13 — Alegria como dom debaixo do sol

Comer, beber e viver com gratidão

Movimento V — O que Qohelet aprende? (Viver no limite).

Ao longo do livro, uma frase retorna como refrão inesperado:

“Não há coisa melhor do que comer, beber e fazer que a alma goze do bem do seu trabalho.” (cf. Ec 2.24; 3.13; 5.18; 9.7)

Aqui, as palavras de Qohelet referente ao sentido da vida debaixo do sol não pode ser interpretada como escapismo. Nem hedonismo.
É teologia prática.

Depois de desconstruir ilusões; riqueza como garantia, sabedoria como controle, trabalho como permanência. Qohelet nota algo sólido: a alegria simples como dom divino.

Comer, beber, desfrutar o trabalho. Nada disso é trivial.
É graça ordinária.

Alegria recebida, não conquistada

Qohelet insiste: essa alegria não é produzida pela força humana.

“Isso vem da mão de Deus.” (Ec 2.24)

Aqui está uma distinção fundamental:

  • Prazer conquistado é instável.
  • Alegria recebida é dom.

O ser humano não controla os resultados finais da vida. Mas pode receber o presente com gratidão.

Pois, a alegria, em Eclesiastes, não nasce da compreensão total da realidade. Nasce da confiança humilde no Doador.

Teologia do cotidiano

Desta forma, Qohelet não constrói uma espiritualidade abstrata.
Ele encontra Deus:

  • na mesa posta;
  • no trabalho honesto;
  • na companhia amada;
  • no dia comum.

Essa é uma teologia do ordinário.

E mesmo em um mundo onde o sentido último parece oculto,
o cotidiano se torna lugar de encontro com o divino.

Não porque resolve o enigma, mas porque é sustentado por Deus.

Resistência sapiencial ao desespero

Depois de afirmar que:

  • a morte é universal,
  • a injustiça é real,
  • o controle é limitado,

Qohelet poderia concluir com resignação amarga.

Todavia, ele escolhe algo radical: Alegria.

Não como negação da dor, mas como resistência à desesperança.

Ensinando, que desfrutar o bem possível é um ato de fé. É afirmar que, apesar do mistério, Deus ainda concede dádivas.

Viver no limite

Interessante. O aprendizado de Qohelet não elimina a tensão da vida debaixo do sol.

Ele vive entre:

  • finitude e eternidade;
  • ignorância e reverência;
  • trabalho e transitoriedade;
  • morte e gratidão.

Em Eclesiastes, viver no limite significa:

  • não exigir da vida aquilo que ela não promete;
  • não transformar expectativas em absolutos;
  • não absolutizar aquilo que é transitório.

Ou seja, é aceitar a condição humana sem abandonar o temor de Deus.

Conclusão

Portanto, a alegria em Eclesiastes não é superficial.

Ela nasce depois da decepção, depois da crítica e depois da lucidez. Podemos dizer que é uma alegria sóbria. Grata.
Consciente da fragilidade da vida debaixo do sol.

Assim, com Qohelet aprendemos que o sentido não está em dominar o tempo, mas em receber o momento.

E isso, paradoxalmente, basta.


→ Continuar em Eclesiastes

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