunta que separará, na história que estamos por contar, a cosmovisão que se ajoelha diante do Logos daquela que pretende ocupar o seu lugar.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (Jo 1.1)

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